(I Samuel 11)
Passara-se cerca de um mês da presepada criada por Samuel para legitimar a escolha de Saul para o trono, quando Naás, rei dos amonitas, cercou a cidade de Jabes, em Gileade. Temerosos diante do exército amonita, os homens de Jabes resolveram oferecer um acordo a Naás:
— Olha, seu Naás, vamos conversar: o senhor não nos ataca, e nós o aceitamos como chefe. Que tal?
— Muito bom, muito bom! Negócio fechado.
— Ah, sabíamos que o senhor aceitaria.
— Claro, como não?
— Só tenho uma condição: furarei o olho direito de todos os homens da cidade.
— Ué, mas pra que isso???
— Por prazer, oras! Quero humilhar Israel.
E então os homens da cidade fizeram uma proposta meio amalucada a Naás:
— O senhor pode dar sete dias pra gente?
— Tão doidos? Vou ficar todo assado!
— Não, não, nada disso! Estamos falando num prazo de sete dias.
— Ah. Mas para quê?
— Vamos enviar mensageiros por toda a terra de Israel. Se ninguém vier nos ajudar, então nos entregaremos.
— Hein? Cês tão me achando com cara de trouxa, é?
— Longe de nós, seu Naás, longe de nós!
— Ah, bom. Então tá. Vocês têm sete dias.
Felizes com a burrice de Naás, mas sem garantia de virem mesmo a receber reforços, os habitantes de Jabes trataram logo de enviar seus mensageiros. Eles saíram de Jabes direto para Gibeá, onde o Saul morava. O novo rei podia ter o título, mas ainda carecia de majestade: no momento em que os mensageiros chegaram, Saul estava voltando do campo com o gado que pastoreava. Ao ver o povo da cidade em pânico, procurou informar-se:
— Que porra tá acontecendo nesta cidade?
— Parece que os amonitas estão ameaçando Jabes, Saul.
— E eu com isso?
— …
— Que foi???
— VOCÊ É O REI!
— Putz, é mesmo. Hum, deixa eu pensar…
Não teve tempo de pensar, porém, porque imediatamente o Espírito de Deus se apossou dele, com a conseqüência habitual: Saul ficou doido de repente, cortou dois bois em pedaços que foram mandados por todo o Israel, acompanhados da mensagem:
Israelitas!
Eis o que acontecerá a quem não se juntar a mim e a Samuel para lutarmos contra os amonitas.
Palavra de seu rei,
Saul
Convencidos pela visão dos nacos de carne ensangüentada, os israelitas dispuseram-se a acompanhar Saul na batalha. O rei reuniu-os todos em Bezeque, 330 mil homens. Com esse impressionante exército nas mãos, Saul mandou dizer aos habitantes da cidade sitiada que eles receberiam ajuda no dia posterior, antes do meio-dia. Alegres com a notícia, os homens de Jabes resolveram aproveitar-se um pouco mais da estupidez de Naás:
— É… Ninguém veio nos ajudar. Pode deixar, seu Naás, nos entregaremos amanhã.
— Ué, mas por que não hoje?
— Tá tarde.
— Ah, é.
Naás voltou para tranqüilizar seus homens, levando o recado dos líderes de Jabes. Os soldados amonitas dormiram sossegados, e foi essa a grande vantagem de Saul: de madrugada, com seu exército dividido em três grupos, entrou no acampamento amonita, pegando o inimigo de surpresa. Lá pelo meio dia o massacre já estava quase completo, com apenas alguns amonitas espalhados pela região, em fuga desorganizada.
Aqueles que já puxavam o saco de Saul só pela sua aparência (de Saul, não do saco) quase foram ao delírio com a impressionante vitória militar. Embriagados de êxito, começaram a pedir a cabeça daqueles que não haviam seguido ao novo rei desde o primeiro dia. O rei, no entanto, foi apaziguador:
— Não, de forma alguma! Hoje é dia de festa, não vamos matar ninguém.
E Samuel, vendo na vitória inesperada uma oportunidade para consolidar o novo regime, não perdeu tempo:
— Vamos a Gilgal, para confirmar Saul como nosso rei.
Foram todos para Gilgal, e lá Saul foi definitivamente aclamado como soberano de Israel. O homem que começara seu reinado da pior forma possível — escondido no meio da bagagem da família — começava a mostrar seu valor. E um pouco de sua insanidade, também.