O tal do Código Da Vinci 35

Bom, falemos desse maldito livro.
Para começar, vocês não imaginam a raiva que eu tenho desse tal Dan Brown. O cara escreve mal, não tem sequer UMA boa idéia, cria personagens que não convencem e se mete a escrever um thriller (ou sei-lá-o-quê) de quase 500 páginas. O resultado? Um lixo. Jesus, como é ruim! Vou tentar explicar a ruindade do romance em toda a sua extensão; duvido que consiga. Talvez eu acabe revelando aqui e ali partes do livro que possam interessar a quem ainda queira lê-lo. Aviso, portanto: este post pode estragar o livro para quem ainda não leu. Mas considero o aviso idiota: o livro já saiu estragado da cabeça do autor. Se você está pensando em ler algo apenas divertido, que não exija grande esforço mental, tente Sidney Sheldon. É sério. Li um livro do Sheldon. É ruim de doer, mas pelo menos a história é legal e o livro chega ao final sem traumas.
Eu tenho pensado há dias numa forma de explicar resumidamente o porquê de o livro ser tão ruim, e creio ter encontrado no Cálculo Integral a melhor metáfora. Sabem aquele negócio de tender ao infinito? Então, O Código Da Vinci parece um tratado sobre o cálculo do óbvio. Ele tende ao óbvio o tempo todo: dentre todas as cidades do mundo, passa-se em Paris. Dentre tantos lugares da capital francesa, o autor escolheu o Museu do Louvre. Precisava de um artista que tivesse obras expostas no Louvre, e pensou logo em quem? Leonardo Da Vinci. Precisava de obras de Da Vinci para emprestar um certo verniz cultural a sua rasa literatura, e escolheu quais? A Mona Lisa e a Santa Ceia, é claro. E assim vão as obviedades, empilhando-se umas sobre as outras até que o leitor, quase sufocado, joga o livro para o outro lado do quarto. Eu, pelo menos, fiz isso várias vezes. Principalmente ao ver que os dois protagonistas, que deveriam ser inteligentíssimos, demoram um tempão para identificar uma Seqüência Fibonacci, a seqüência matemática que só é menos óbvia do que o conjunto dos números naturais.
Fora as obviedades, que seriam perdoáveis, há os furos. O leitor de Agatha Christie e Conan Doyle sabe que um livro de mistério não pode se dar ao luxo de ter furos no enredo. Pois bem, o Código Da Vinci é uma peneira: o personagem que morre logo no começo tem 66 anos e uma neta de 32. O grande vilão escolhe como executor de seus crimes um enorme frade albino com um cilício na coxa. Não liga para discrição, pelo jeito. A tal neta de 32 anos, que vem a ser a mocinha, lembra-se de ter encontrado quando criança uma chave numa das gavetas do avô. Quando ela e o herói estão fugindo da polícia e encontram a chave, ele fica olhando para o objeto sem saber de que se trata. Claro: uma menina de nove anos sabia que era uma chave, um grande professor de Harvard é incapaz de tal proeza intelectual. O inspetor de polícia, tido por todos como inteligentíssimo, empresta o celular para que o principal suspeito do crime faça uma ligação. Apenas HORAS depois de o suspeito ter se empirulitado pelas ruas de Paris é que o genial inspetor se lembra de verificar para onde ele havia ligado.
E há os clichês. MUITOS clichês. Até o rastreador plantado no bolso do suspeito. Eu achava que ninguém mais usasse isso em livros ou filmes, mas me enganei. Pior: o inspetor não tem por que rastrear o professor. Ele sequer sabe que é suspeito. Mesmo assim, o rastreador é plantado e os agentes acompanham os movimentos do professor (até então restritos ao museu) numa tela de GPS. Quando vêem que o pontinho piscante saiu do museu, deduzem imediatamente que o professor pulou a janela. Detalhe: a janela fica a doze metros de altura. É claro que o espertíssimo inspetor não pensa na possibilidade de o suspeito ter jogado o rastreador pela janela. Claro que não! Acredita que ele pulou mesmo e caiu em cima de uma carreta. Ele e seus homens saem do museu em perseguição à carreta, deixando o museu desguarnecido. Claro, não é? Como teríamos história sem essas demonstrações de imensa idiotice por parte dos personagens? Bom, talvez com algum talento do autor. Mas acho que hoje em dia isso é exigência excessiva.
E tem muito mais, muito mais! O livro é ruim e óbvio do início ao fim. Por exemplo: o que causa todo o rebuliço é o fato de o inspetor desconfiar do professor de Harvard. Como a neta do falecido (uma criptógrafa da polícia francesa, também — preciso dizer? — muito inteligente) fica sabendo disso, providencia sua fuga. As suspeitas do policial não têm base alguma, então o leitor deduz que ele tem alguma ligação com os cara malvados. Quando o livro chega ao final e fica claro que tal ligação não existe, o leitor coça a cabeça e pensa “ué…”. Porque se o tal professor simplesmente se deixasse prender, logo ficaria provado que ele não tinha nada com o caso e não haveria maiores conseqüências. Quero dizer, estamos falando da polícia da França do século XXI, não da Inquisição Espanhola. Ele poderia investigar tudo com calma,achar o Santo Graal, os ossos de Maria Madalena e essa bobagem toda, e talvez comer sua criptógrafa sossegado. Mas não: ele se torna fugitivo da polícia, rouba um carro-forte, faz um refém, vai para a Inglaterra ilegalmente. O livro todo, portanto, se baseia numa premissa fraquíssima: a de que duas pessoas inteligentes resolveriam cometer vários crimes apenas para fugirem à mera suspeita de um.
Ah, é horrível. Cansei de falar nisso. Leiam a crítica do Pedro Doria, bem mais centrada e calma. E é o seguinte: o primeiro que comentar este post dizendo que quer o livro, ganha. Sério. Envio pra qualquer canto. Eu não consigo nem olhar para essa capa vermelha. Quero esquecer que um dia tive a paciência de ler 470 páginas do mais puro lixo.

