Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em March de 2004

Um país de canalhas

Leiam os comentários do post abaixo. Eu espero.

Leram? Pois bem, deixa eu dizer um negócio: todos os que se manifestaram a favor do Sr. Zeca Pagodinho nessa história são canalhas. Todos, não há exceção. Será possível que eu viva num mundo diferente, será possível que só eu ache óbvio que o cantor portou-se como um mau-caráter? Nego vem dizer que é ridículo comparar isso com o que acontece em Brasília. Ué, por quê? Um deputado levar o seu “por fora” é crime, sua TV a cabo pirata não é? Um assessor de ministro enfiar-se em maracutaias é extremamente condenável, ao contrário daquela adulteraçãozinha que você fez no medidor de luz? Um vereador contratar parentes nas subprefeituras é uma vergonha, mas, ah!, como você queria ser primo de Dr. Fulano para pegar uma boquinha dessas, não é mesmo?
Honra não depende do cargo que você ocupa, da visibilidade que tem ou da quantia envolvida. Honra é a prestação de contas que você faz a si mesmo. Se você é uma pessoa honrada, não importa se os outros sabem ou não a besteira que você fez: você sabe, e isso basta para não deixá-lo dormir em paz enquanto não resolver o assunto.
Se alguém empresta sua imagem para vender um determinado produto — e com a imagem vão reputação e credibilidade, que são um naco da sua honra — deveria ser motivo de escândalo emprestar sua imagem ao concorrente meses depois. Mas como esperar isso aqui no Brasil, como cobrar honra de um povo que, querendo ser sempre esperto, acaba sendo apenas patético?

Samba, cerveja e honra

Eu ia dizer que Zeca Pagodinho queimou-se irremediavelmente ao fazer o comercial da Brahma. Que jamais seria convidado novamente para qualquer campanha publicitária, que talvez até sua carreira estivesse ameaçada. Mas seria uma grande bobagem: como esperar que se cobre honradez num país de canalhas como este nosso?

The Political Compass

Em 28 de setembro de 2002, fiz o teste do Political Compass. É bem interessante: com base nas suas respostas, você é situado num gráfico político-social divido em quadrantes. Resolvi fazer o teste novamente hoje e, para meu alívio, minha posição dentro do quadrante mudou pouco: só me afastei um bocadinho do “Libertarian”. Quase nada. Vejam e comparem com o anterior. E façam o teste.

graficopolitico2.jpg

Saul é aclamado rei

(I Samuel 10:17-27)

Saul já estava ungido rei, e a decisão era irreversível. Para apresentá-lo ao povo, porém, foi armada uma cena patética: Samuel convocou todo o povo a Mispa para uma reunião religiosa. Quando estavam todos lá, fez seu anúncio:
— Israelitas! Eu tenho aqui uma mensagem de Javé para vocês. Diz ele: “Cambada de mequetrefes, eu tirei vocês do Egito, livrei vocês de todos os povos que os maltrataram, e como é que vocês me agradecem? Rejeitam minha autoridade pedindo um rei! Eu estou de saco cheio. Vocês venceram. Organizem-se aí, em tribos e em grupos de famílias. Vamos escolher o rei”.
O povo dividiu-se conforme as ordens divinas, enquanto Samuel pegava o Urim e o Tumim para o sorteio. Com o povo ordenado, ele jogou as pedrinhas e a tribo de Benjamim foi sorteada. Lançou-as de novo, e deu a família de Matri. A família adiantou-se, ansiosa. Não era para menos: dali sairia o primeiro monarca de Israel. Samuel jogou as pedrinhas, fez um certo suspense e enfim anunciou:
— O rei de Israel será… Saul, filho de Quis!
Aplausos. Vivas. Gritos. Assovios. Aplausos. Aplausos mais fracos. Silêncio.
— Eu disse SAUL, FILHO DE QUIS!
Um murmúrio na multidão. Constrangido diante do povo, Samuel foi para um canto falar com Deus:
— Javé, eu falei que isso não ia dar certo. Cadê o cara?
— Calma, Samuel. Ele está escondido no meio da bagagem.
— HÃ???
— Pode conferir.
— Mas que beleza…
Samuel voltou e pediu à família que vasculhasse sua bagagem. Foram até lá e voltaram com Saul. Alto como era, aparecia acima da multidão, que o olhava em silêncio. Samuel soltou um suspiro de alívio; estava completa sua missão:
— Estão vendo o homem que Javé escolheu? Não há outro como ele em Israel!
A declaração de Samuel não dizia grande coisa: tanto podia ser um elogio quanto uma crítica a Saul. Mas o povo, ansioso por seu rei, bradou “Viva o rei!” em uníssono. Samuel explicou aos israelitas os direitos e deveres do rei, depois escreveu-os num livro que foi colocado no Tabernáculo. E encerrou a cerimônia bem ao seu estilo:
— Acabou a palhaçada. Vão pra casa.
O povo foi saindo. Saul também foi para sua casa, em Gibeá, e com ele foram alguns homens, seus primeiros bajuladores. Outros, no entanto, murmuravam entre si:
— Mas que reizinho mais sem-vergonha, hein? Escondido no meio da bagagem!
Saul ouviu esses comentários, mas fingiu que não. Tinha um reino para ocupar a cabeça agora.

