Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em February de 2004

O nascimento de Samuel

(I Samuel 1)

O primeiro livro de Samuel trata da transição entre o tempo dos Juízes e a monarquia israelita. Nada melhor para começar, portanto, do que contando como foi o nascimento de Samuel. Vamos a ele.
Havia na cidade de Ramataim-Zofim (que mais tarde veio a receber o nome grego de Arimatéia, cidade natal daquele José que cedeu o túmulo a Jesus Cristo) um homem chamado Elcana. Ele tinha duas mulheres: Penina, com quem tinha filhos, e Ana, que aparentemente era estéril (mais uma…). Elcana tinha o costume de ir uma vez por ano a Siló, onde então ficava o Tabernáculo, para ali oferecer sacrifícios. Hofni e Finéias, filhos de Eli, eram sacerdotes na época. Cada vez que Elcana oferecia sacrifícios, dividia com as duas esposas e os filhos a parte da oferta destinada aos ofertantes. Sendo Ana a esposa que ele amava de verdade, dava a ela porção dobrada. Não adiantava nada, porém, porque Penina provocava Ana nessas ocasiões, irritando-a demais e deixando-a deprimida e sem apetite. Elcana ficava desesperado:
— Anita, meu amor, por que você chora? Por que não come? Por que está sempre triste?
— …
— É por causa dessas provocações da Penina. Oras, deixe isso pra lá! Por acaso eu não sou melhor para você do que dez filhos? Hein? Hein? Hein?
— …
— ARGH!
A história se repetia ano após ano. Quando Elcana anunciava à família que chegara o tempo de ir a Siló, todos comemoravam, menos Ana, que já se preparava para ser mais uma vez infernizada por sua rival. Até que um dia ela se cansou: estando mais uma vez a família reunida em Siló, ela foi até a Tenda Sagrada logo depois da refeição. Lá chegando, começou a chorar e falar com Javé:
— Ó, Deus! Assim não dá mais não. Olhe para mim, por favor, uma vez só! Veja a minha aflição. Javé, se você me der um filho, eu juro que ele será dedicado ao seu serviço por toda a vida, e que nunca cortará o cabelo.
A promessa de não cortar o cabelo, como já vimos na história de Sansão, significava que a criança seria um nazireu. Pois bem, Ana continuou sua oração. Suplicava em silêncio, e seus lábios apenas se mexiam, sem som. Ficou tanto tempo ali que o sacerdote Eli, que estava sentado numa cadeira junto a um pilar, notou sua presença. Vendo aquela mulher chorando e mexendo os lábios sem dizer nada, precipitou-se em suas conclusões:
— Mas que vergonha!
— Hum… Como, senhor?
— Come, não. Bebe! Cachaceira sem-vergonha! Vê se te emenda! Onde já se viu, vir à Casa de Deus com o rabo cheio de manguaça?
— Senhor, não me julgue mal. Juro que não bebi nada, nem uma cervejinha. Mal comi, na verdade, porque vivo angustiada. Por isso vim até aqui, para contar a Javé as razões de minha angústia e pedir a ele que olhe para mim e me ajude. Se orava de um jeito estranho é porque sou uma mulher muito infeliz e sofredora.
— Er… Ahn… Aham… Sim, sim, claro. Desculpe o mau jeito, viu? Vá em paz, e que Javé lhe conceda o que você pediu.
— Muito obrigada, senhor.
Então Ana voltou para junto da família. Estava até mais feliz, tanto que chegou a comer um pouco. Na manhã seguinte, Elcana e sua família acordaram cedo e foram mais uma vez adorar a Javé, depois do que pegaram a estrada para Ramá. Lá chegando, Elcana “conheceu” a sua esposa, ou seja, teve relações sexuais com ela. Sabem como é, deu uns futucos. Passou-lhe a vara. Deu um tapa na periquita. Molhou o biscoito, afogou o ganso, decalcou a araponga. Bah, vocês entenderam: finalmente Elcana percebeu que esse negócio de amor sublimado não estava com nada. Como resultado, aprendeu de onde é que vêm os bebês: nove meses depois, Ana teve um menino e botou nele o nome de Samuel, que significa “pedir a Deus”.
Quando o menino estava com três meses de vida, chegou novamente o tempo de Elcana ir a Siló. Ana, porém, resolveu ficar em Ramá:
— Não vou agora, vão vocês. Quando o menino for desmamado, eu mesma o levarei para que fique lá por toda a vida.
— Hum. Acho melhor você não ir a Siló. Quando Samuel for desmamado, você o leva para que ele fique por lá.
— Excelente idéia, Elcana!
— Bondade sua, minha querida.
Então Ana ficou em casa enquanto a família ia a Siló oferecer sacrifícios. Meses depois, quando Samuel enfim foi desmamado, ela e Elcana o levaram a Siló, juntamente com um novilho de três anos, dez quilos de farinha e um odre de vinho como ofertas. Apresentaram-se a Eli, e Ana disse:
— Seu Eli, eu sou aquela mulher que o senhor achou que estivesse bêbada no Tabernáculo uma vez, está lembrado?
— Vagamente.
— Pois então: eu estava daquele jeito porque não tinha filhos. Mas Javé ouviu minha prece e me deu um filho.
— Com a minha colaboração, é claro…
— Ah, sim: com a colaboração do meu marido aqui, é claro. Então hoje nós viemos aqui para lhe entregar esse menino, Samuel, para que seja dedicado ao serviço de Javé.
— Peraí, eu já sou muito velho para cuidar de um pirralho. Ei!
Mas o casal já havia saído para adorar a Deus. Não tendo outro remédio, Eli começou a cuidar do moleque. Deixemos o velho entretido com as fraldas sujas do menino; voltaremos à história depois. Esse Samuel ainda vai dar muito o que falar.