35 thoughts on “O tal do Código Da Vinci

  1. Mariana May 20,2004 23:23

    eu quero

  2. Mariana May 20,2004 23:23

    EEEEEE

  3. BJ May 20,2004 23:24

    Ué, de graça até injeção na testa. Aceito o livro, nem que seja para trocar em sebo depois. Um abraço.

  4. Marco Aurélio May 20,2004 23:30

    Ei. Não tinha pensado nisso, BJ. Segura tua onda aê, Mariana.

  5. ale siedschlag May 20,2004 23:36

    haha! e viva la Pactricia!!!

  6. Ricardo Camata May 21,2004 00:07

    Bem podia se iniciar um ciclo aqui, né? Marco Aurélio passa o livro pra Mariana, que depois de ler reclama de todos os defeitos e repassa pra BJ, que le, odeia e lança na ponta esquerda pra mais alguem que depois de fazer firulas com o livro cruza no centro da área pro artilheiro do time que finalmente guarda o livro no fundo da rede pra nunca mais sair. Transformaria o ato de se desfazer do livro em um movimento coletivo, onde todos poderiam um dia dizer “Eu fiz parte da esculhambação do Código Da Vinci e fui o 38º a le-lo antes dele ser finalmente aposentado e seu autor esquecido”

  7. Ivan Strazzer May 21,2004 01:23

    Acho que está na hora de rever seus conceitos quanto as duas pessoas que te indicaram o livro.

  8. Nice May 21,2004 01:25

    Eu vi esse livro na fnac, segunda-feira. Estava entre os recomendados. A capa era bonita, dei uma lida nas primeiras páginas, mas não me interessei muito. Preferi ler um do Rubem Alves, mais fino, daria para terminar, e mais interessante.

  9. Blaze Handack May 21,2004 01:26

    Agora, vamos citar um pouco de mundo real:

    CPM 22 e Detonautas fazem um pusta sucesso fenomenal. Gabriel O Pensador e Marcelo Nova são apenas bons músicos;

    Drew Barrymore é um dos maiores ícones do cinema atual.Sigourney Weaver é uma atriz relegada;

    Seriado nota mil é Sex and the City. Time Lock passa batido;

    Quadrinhos de qualidade é X-Men. Sebastian O é totalmente desconhecido;

    Comediante genial é Adam Sandlers.O que vem a ser Michael Palin?