BAH!

Porra, eu tô virando fresco e vocês não avisam? Ignorem o post abaixo. Se eu não escrevo é por preguiça mesmo.

Hum?

Escrever? Vocês querem que eu escreva? Oras! Ultimamente eu mal consigo encadear dois pensamentos, tamanha é a confusão dentro da cabeçorra, e vocês querem que eu escreva? Não, muito difícil.
Muito difícil.
ARGH!

O autor saiu correndo, dizendo que estava sofrendo de estafa mental (ou sentimental, não compreendemos direito). Esperamos que sua recuperação seja rápida. Oremos.

Oh, glória!

Como diz Gonzagão em Estrada do Canindé, tem coisas que pra mode ver o cristão tem que andar a pé. Agora mesmo eu estava vindo lá do terminal Aê, Carvalho!, andando sem pressa, praticamente pedindo para ser assaltado. Eis que chega a meus ouvidos uma voz meio estridente, falando muito rápido coisas ininteligíveis. Parecia narração de jogo de futebol numa estação AM mal sintonizada. Mas não, era algo mais interessante: vinha de uma Igreja Universal do Reino de Deus do outro lado da avenida (não é o Reino de Deus que fica do outro lado da avenida, é a igreja). Parei, considerei a pressa que tinha de chegar em casa (para tomar limonada), atravessei a rua e entrei no templo de São Edir.
A cena que vi foi das mais intrigantes: os fiéis haviam formado uma fila, que serpenteava entre os bancos. Lá na frente, identifiquei o dono da voz estridente: um “pastor” (minha formação batista me impede de chamar de pastor alguém que nunca pisou sequer numa faculdade de Teologia) que segurava o microfone com a mão esquerda enquanto abençoava os fiéis enfileirados com a direita. E era jogo rápido, quem olhasse de repente poderia pensar que ele dava tapas na cabeça das pessoas. A fila andava, ele botava a mão na cabeça de cada um, e ia repetindo sua cantilena acelerada: “SAI DA VIDA DESSA PESSOA! SAI DA VIDA DESSA PESSOA! DO CASAMENTO DESSA PESSOA! SAI, ESPÍRITO DO MAL! SAI, MALDIÇÃO! SAI DA VIDA DESSA PESSOA! DA FILHA DESSA MULHER! DA LOJA DESSE HOMEM! SAI, PRAGA! ESSA PESSOA QUE TEM INSÔNIA! ESSA MULHER QUE TEM ENXAQUECA! ESSE HOMEM COM PROBLEMA NA COLUNA! EU ESTOU DANDO UMA ORDEM: SAI!”.
Ia assim, sem parar por um segundo. E o mais curioso: depois de passarem pela bênção do “pastor”, as pessoas sumiam! É sério: a fila era grande, mas eu não vi ninguém voltar para os bancos, talvez com uma expressão de alívio espiritual na face. Sei não, sei não… Imagino que, logo depois de onde o homem gritava, existia um alçapão onde as pessoas iam caindo e sendo devoradas por crocodilos. Bela maneira de evitar conversas constrangedoras depois, tais como “Ué, mas eu nem sou casado”, ou “Filha? Que filha?”, ou “Eu nunca fui comerciante, meu Deus!”. Pensei em averiguar, mas o homem gritou “SAI, PRAGA!” umas três vezes seguidas. Achei melhor obedecer, e fui embora.

