Depois de ler vocês-sabem-qual-livro, resolvi dar uma olhada no catálogo da editora. Fiquei surpreso ao constatar que se tratava de uma casa publicadora de livros de auto-ajuda. Para vocês verem como esses safados ganham dinheiro: até podem publicar grandes best sellers mundiais de qualidade duvidosa. Maior foi minha surpresa, porém, quando recebi meus dois exemplares de O Guia do Mochileiro das Galáxias (houve uma certa confusão com esse negócio de lista de presentes), de Douglas Adams, e vi que era um edição da Sextante. Eu estava curioso para ler esse livro havia algum tempo, mas broxei imediatamente: já havia associado a má qualidade ao nome da editora.
Qual o quê! O livro (escrito em 1979, eu não sabia, sou um ignorante) é excelente. Li muito rápido e já encomendei na Livraria Cultura a série completa de 6 livros, em inglês. Eis um trecho desse primeiro:

Um buraco acabara de aparecer na Galáxia. Tinha exata­mente um zerézimo de centímetro de largura e muitos mi­lhões de anos-luz de comprimento.
Quando se fechou, um monte de chapéus de papel e balõe­zinhos de borracha saíram dele e se espalharam pelo Universo. Um grupo de sete analistas de mercado de um metro e meio de altura também saiu do buraco e morreu logo em seguida, em parte por asfixia, em parte por espanto.
Duzentos e trinta e nove mil ovos estrelados também saíram, materializando-se sob a forma de uma grande omelete na terra de Poghril, no sistema de Pansel, onde havia muita fome.
Toda a tribo de Poghril morrera de fome, com exceção de um último homem que morreu de intoxicação por colesterol algumas semanas depois.
O zerézimo de segundo durante o qual o buraco existiu teve as mais improváveis repercussões no passado e no futuro. Num passado remotíssimo, ele causou perturbações profundas num pequeno grupo aleatório de átomos que cruzavam o espaço vazio e estéril, fazendo com que se agrupassem das maneiras mais extraordinárias. Estes agrupamentos rapidamente apren­deram a se reproduzir (era essa uma das características mais extraordinárias deles) e acabaram causando perturbações mui­to sérias em todos os planetas onde foram parar. Foi assim que começou a vida no Universo.

Ao ler esse e outros trechos, comecei a pensar na possibilidade de Douglas Adams ter alguma ligação com o grupo de humor inglês Monty Python. Nem precisei pesquisar muito. Não sei se vocês sabem, mas recentemente eu comprei UMA CAIXA COM CATORZE DVDs CONTENDO OS 45 EPISÓDIOS DO MONTY PYTHON’S FLYING CIRCUS. Pois muito bem. Assistindo aos episódios, fiquei sabendo que John Cleese abandonou o grupo depois da quinta temporada, em 1973. Uma das conseqüências disso foi um maior número de aparições de Terry Gilliam nas esquetes. Gilliam, único americano do grupo, fazia aquelas animações que beiravam o surreal. Em algumas esquetes ele imita um sotaque britânico, mas na maior parte dela faz papéis absurdos e não fala nada.
Pois bem. Além disso, com a saída de Cleese, Graham Chapman precisava de um parceiro para escrever suas bobagens. Chapman (que morreu de câncer em 1989) escreveu com John Cleese boa parte das esquetes mais memoráveis do Monty Python. Com quem ele escreveria depois da saída de seu parceiro? Com quem? Acertou quem disse Douglas Adams! O escritor fez até uma ponta no episódio 44, e teve um de seus textos com Chapman encenado no 45º. Seria o início de uma promissora carreira no Monty Python, não fosse o fato desse ter sido o último episódio da série. Ao que parece ele continuou amigo de Chapman. Ou pelo menos estava presente quando John Cleese fez um discurso de elogio ao amigo recém-falecido.
Em 1979, como eu já disse, Douglas Adams escreveu The Hitchhiker’s Guide To The Galaxy, origem de uma séria muito famosa (a qual só o ignorante aqui não conhecia, aparentemente). Morreu em 2001. E, junto com o Monty Python, ajudou a alegrar a vida de um pobre ignorante careca tristonho em 2004.

— Porra, careca, qualé a deste post?

Eu sei lá. Gosto dessas coincidências.