    Enfim, você sabia que apesar de ferozes, as críticas contra O Código Da Vinci ao redor do mundo são poucas? Muita gente de peso tá tecendo desmedidos elogios ao livro. Se é que esse monte de papéis pode receber tal título. Você é um herói, porque eu não consegui passar da página 35. Ainda bem que li na livraria, fugindo da mancada de socar dinheiro no intróduto retal.

    Parem este mundo que eu quero descer!

  10. luiz May 21,2004 02:12

    o que seria uma Seqüência Fibonacci?

  11. John May 21,2004 04:01

    Terminei de ler hoje de manhã, e tenho sentimentos iguais (menos o remorso de ter gasto dinheiro, porque eu não paguei nada por ele) e mais a raiva pelo fato do cara fazer pouco caso com a minha religião e a lógica besta que ele usa pra provar que Jesus comeu a Maria Madalena… sem falar na difamação de uma instituição católica de verdade só pra ter bandidos católicos… e ouvi que vem por aí uma continuação que se passa (surpresa!) no Vaticano.

  12. Dean Moriarty May 21,2004 08:12

    Marco, seu filho da mãe, vc quase me faz ter uma síncope aqui de tanto rir!

    Bem que eu vi que havia algo de estranho com esse livro, devido à enorme quantidade de gente que eu via no metrô com ele. Vc tem que entender que se ele colocasse alguma outra obra que não fosse a Mona Lisa o público americano não iria conseguir entender!

    Luiz, a série de Fibonacci se inicia com 0 e 1, e a partir daí todos os números seguintes são a soma dos dois números antecedentes a ele:

    0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, …

    Abs!

    (Marco, o que vc acha do Noah Gordon? Já leu algum livro dele, como “O Físico” ou “O Último Judeu”?)

  13. Rodrigo Giosa (Herdeiro do Trono) May 21,2004 08:48

    rs! Isso que eu chamo de revolta!

  14. Rafael Batata May 21,2004 09:01

    Eu conheço e gosto de Sabastian O.

  15. Gustavo May 21,2004 09:53

    olá marco,gosto do seu blog e lendo os comentários resolvi apoiar a lida de Noah Gordom,Noah é um ótimo autor que cria livros maravilhosos e que valem a pena ler!Valem mesmo!

    Principalmente o físico e o ultimo judeu mas as outras obras tb são mto boas!

    recomendo

    apesar d vc ñ me conhecer e ñ saber quem sou e com certeza `n me ouvir,eu recomendo

  16. Fernanda May 21,2004 10:33

    Oi Marco!

    Como você sabe, tive pesadelos só de ler as primeiras páginas desse livro. Ainda bem que consegui trocar no dia seguinte por algo melhor.

    Esse Código da Vinci cheira a puro marketing, uma arapuca armada pelo mercado de entretenimento americano para ganhar (muito) dinheiro com o trinômio livro-cinema-dvd. São milhões de cópias vendidas no mundo! Uma porcaria dessas!

    Já o “Mochileiro das Galáxias” é bem legal. Li apenas um livro, antigão, da Brasiliense. Acho que ler no original é a melhor pedida.

    Beijo!

  17. Una May 21,2004 10:34

    Gosto é gosto :) O que seria do verde se todos gostassem do amarelo?

    Só que o inspetor tinha porque desconfiar do professor. Estava na última parte da mensagem – que foi apagada antes de ser mostrada a ele : P.S. Ache Robert Langdon. O inspetor achou que essa era a condenação. Mas claro que seria muito mais simples deixar escrito : Foi ele! Burrice do inspetor, lógico.

  18. Risadinha May 21,2004 11:54

    Aceita troca pelo “Trama da Maldade” do Clive Barker????

  19. sr.Facanha May 21,2004 13:29

    Ow Marco, cê ainda tá tentando saber pra que área mudar?

    Vira crítico literário, você é bom nisso!