Moto MaMa

A Playboy é uma revista muito interessante. Traz sempre excelentes matérias jornalísticas, entrevistas de primeira, boas dicas de bares e restaurantes, enfim, todo tipo de informação útil ao público masculino. Parece que também tem umas fotos; nunca reparei. Enfim, uma ótima revista. Mas na edição deste mês (que traz na capa a chamada para a entrevista com ninguém menos Jack Nicholson, vejam só!) acho que o pessoal que faz a Playboy endoidou. Vejam:

motomama.jpg

Muito bem. QUEM É QUE VAI QUERER TREPAR SEGURANDO NUM GUIDÃO, MEU DEUS DO CÉU??? Cada uma que me aparece…

(Pensando bem, acho que a Denise podia comprar pra lua-de-mel. Epa… EU NÃO DISSE NADA!)

Momento diarinho aparentemente fútil

Hoje fui ao ortodontista apertar o aparelho. O japonês pegou o alicate lá dele, torceu uns fios dentro da minha boca, botou um elastiquinho entre os dois dentes da frente (aqueles que algumas pessoas maldosas chamam de “Torres Gêmeas”, por causa do vão entre eles). Pois bem: agora, passadas nem doze horas, os dentes já estão quase juntos. Antes dava facilmente para passar um Mentex entre eles, agora só dá pra passar um… Um… Ah, sei lá. Um Mentex esmagado.
Parece bobagem, eu sei, mas ter finalmente botado aparelho ortodôntico tem feito mais pela minha autoestima do que qualquer terapia.

(Tá aqui um post que eu só arrisco escrever mesmo com a aprovação de comentários ativa…)

São Paulo em versos femininos

Esse é o nome de uma campanha lançada pela Coordenadoria Especial da Mulher da prefeitura de São Paulo, em conjunto com a SP Trans e a Secretaria Municipal de Transportes. Trata-se de um concurso de poesia para homenagear os 450 anos da cidade e o Dia da Mulher numa tacada só. Foi divulgado pelo Interligado, jornalzinho dos ônibus de São Paulo.
Quando li a divulgação do concurso, logo pensei: “Lá vem merda”. Não deu outra. Eis o primeiro poema, de autoria de certa Alice Ruiz, grudado nas janelas de todos os ônibus da cidade semana passada:

Na esquina da Consolação
com a Paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mulher
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia

Mas que bela porcaria, não? Pois é. Mas o pior ainda estava por vir: relendo a divulgação do concurso (que depois encontrei aqui), atentei para o seguinte trecho:

O projeto está dividido em duas fases. Na primeira, que ocorrerá no mês de março, serão expostas no Jornal do Ônibus (Interligado) quatro poesias, sendo que uma por semana, de escritoras consagradas da literatura nacional. Já a etapa seguinte vai divulgar poesias selecionadas

Ei, peraí. Quer dizer então que a Sra. Alice Ruiz é uma escritora consagrada? Só se for consagrada à produção de péssima poesia, façam-me o favor! Eu fiz questão de decorar o poema dessa criatura para expô-lo ao julgamento de vocês. Achincalhem-na por favor.
E o mais preocupante: ainda faltam três poemas de escritoras consagradas (ao capeta) e mais “…22 textos inéditos que poderão ser apreciados semanalmente pelos usuários dos ônibus municipais entre os meses de abril e agosto”. VINTE E DOIS! Muito bem, recebi o estímulo que me faltava para finalmente comprar um carro. Os ônibus tornaram-se ambiente inóspito para os paulistanos.

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