Engraçado eu ter falado em Síndrome de Tourette no texto anterior, e ter ido assistir ao filme Amarelo Manga logo depois. Por quê? Vamos por partes. Essa síndrome é caracterizada por tiques, que podem ser:

Simples:

Motores – Piscar os olhos, repuxar a cabeça, encolher os ombros, fazer caretas;
Vocais – Pigarrear, limpar a garganta, grunhir, estalidos com a língua, fungar e outros ruídos

Complexos:
Motores – Pular, tocar pessoas ou coisas, cheirar, retorcer-se e, embora muito raramente, atos de auto-agressão, tais como machucar-se ou morder a si próprio;
Vocais – Pronunciar palavras ou frases comuns porém fora do contexto, ecolalia (repetição de um som, palavra ou frase de há pouco escutados) e, em raros casos, coprolalia (dizer palavras ou expressões socialmente inaceitáveis; podem ser insultos, palavras de baixo calão ou obscenidades). A margem de expressão de tiques ou sintomas assemelhados na ST é imensa. A complexidade de alguns sintomas freqüentemente surpreende e confunde os familiares, amigos, professores e empregadores que dificilmente acreditam que as manifestações motoras ou vocais sejam “involuntárias”.

(Fonte: O que é Síndrome de Tourette?, artigo publicado no NetPsi – Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia. Grifo meu.)

Pois bem. As pessoas que me falaram bem de Amarelo Manga diziam que o filme seguia a tradição do cinema nacional. “E isso lá é bom?”, eu pensava. Mas finalmente resolvi criar coragem e pegar o filme na locadora. E, como de hábito, eu estava certo: minha desconfiança tinha fundamento. Logo nos primeiros minutos de filme, quando a mocinha diz “Eu quero é que vá todo mundo tomar NO CU”, eu senti como se o tempo tivesse voltado. Era a mesma ênfase exagerada no palavrão, como Lima Duarte dizendo “Quem foi que desenhou C’RALHINHOSH VOADORESH na parede do banhéiro???”, lembram? Pois é a mesma coisa. Amarelo Manga é um caso sério de Síndrome de Tourette, assim como toda essa produção nacional dos anos 70 (principalmente). Então temos belas falas, tais como:
— TÁ PENSANDO QUE A MINHA BUNDA É A BOCETA DA SUA MÃE, FILHO DA PUTA?
Ou:
— FILHO DA PUTA É VOCÊ, VEADO ESCROTO!
Além disso, há cenas de rara beleza, como aquela que mostra um novilho sendo abatido no matadouro. Ok, eu como carne. Mas se eu quisesse ver como os bichinhos morrem, iria comprar minha carne no matadouro, não no açougue. Há a outra cena em que a mulher crente do cara do matadouro o pega com a amante e, qual Mike Tyson, arranca a orelha da pobre a dentadas. A cena tem aqueles cortes esquisitos, mal feitos apenas para parecerem cool. Cortes assim, aliás, estão presentes em vários trechos do filme, e se assemelham a tiques. Olha Gilles de la Tourette aí de novo.
Talvez por não conseguir construir personagens tridimensionais convincentes, o roteirista (talvez seja coisa do diretor, sei lá) resolveu sua falta de talento com um artifício reles: há longos monólogos dos personagens, nos quais eles explicam suas motivações, aspirações, objetivos. Chato a não mais poder.
E há também, é claro, o erotismo sutil: Mateus Nachtergaele pratica o felattio no cabo da faca usada há pouco pelo homem que desperta seus desejos (Nachtergaele é o maior canastrão das artes cênicas nacionais: faz sempre a mesma bichinha, e ganha prêmios por isso. Um ator gay que não consegue deixar a afetação de lado mesmo quando faz personagens não-gays é tão sem talento quanto um heterossexual que não consegue desmunhecar. Voltemos). Tem a menina do bar, que levanta o vestido para mostrar que seus pêlos pubianos são da mesma cor de seus cabelos. Uma vulva fulva que faria a delícia de gerações de poetas concretos, em demorado close up. Há a velha gorda que passa o filme todo fazendo inalações, e no final enfia o inalador entre as pernas.
E há, oh maravilha!, Jonas Bloch levando um cabo de escova no rabo. Sem lubrificação nem preparo. Acho é pouco: todos os que participaram do filme mereciam esse castigo. Menos o Mateus Nachtergaele, é claro, porque eu não estou aqui para agradar a ninguém.