Timóteo na praça

Essa é pra matar de inveja minha amiga Jana e o Ruy Goiaba: andava eu pela Praça da República, centro de São Paulo, quando vi uma aglomeração um tanto maior do que as costumeiras na região. Cheguei mais perto e vi que havia um crioulo corpulento no meio da roda de curiosos. “Pai-de-santo”, pensei logo. Mas estava com um microfone, e ali perto havia um carro de som. Demorei um pouco para aceitar o que meus olhos viam, mas acabei dando o braço a torcer: era ele mesmo, Agnaldo Timóteo.
Acontece que ontem eu estava com a câmera na bolsa. Sorte, muita sorte! Abri caminho no meio do povo e gritei pra ele:
— Seu Agnaldo, o senhor me permite? — apontando para a câmera.
— Oras, mas é claro. Espera um pouquinho.
Ele pediu para o pessoal que estava na frente dele se afastar um pouco e me fez sinal para ir até lá, para assim tirar uma foto de frente. Fui lá, todo feliz, e bati essa foto histórica:

Notem a beleza das pessoas presentes

Tirada a foto, me aproximei dele:
— Muito obrigado, Seu Agnaldo.
— Pô, rapaz. Seu Agnaldo, não. Agnaldo!
— Tá bom, Agnaldo. Vou levar um CD, você autografa?
— Mas é claro!
E foi assim que saí da Praça da República feliz da vida, com uma foto de Agnaldo Timóteo na memória da câmera e um autógrafo dele num CD:

Pronto

Não falei que o livro de Rute era curtinho? Quatro capítulos e pronto. O próximo será o primeiro livro de Samuel, onde começamos a conhecer a monarquia israelita. Mas fica para depois, por enquanto baixem mais um PDF aqui.

O casamento de Rute

(Rute 4)

