Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em February de 2004

Rute encontra Boaz

(Rute 2)

Onde é que estávamos? Ah, sim: começou a colheita de cevada em Israel, depois de anos de fome. Rute, sempre disposta a ajudar, foi falar com a sogra:
— Dona Noemi, eu estava aqui pensando num jeito de ajudar a senhora aqui, de botar comida dentro de casa, essas coisas.
— Ah, minha filha, que bom! Já escolheu o ponto, ou vai trabalhar em boate?
— Er… Na verdade eu estava pensando em ir catar espigas.
— Ah. C-claro, claro. Excelente idéia, Rute.
Então Rute foi para o campo e começou a andar atrás dos trabalhadores que faziam a colheita, apanhando as espigas que eles deixavam cair no chão (de acordo com a lei mosaica, o segador estava proibido de voltar atrás para pegar o que sobrava: o que caía no chão era destinado aos pobres). Rute foi indo atrás de um e de outro, e acabou entrando na propriedade de um certo Boaz. Esse Boaz, vejam só, era parente de Elimeleque, o finado esposo de Noemi. Pois bem, Rute estava naquela labuta quando o dono da plantação chegou e foi falar com os empregados:
— Que Javé esteja com vocês.
— Nah, com você.
Notando a presença tímida de Rute logo atrás de seus funcionários, Boaz perguntou ao chefe dos segadores:
— Ei. Quem é aquela moça ali?
— É a moabita que veio para cá com a Dona Noemi. Ela pediu para que eu a deixasse ir atrás da gente, catando as espigas que fossem caindo. Eu não achei nada de mais, autorizei. Ela está trabalhando desde cedo e só parou pra descansar um pouquinho na sombra.
— Hum… Rute, não é?
Sim Senhor…
— Escute, minha filha: não vá catar espigas em nenhuma outra plantação. Fique por aqui, e trabalhe perto das minhas servas, ficando com elas quando forem cortar espigas. Eu já dei ordem aos empregados para não mexerem com você, não se preocupe. E quando você sentir sede, pode beber a água que os empregados tirarem para beber.

[A partir de agora, Rute (assim como Noemi, mais tarde) passa a falar o velho e universal idioma chamado mulherês. Sabe aquele negócio de dizer uma coisa que significa o contrário, um filho do sarcasmo e sobrinho-neto da ironia? Pois então: nos próximos diálogos, transcreverei normalmente o que foi dito, e botarei entre parênteses e em itálico (a la Stephen King) o verdadeiro significado das palavras. Preparados?]

Quando Boaz terminou de falar, Rute ajoelhou-se, encostou o rosto no chão e disse:
— Por que foi que o senhor reparou em mim, e é tão bom assim para uma mera estrangeira?
(Sim, sim, quanta bondade! Podia me dar um emprego decente, ou então alguma comida, mas não! Me dá autorização para sair catando espigas caídas, como se isso já não estivesse previsto na lei de seu país. Cara-de-pau…)
Boaz não falava mulherês (nenhum homem fala), então apenas respondeu à pergunta:
— Eu ouvi falar do quanto você ajuda sua sogra, e que deixou sua família em Moabe para vir viver em Israel com ela, no meio de gente desconhecida. Que Javé a recompense, minha filha, que o Deus de Israel, que você veio procurar, te dê uma grande recompensa.
— Ah, mas assim já é demais! O senhor está sendo muito bom para mim. O senhor me dá ânimo, falando assim com tanta bondade. Eu bem sei que mereço menos do que uma de suas empregadas.
(Pelo jeito eu não mereço mesmo é nada. O negócio por aqui é na base do ‘Deus lhe pague’. Já vi tudo…)
Rute continuou trabalhando. Na hora do almoço, Boaz mandou chamá-la.
— Rute, venha aqui. Não se acanhe. Olha aí, pode comer.
Rute sentou-se entre os trabalhadores, e Boaz lhe deu cevada torrada para comer. Cevada torrada. CEVADA TORRADA! Sei não, tenho cá pra mim que cevada só presta se for assada com água e fermento, em forma de pão, ou então fermentada, como cerveja. Cevada torrada deve ter gosto de cabeça de alfinete. Mas Rute, sempre muito educada, empanturrou-se de grãos. E quando ela se levantou para voltar ao trabalho, Boaz ordenou aos empregados:
— Deixem a menina pegar espigas onde bem entender, e não mexam com ela. Aliás, deixem algumas espigas caírem de propósito, se puderem.
E assim Rute catou espigas até de tarde. Depois debulhou os grãos das espigas e os pesou: vinte e cinco quilos, nada mal para um dia de trabalho (fora a diversão que deve ser trabalhar o dia todo curvada sob o sol do Oriente Médio). Ela pegou sua cevada, assim como o que lhe sobrara do almoço (CEVADA TORRADA, MEU DEUS!), e levou tudo a Noemi. A sogra ficou espantada com a quantidade de grãos:
— Rute do céu! Onde é que você foi catar espigas hoje? Que Deus abençoe o homem que se interessou por você!
(Tomara que esse sovina pelo menos tenha o azar de engravidar você; só assim pra gente sair da merda)
— Um tal de Boaz, Dona Noemi, um homem muito bondoso.
(Filho da puta nojento…)
— Que Javé abençoe Boaz, que é bondoso tanto com os vivos como com os mortos. Rute, não sei se você sabe, mas Boaz é nosso parente próximo, e um dos responsáveis por nós.
(Filho da puta nojento…)
— Não sabia, Dona Noemi! Que maravilha! E sabe da maior? Ele disse que eu posso continuar trabalhando lá!
(Mas que bosta!)
— É bom que você vá mesmo, filha, porque se você for trabalhar na plantação de outro homem, é capaz que seja humilhada.
(Esse é parente, pelo menos tem obrigações)
Assim Rute continuou trabalhando nas plantações de Boaz até o fim da colheita da cevada e do trigo. Mas o fim da colheita não seria o fim da história de Rute e Boaz, como veremos.

