Foi um pequeno momento, um jeito
Uma coisa assim
Era um movimento que aí você não pode mais
Gostar de mim direito
Teria sido na praia o medo
Vai ser um erro, uma palavra
A palavra errada
Nada, nada
Basta quase nada
E eu já quase não gosto
E já nem gosto do modo que de repente
Você foi olhada por nós

Porque eu sou tímido e teve um negócio
De você perguntar o meu signo quando não havia
Signo nenhum
Escorpião, sagitário, não sei que lá
Ficou um papo de otário, um papo
Ia sendo bom
É tão difícil, tão simples
É tão difícil, tão fácil
De repente ser uma coisa tão grande
Da maior importância
Deve haver uma transa qualquer
Pra você, e pra mim
Entre nós

E você jogando fora e agora
Vai embora, vá!
Deve haver um jeito qualquer, uma hora!
Há sempre um homem
Para uma mulher
Há dez mulheres para cada um
Uma mulher é sempre uma mulher etc. e tal
Assim como existe disco voador
E o escuro do futuro
Pode haver o que está dependendo
De um pequeno momento puro de amor

Mas você não teve pique e agora
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Mas você não teve pique e agora
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique…

(Caetano Veloso)

(I Samuel 14:24-46)

— E aí, rapaz? Há quanto tempo!
— Pois é. Estava viajando, cheguei ontem
— Ah, então você não está sabendo da confusão?
— Que confusão? A guerra?
— Também. Mas estou falando da história de Jônatas.
— Que história?
— Não se fala de outra coisa em todo o Israel! Foi assim: antes de atacarmos os filisteus, Saul impôs um jejum rigoroso a nós, os soldados. Ninguém deveria comer nada enquanto não tivéssemos derrotado os inimigos.
— Acho que ouvi algo a respeito.
— Pois então: estávamos perseguindo os filisteus, todo mundo com uma fome danada. Aconteceu que chegamos a um bosque e adivinha? As árvores estavam cheias de mel! Lembra da história da promessa de Javé a Abraão, que daria a ele uma terra de onde mana leite e mel? Pois naquele bosque o negócio era literal mesmo: favos expostos, o mel pingava das árvores.
— Deu água na boca.
— Imagine a gente! Uma fome desgraçada, todo aquele mel ali ao alcance da mão. Mas o rei havia feito um juramento, e era melhor obedecer. Ficamos ali só olhando para as árvores cheias de mel, e babando.
— Que situação triste…
— Muito triste! Mas foi aí que começou a confusão: o Jônatas, que devia estar matando filisteus no caminho, chegou atrasado ao bosque. Não teve dúvida: pegou uma vareta, enfiou num favo e comeu um pouco de mel.
— Ué, mas e a promessa do pai dele?
— Aí é que está: ele não estava no acampamento quando Saul fez o juramento. Estava matando filisteus, é o esporte preferido dele. Então olhou em volta, satisfeito. Mas um dos soldados achou melhor avisá-lo: “Olha, seu Jônatas, seu pai falou que quem comesse hoje seria amaldiçoado”.
— E ele?
— Nem deu bola! “Meu pai fez uma coisa terrível contra Israel”, ele disse.
— É maluco, esse Jônatas. Gosto dele.
— É, todo mundo gosta. E não foi só isso: disse com todas as letras que os soldados deviam ter comido o alimento que tomou no inimigo, que assim ficaríamos mais fortes e mataríamos mais filisteus.
— Faz sentido.
— Faz todo o sentido! Tanto que logo depois nós continuamos perseguindo os filisteus e, quando chegamos ali em Aijalom, com eles já derrotados, avançamos sobre os animais que havíamos tirado deles, matamos tudo ali mesmo e começamos a comer. Com sangue e tudo.
— COM SANGUE?
— Pois é. Para você ter uma idéia da nossa fome.
— Puxa… Mas e aí, ficou por isso mesmo?
— Ficou nada! Algum alcagüete foi contar para o rei o que estava acontecendo. Rapaz, o homem ficou emputecido que só a peste!
— Imagino.
— Gritou, xingou, esperneou. Pelo menos foi o que me disseram.
— Claro! Vocês quebraram o juramento dele!
— Não, nem foi por isso: os filisteus já tinham sido derrotados, então podíamos comer à vontade. O problema foi esse negócio de comer carne com sangue.
— Ah, é verdade… Mas e aí?
— Aí o rei mandou rolar uma pedra grande para o meio do acampamento e mandou um mensageiro até onde estávamos. Convocava todo mundo para voltar ao acampamento e matar os animais sobre a pedra, deixando o sangue escorrer antes.
— Então não foi tão ruim assim, ué.
— A princípio não. Saul até construiu um altar, para dar uma bajulada em Javé e tal. Mas aí ele teve uma idéia: queria descer até a terra dos filisteus, matar todos eles e fazer um grande saque.
— Excelente idéia.
— Todo mundo achou. Só o sacerdote achou ruim e propôs que se fizesse uma consulta a Deus antes, para saber se ele aprovava o ataque. Saul não viu nada de mais, então perguntou se deveria atacar os filisteus e se seríamos vitoriosos.
— E a resposta?
— Não teve resposta. Era noite, e na manhã seguinte ainda não havia qualquer resposta. Saul entendeu que alguém tinha feito alguma bobagem, e que Javé estava de mal por isso. Então disse aos oficiais que precisavam descobrir que pecado havia sido cometido, e que jurava por Javé que mataria o responsável.
— Cá entre nós, acho que o rei faz juramentos demais…
— É, também acho. Fez esse juramento aí e pegou as pedrinhas de sorteio lá, como é mesmo o nome?
— Urim e Tumim.
— Isso aí. Pegou o Urim e o Tumim, ficou de um lado com Jônatas, deixando do outro lado todo o resto do povo. Então disse em voz alta: “Javé, se o problema é comigo ou com Jônatas, responda pela pedra marcada Urim, se for com o povo de Israel, responda pela pedra Tumim. Jogou as pedras e deu Urim. O negócio era entre ele e o filho. As pedrinhas foram jogadas de novo, e deu Jônatas. Então ele perguntou o que o filho havia feito, e Jônatas contou o caso do mel nas árvores.
— Xi…
— “Que eu seja morto se não o matar, Jônatas”, ele disse.
— Outro juramento.
— É, muito chato isso.
— Mas e aí? Matou o próprio filho?
— Estava bem disposto a isso. Cê sabe que o Saul é maluco, né?
— Todo mundo sabe…
— Então. Mas os soldados ficaram revoltados: disseram que graças a Jônatas nós havíamos derrotado os filisteus, o que era verdade. E que juravam por Javé que ele não perderia nem um fio de cabelo.
— Pegaram o costume do rei… Mas e Saul, como ficou com essa revolta dos soldados?
— Ficou quietinho. Deve ter percebido a merda que estava fazendo.
— Menos mal. E Jônatas?
— Saiu vivo dessa, mas anda meio desconfiado do pai.
— Não é para menos. E os filisteus?
— Estão lá na terra deles, caladinhos e com medo.
— Que continuem assim.
— Tomara.