Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Solidão é uma coisa vergonhosa

A amiga comprou uma picape. Carro de dois lugares, logo começaram a questionar a escolha. E ela:
— Ué, pra que mais? Eu não tenho namorado.
— Mas pode arranjar um, e aí?
— Arranjar como? Não: o banco do motorista é para mim, o do passageiro pra minha bolsa. Tá bom demais.
Agora, meses depois, pensa em trocar de carro. Um namorado imprevisto tomou o lugar da bolsa.
O amigo mandou um e-mail pessimista. Assunto da mensagem: “Momento Marco Aurélio”. No texto, ele falava da solidão, da falta de perspectiva. Isso foi há um ano. Um mês depois ele conheceu uma garota e começaram a namorar. Moram juntos agora. Criam poodles.
Apesar desses exemplos de dois dos meus amigos mais próximos, eu não dava o braço a torcer: ia morrer sozinho num apartamento escuro, meu cadáver seria encontrado uma semana depois. Ou então eu criaria jibóias, e elas dariam cabo do corpo. Não havia decidido ainda que fim me esperava, mas sabia que seria trágico e solitário. E aí uma namorada saída não sei de onde me obrigou a rever meus planos.
E agora eu me sinto ridículo ao lembrar das coisas que eu dizia, e estou certo de que meus amigos sentem o mesmo. Quanto amargor, quanto desespero! E para quê? Para vir uma menina e, com suas mãozinhas pequeninas, jogar tudo isso fora e deixar entrar um pouco de ar. Ah, que vergonha dos meus sonhos de misantropia!
Você também alimenta sonhos assim. Nah, não negue. Eu sei. Aceite um conselho de titio: evite essas bobagens. Quanto mais você falar em solidão eterna, em isolamento perpétuo, mais vergonha irá passar quando aparecer quem o livre do peso. Porque nem pesa tanto assim, e vai ser uma baita desmoralização quando alguém tirar com um sopro toda essa carga que você diz ser tão insuportável.

Saul derrota os amonitas

(I Samuel 11)

Passara-se cerca de um mês da presepada criada por Samuel para legitimar a escolha de Saul para o trono, quando Naás, rei dos amonitas, cercou a cidade de Jabes, em Gileade. Temerosos diante do exército amonita, os homens de Jabes resolveram oferecer um acordo a Naás:
— Olha, seu Naás, vamos conversar: o senhor não nos ataca, e nós o aceitamos como chefe. Que tal?
— Muito bom, muito bom! Negócio fechado.
— Ah, sabíamos que o senhor aceitaria.
— Claro, como não?
— Só tenho uma condição: furarei o olho direito de todos os homens da cidade.
— Ué, mas pra que isso???
— Por prazer, oras! Quero humilhar Israel.
E então os homens da cidade fizeram uma proposta meio amalucada a Naás:
— O senhor pode dar sete dias pra gente?
— Tão doidos? Vou ficar todo assado!
— Não, não, nada disso! Estamos falando num prazo de sete dias.
— Ah. Mas para quê?
— Vamos enviar mensageiros por toda a terra de Israel. Se ninguém vier nos ajudar, então nos entregaremos.
— Hein? Cês tão me achando com cara de trouxa, é?
— Longe de nós, seu Naás, longe de nós!
— Ah, bom. Então tá. Vocês têm sete dias.
Felizes com a burrice de Naás, mas sem garantia de virem mesmo a receber reforços, os habitantes de Jabes trataram logo de enviar seus mensageiros. Eles saíram de Jabes direto para Gibeá, onde o Saul morava. O novo rei podia ter o título, mas ainda carecia de majestade: no momento em que os mensageiros chegaram, Saul estava voltando do campo com o gado que pastoreava. Ao ver o povo da cidade em pânico, procurou informar-se:
— Que porra tá acontecendo nesta cidade?
— Parece que os amonitas estão ameaçando Jabes, Saul.
— E eu com isso?
— …
— Que foi???
— VOCÊ É O REI!
— Putz, é mesmo. Hum, deixa eu pensar…
Não teve tempo de pensar, porém, porque imediatamente o Espírito de Deus se apossou dele, com a conseqüência habitual: Saul ficou doido de repente, cortou dois bois em pedaços que foram mandados por todo o Israel, acompanhados da mensagem:

Israelitas!

Eis o que acontecerá a quem não se juntar a mim e a Samuel para lutarmos contra os amonitas.

Palavra de seu rei,

Saul

Convencidos pela visão dos nacos de carne ensangüentada, os israelitas dispuseram-se a acompanhar Saul na batalha. O rei reuniu-os todos em Bezeque, 330 mil homens. Com esse impressionante exército nas mãos, Saul mandou dizer aos habitantes da cidade sitiada que eles receberiam ajuda no dia posterior, antes do meio-dia. Alegres com a notícia, os homens de Jabes resolveram aproveitar-se um pouco mais da estupidez de Naás:
— É… Ninguém veio nos ajudar. Pode deixar, seu Naás, nos entregaremos amanhã.
— Ué, mas por que não hoje?
— Tá tarde.
— Ah, é.
Naás voltou para tranqüilizar seus homens, levando o recado dos líderes de Jabes. Os soldados amonitas dormiram sossegados, e foi essa a grande vantagem de Saul: de madrugada, com seu exército dividido em três grupos, entrou no acampamento amonita, pegando o inimigo de surpresa. Lá pelo meio dia o massacre já estava quase completo, com apenas alguns amonitas espalhados pela região, em fuga desorganizada.
Aqueles que já puxavam o saco de Saul só pela sua aparência (de Saul, não do saco) quase foram ao delírio com a impressionante vitória militar. Embriagados de êxito, começaram a pedir a cabeça daqueles que não haviam seguido ao novo rei desde o primeiro dia. O rei, no entanto, foi apaziguador:
— Não, de forma alguma! Hoje é dia de festa, não vamos matar ninguém.
E Samuel, vendo na vitória inesperada uma oportunidade para consolidar o novo regime, não perdeu tempo:
— Vamos a Gilgal, para confirmar Saul como nosso rei.
Foram todos para Gilgal, e lá Saul foi definitivamente aclamado como soberano de Israel. O homem que começara seu reinado da pior forma possível — escondido no meio da bagagem da família — começava a mostrar seu valor. E um pouco de sua insanidade, também.