  20. Bewitched May 21,2004 16:14

    Ok, vou levar a sua opinião em consideração, colocarei a leitura de outros livros na frente, mas ainda quero ler o livro para ver o quão ruim é. Fiquei até assustada, qdo vc o comparou com Sidney Sheldon. ;) Agora… esse bafafá todo do livro só mostra o que eu tenho medo de admitir: a sociedade está emburrecendo…

  21. luiz May 21,2004 18:06

    brigado dean :}} ;**********

  22. Camila May 21,2004 20:06

    Preciso ver isso!! Onde você comprou, Marco?? :o)

  23. Melissa Dias May 22,2004 00:11

    Eu já li Noah Gordon. ‘O Fisico’ é o melhor dos seus livros. Os outros valem a leitura.

  24. Mariana May 22,2004 00:32

    mas eu mato BJ ¬¬

  25. Carlos Linhares May 22,2004 12:33

    Concordo. Aquilo é uma droga. O Leonardo (d V) deve estar rolando de ódio no túmulo. Já leu um cara chamado Tibor Fischer? Acho q vc vai gostar.

  26. Dean Moriarty May 22,2004 15:26

    Só uma coisa:

    Eu não quis sugerir ou incentivar a leitura do Noah Gordon, só queria saber se o estilo do Código da Vinci era parecido com o dele.

  27. Ricardo May 23,2004 16:38

    Mas que a Igreja é uma grande farsa, isso é, por mais que todos os padres acreditem no que dizem… O fato é que a “história real” de Jesus é tão documentada e verossímil quanto os folclores antigos e o Santo Graal. E isso é muito mais interessante do que uma trama qualquer de mais um livro (ugh) “best-seller”. Mas todo mundo só fala (e mete o pau com fundamentos) no enredo…

  28. Dianah Woodies Aug 2,2004 15:36

    Eu prefiro trocar esse por um outro livro chatííííííssimo, o AS 2 VIDAS DE AUDREY ROSE !!!

    Chato, lento, explica tudo tintin por tintin, não tem emoção nenhuma ( tirando o ódio de ler ele ) e looongo pra caralho.

    Ah, eu quero esse livro DA VINCI, o máximo q pode acontecer é eu vender prum sebo .

    Besitos e inté

  29. Rafael Aug 9,2004 21:48

    Não adianta… os melhores livros da minha vida serão sempre: 1) O melhor livro sobre nada (Jerry Seinfeld); 2) O pequeno príncipe. E fim de papo.

  30. li Aug 12,2004 14:13

    eu quero! quero!quero!quero!

  31. Alexandra Pavanelly Aug 13,2004 15:35

    Cheguei tarde, né?

    Queria tanto esse livro!

    Será que não há com vc outro exemplar?

    Li sua crítica, achei maravilhosa, mas gostaria muito de tirar minhas próprias conclusões!

    Um abraço!

    Alê

  32. Felipe Oliver Aug 15,2004 20:34

    Putz, vc conseguiu me fazer desistir de comprar este livro! Mas olhando por um lado, talvez tenha sido bom. Ainda sim vou pegar emprestado para dar uma lida (ou, pelo menos, tentar). Ai sim verei se o livro merece essa fama toda que existe em torno dele.

    Flw!

  33. Nara Aug 17,2004 18:40

    Recomendo um bom livro DEIXADOS PARA TRÁS.

    Na verdade é uma série com 10 livros, que conta como seria a vida daqueles que não foram arrebados por Jesus, ou seja, como seria o apocalipse. ÓTIMO!

    No primeiro livro a história começa com as pessoas desaparecendo (todos os bêbes, crianças, mulheres e homens realmente religiosos), às várias explicações para esses desaparecimentos até alguns chegarem a conclusão de que os escritos da bíblia estavam acontecendo

  34. Nara Aug 17,2004 18:41

    Recomendo um bom livro DEIXADOS PARA TRÁS.

    Na verdade é uma série com 10 livros, que conta como seria a vida daqueles que não foram arrebados por Jesus, ou seja, como seria o apocalipse. ÓTIMO!

    No primeiro livro a história começa com as pessoas desaparecendo (todos os bêbes, crianças, mulheres e homens realmente religiosos), às várias explicações para esses desaparecimentos até alguns chegarem a conclusão de que os escritos da bíblia estavam acontecendo

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