Ah, Sarah…

Estou cada dia mais apaixonado por Sarah Martin, violinista, vocalista e compositora do Belle & Sebastian. Como ela pode falar as coisas mais lindas do jeito mais simples, nunca escorregando para a pieguice ou para a presunção? Por exemplo:

Waiting For The Moon To Rise

All the way back home
I’m telling you I caught the sun
Creeping up behind my shoulder
And another day’s begun
I was following a trail
I’d never been along before
Chasing darkened skies above me
Looking like the spring
Like the winter
And the morning

If there’s a place I want to go
Then I’ll be there with you
‘Cos in my dreams the things
I’m wishing for
Keep coming true
Now a new day comes
Clears the darkness out of sight
And the shadows that were sleeping
Come and dance beneath the light
And I’m trying hard to hide
Keeping the sun out of my eyes
Close them tight
And now I’m waiting for the moon to rise

Don’t try to say to me
That this was never meant to be
‘Cos the days are long where I come from
The next few days I’m free
There’s a train I want to catch
But it won’t leave here for a while
Till darkness fills the eastern sky
And streetlights stretch for miles
Through the spring
And the winter and the morning

Lindeza! Lembra um pouco as letras do Rodrigo Amarante, mas com certas nuances que só mesmo uma mulher (e talvez só mesmo escocesa) consegue expressar.
Sarah, eu te amo!

Recado

Ei, menina, ignore os clones. Os cães ladram etc. etc.

Vergonha, vergonha!

CADÊ OS CAPÍTULOS BÍBLICOS, MARCURÉLIO???
Humpf. Vagabundo.

Agradecimentos

Ó, Jesus mamado! Eu não consigo parar de pensar na festa!
Muito bem, vamos aos agradecimentos: primeiro à Bárbara, por ter dado a dica do lugar para a festa, e também por ter discotecado. Obrigado aos outros DJs também: Daniela, deus, moskito, Fer, Katia, Tonon e Mariana. À minha querida Gabi pelos móbiles e pela força na decoração, juntamente com metade da equipe de DJs (Daniela, deus, Fer e Mariana) e o sempre disposto (e maluco) Evandro. Ao Rui e à Tati, do Galpão 16, e a toda sua equipe.
Muito obrigado a todo o povo que veio de longe só para a festa, e para os amigos que resolveram reaparecer para matar a saudade. A todas as pessoas que me disseram as palavras mais lindas; eu não sabia que havia tanto amor assim direcionado para mim.
E a você, menina, por ter alegrado mais ainda minha noite ;-)

Melhor comentário do ano

“Marco Aurélio de aparelho parece um coco com um zíper no meio”
(Enéas)

Hum…

Impressão minha ou a barra ali da direita sumiu-se?

Voltou.

A festa

Nem falei sobre a festa, né? É que eu até agora não consegui absorver tudo. Como é que tanta gente pode ir para um lugar para celebrar o aniversário de algo criado por mim? Como é possível que todas sejam pessoas maravilhosas, que todas me falem as coisas mais lindas, quase me fazendo chorar (quase, porque homem não chora)?
Teve um momento em que eu me recostei numa pilastra e fiquei olhando aquele povo todo. Pessoas felizes, animadas, sacolejantes. E pensei: “E eu mereço tudo isso?”. Resposta óbvia: claro que não mereço. Mas o que eu posso fazer se vocês são doidos e, não satisfeitos em gostarem das bobagens que escrevo, ainda resolvem gostar de mim? O que fazer com essas caravanas de doidos que vieram de todos os cantos do Brasil só por causa da festa de dois anos deste blog? Vacinar todo mundo, pagar terapia, internar? Não, não: permaneçam loucos, e eu jamais me sentirei sozinho.
Obrigado. Muito obrigado. Mais uma vez vocês conseguiram enternecer este coração cansado.

Dica para os usuários do Blogger/BR

Sob o eufemístico epíteto de “mudança nas regras”, o sistema de blogging da Globo vai começar a cobrar por seus serviços. Antes de pensar em dar dinheiro a esses mequetrefes, talvez valesse a pena os usuários do Blogger/BR considerarem a hipótese de migrar seus blogs para o serviço da UOL. Por quê? Porque o danado oferece um sistema de importação de posts e imagens do Blogger/BR (e de posts do Blogger americano também, aliás). Eu testei com o Sonhos Sonhos São e até que funcionou direitinho.

Planos

- Estou pensando em ressuscitar o Emotionrélio, dessa vez no endereço http://emotionrelio.t35.com
- Estou pensando em começar a levar mais a sério esse negócio de escrever. Adquirir mais disciplina, essas coisas.
- Estou pensando em comer essa mulher:

Começando agora.

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