Davi mata Golias

(I Samuel 17:41-58)

Com todo esse negócio de guerra, ameaças e desafios, a loucura de Saul amainara um pouco. Eram tantas as preocupações ocupando a mente do rei que o espírito mau não achava uma brecha para entrar. Mas foi só Davi virar as costas para ele voltar ao abilolamento de sempre. Chamou Abner, seu primo e comandante do exército, e perguntou:
— Abner, quem é aquele rapaz indo ali?
— Qual rapaz?
— Aquele ruivinho ali, de cajado na mão.
Abner era um bajulador dos mais desavergonhados, então achou melhor não contrariar o rei:
— Meu senhor, juro pela SUA alma que não sei!
Espertinho o danado, né? Até faz juramentos, mas pela alma alheia. Muito safo, muito safo. Saul não percebeu que o juramento botava em risco apenas sua própria vida, e ordenou:
— Pois procure saber.
— Pois não, majestade, é para já.
Abner fingiu que foi averiguar quem era o tal rapaz, mas é claro que não foi. Aproveitou para tirar uma soneca em sua tenda.
Enquanto isso, a notícia de que finalmente os israelitas haviam escolhido o homem para lutar contra Golias já chegara ao acampamento filisteu. Disseram a Golias que seu oponente o esperava lá embaixo, na margem do Rio. Feliz da vida com a perspectiva de um pouco de ação depois de quarenta dias de bravatas, Golias vestiu sua armadura, chamou seu escudeiro e desceu. Lá no alto, filisteus e israelitas apinhavam-se para assistir à luta, um grupo de cada lado do vale. Do acampamento filisteu vinham gritos de “GOLIAS! GOLIAS! GOLIAS!”. Do israelita, nem um pio.
Quando Golias chegou perto e viu aquele rapazote ruivo diante dele, sem nenhum tipo de armadura e de cajado na mão, teve uma crise de riso:
— Que que é isso? QUE QUE É ISSO? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. É algum tipo de piada israelita? DAGOM DO CÉU! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Ai, ai. MEU ESTÔMAGO DÓI! Então é esse o golpe, querem me matar de rir? É BOA, MUITO BOA!
— Grunf.
— Tá resmungando o quê, moleque? Ou será que você é uma menina? É uma menina, é? Por acaso eu sou algum cachorro para você vir me enfrentar com uma vara, ô coisinha? Puta que pariu… Eu rogo a praga dos meus deuses contra você: QUE VOCÊ SE FODA E QUE O MEU PAU CRESÇA! HAHAHAHAHAHAHA! Vem pra cima com seu cajado, vem. Vou dar sua carne para os bichos do deserto comerem!
Você vem contra mim… AHAM! Você vem contra mim com sua espada , sua lança, seu escudo, e esse equipamento todo aí que eu não sei o nome. Mas eu vou contra você com o apoio de JAVÉ!
— De quem?
— Er… Javé.
— Conheço não.
— É o nosso Deus. O Senhor dos Exércitos. O Todo Poderoso. O Criador do Céu e da Terra. O…
— Peraí. Esse é o Dagom.
— Mané Dagom!
— Escuta, viemos aqui para lutar ou para discutir teologia, ó caralho?
— Tá irritada, santa?
— Mas olha que moleque ousado… Espera aí que eu já acabo com a tua raça!
— Você? EU acabo com a TUA raça. Com a ajuda de Javé, hoje eu corto sua cabeça. E os bichos do deserto terão um jantar muito mais farto do que a minha carne: a carne de todo o exército filisteu.
— Ah, é? Depois de me matar a pauladas, vai sair matando todo mundo lá em cima? Como, mordendo os caras até a morte? Olha, chega de tanto lero-lero, já estou cansado de gastar saliva com israelita.
Dizendo isso, Golias começou a avançar na direção de Davi. O rapaz não se intimidou com o gigante, e saiu correndo contra ele. Enquanto corria, enfiou a mão no alforje e pegou uma das pedras. Quando já estava suficientemente perto de Golias, enfiou a pedra na funda e começou a girá-la sobre a cabeça. Depois de muito girar, soltou uma das pontas da funda e a física se encarregou do resto: a pedra saiu pela tangente e voou, indo cravar-se bem no meio da testa do filisteu, única parte desprotegida de seu corpo. O gigante vacilou um pouco, olhando fixamente para Davi sem entender o que acabara de acontecer. Depois de um tempo assim parado, dobrou os joelhos e caiu de cara no chão. Davi correu, tirou a espada de Golias da bainha e com ela cortou-lhe a cabeça.

(Davi e Golias – Caravaggio (1606) – Kunsthistorisches Museum, Viena)

A situação inverteu-se: o acampamento israelita prorrompeu em brados de vitória, e o filisteu ficou em silêncio por um minuto, enquanto os soldados digeriam o acontecimento inacreditável. Quando finalmente se deram conta de que era verdade mesmo que seu maior campeão acabara de morrer nas mãos de um pastorzinho adolescente, ficaram apavorados e bateram em retirada. Os israelitas atravessaram o vale e perseguiram-nos até as cidades de Gate e Ecrom, na Filistia. Depois de matarem muitos inimigos e acuarem outros tantos em suas cidades, os israelitas voltaram e despojaram o acampamento filisteu.
Quanto a Davi, pegou a cabeça de Golias e a levou para Jerusalém, cidade que começava a tornar-se importante. Depois voltou para casa, levando as armas do gigante como souvenir.
Para quem até pouco tempo atrás era apenas um pastor de ovelhas, Davi podia dar-se por satisfeito: além de trabalhar no palácio e ter a confiança do rei (embora Saul já não se lembrasse), começava agora sua carreira militar, e da forma mais impressionante. Ele, porém, lembrava-se muito bem da estranha visita de Samuel à sua cidade, e sabia que sua história estava apenas no começo.

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14 comentários

  1. morro de rir com esses textos dos seus blogs.

    me faz lembrar de uma coisa, ás vezes ateus conhecem mais da bíblia do que pessoas que se dizem religiosas. um exemplo eu e uma amiga católica.

  2. O que mais me satisfaz na vida é quando sou surpreendida.

    Sou cristã, mas achei seu site fascinante e de um humor invejavel… 😉

    Com certeza ficarei assídua! 😉

    Beijos! hehe…

  3. O trecho da música me fez pensar em Heatcliff e Cathy – versão de 39 de Wuthering Heights c/ Olivier e Merle Oberon – é q tem q visualizar

    Ela morta na cama e ele:

    Heatcliff – “Haunt your murderer!..but don’t leave me here in this darkness where I can’t find you”. – algo assim.

  4. Morte mais besta da Bíblia Paolo!?

    Discordo! 🙂

    Sabe aquela final de campeonato, 48 minutos do segundo tempo, seu time precisando de um gol, torcida já fora do estádio, e de repente voltando pra comemorar!?

    Penso que a alegria dos israelistas naquele momento seja incomparável à essa.

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