Como vimos no último capítulo, Rute e Noemi ficaram num impasse, ansiosas enquanto esperavam que Boaz resolvesse o assunto com o parente recém-aparecido na história. Numa coisa Noemi estava mesmo certa: Boaz não dormiria enquanto não resolvesse tudo. Tanto que, logo pela manhã, foi até a porta da cidade e sentou-se ali. Quando o tal parente de Elimeleque ia passando, Boaz gritou para ele:
— Ô, fulano! Venha até aqui!
— E aí, Boaz? Tudo bem?
— Beleza… Espera aí um pouquinho. Tenho um assunto para tratar com você, um negócio sério que vai precisar de testemunhas. Já volto.
Ele saiu e em pouco tempo voltou acompanhado de dez homens dos mais importantes de Belém-Efrata. Os doze assentaram-se, e Boaz expôs o assunto:
— Negócio seguinte: Noemi voltou de Moabe e está vendendo as terras de Elimeleque, seu finado marido e nosso parente. Quando soube disso, achei melhor falar com você, já que é o parente mais próximo do falecido. Portanto, se você quiser comprar essas terras, assuma o compromisso aqui, na frente das autoridades. Porque se você não quiser, eu compro, já que sou o segundo parente mais próximo.
— Hum. Taí, gostei da idéia. Vou comprar as tais terras.
— Muito bem, muito bem. É uma excelente aquisição. Mas tem uma condição para a compra.
— Ah é, é?
— É. Se você comprar a propriedade de Noemi, também deverá se casar com Rute, sua nora viúva, para que as terras permaneçam com a família do finado Elimeleque.
— Epa. Casar, é?
— É.
— Não, peraí. Não tô nessa de casar, não. Nem conheço a moça. Além do mais, isso poderia prejudicar meus herdeiros. Compre você as terras, eu tô fora.
Parece mera covardia do sujeito, mas não: de acordo com uma antiga tradição, uma viúva deveria casar-se com um irmão ou parente próximo de seu falecido marido. Os filhos dessa união seriam considerados filhos do morto. Por uma situação assim é que Deus castigou Onan, lá no Gênesis: tendo se casado com a viúva de seu irmão, ele não queria lhe dar filhos. Então praticava o coitus interruptus, derramando o sêmen na terra sempre que tinha relações com sua esposa. Deus ficou muito puto com isso, e mandou-lhe um raio na cabeça. Bah, a história toda está aqui, voltemos a Boaz.
Bom, já que o tal sujeito não queria casar-se com Rute (e, por conseqüência, dar filhos ao falecido Malom), Boaz não teve outro remédio senão assumir a responsabilidade. Como era costume na época, o tal fulano entregou a Boaz sua sandália como sinal de que o trato estava feito (assinar uns papéis seria bem mais simples, mas quem é que vai querer simplicidade na Bíblia?). Então Boaz, erguendo a sandália para que todos vissem, dirigiu-se a eles:
— Hoje vocês são testemunhas de que comprei de Noemi tudo o que era de Elimeleque e de seus filhos, Quiliom e Malom. Também me casarei com Rute, viúva de Malom, para que seu nome seja sempre lembrado.
Os outros assinaram embaixo (devem ter entregado suas sandálias a Boaz, também):
— Sim, somos testemunhas. Que Javé faça com que essa mulher seja para você como foram Raquel e Léia, que deram muitos filhos a Jacó, tornando-se assim as mães do povo de Israel. Que a sua família seja como a família de Perez.
— Peraí. Perez não é aquele que nasceu porque Judá achou que sua nora era uma prostituta e passou-lhe a vara?
— É.
— Essa nora não era Tamar, que conseguiu ser viúva de dois dos filhos de Judá?
— É.
— Cês precisam melhorar essas bênçãos aí…
— É…
— Humpf.
Apesar da bênção torta, o trato estava feito. Boaz voltou para a casa (e deve ter tido um trabalhão para explicar que não, não tinha entrado para o comércio de calçados, com tantas sandálias nas mãos) e desposou a Rute. Foi um mero casamento de conveniência, como vimos, mas isso não tem importância. O que interessa é que os dois não perderam tempo, e nove meses depois nasceu-lhes um filho. As mulheres da vizinhança, umas fofoqueiras (as mulheres da vizinhança são sempre fofoqueiras) vieram visitar o recém-nascido. E, com a mania de bênçãos que aquele povo tinha, sapecaram logo a delas em cima de Noemi:
— Louvado seja Javé, que lhe deu um neto para cuidar de você! Que ele venha ser famoso em Israel, que saia na Caras e coma tudo quanto é vagabunda! Ele será o consolo de sua velhice, graças à mãe, essa sua nora que é melhor do que sete filhos!
— Er… Tá. Amém.
Noemi pegou o menino no colo, e pôs nele o nome de Obede. Se Obede foi importante? Não, mas ele teve um filho chamado Jessé, que também não teve grande importância. Em compensação, o filho de Jessé foi Davi, aquele que matou Golias e veio a ser o maior dos reis de Israel.

Demonstrem alguma gratidão!


MARCURELINHO
O amuleto dos blogueiros

Várias pessoas que botaram São Marcurelinho em seus blogs receberam — até antes do que esperavam — graças inauditas. Teve muito nego se dando bem na festa de dois anos do JMC graças ao poderoso amuleto. Pois bem, é hora de demonstrar gratidão: descreva aí nos comentários a graça alcançada.
Obrigado.

The bitch is back

www.bluezita.com.br

Sobre humor, histeria, tristeza e palavras de baixo calão

— Ask me the secret of comedy.
— What is the secret of…
— Timing!

(Eric Idle, em seu livro Road To Mars)

Fazer humor (ou pelo menos tentar, que é o que eu faço) é chapinhar num terreno bastante perigoso. Você está no alto de um minarete. De um lado, o Abismo da Histeria, do outro, a Garganta do Ridículo. Lá embaixo, o Monstro da Tristeza, que foi o que o fez subir até aqui, pra começo de conversa. Qualquer passo em falso o fará escorregar ou para a histeria ou para o ridículo. Em ambos os casos, será devorado pela tristeza.
Falava sobre isso com a Fer no fim-de-semana, depois de assistirmos Kung Pow. Quem já viu o filme sabe: as cenas mais caras, aquelas que envolvem os efeitos especiais mais sofisticados, são justamente as que não têm graça alguma. O bebê lutando, depois aquela luta com a vaca, e a cena da língua no final: quem ri disso? Parece que Stevie Oedekerk, o idealizador, roteirista e diretor do filme, ficou inseguro com o que tinha nas mãos e resolveu enfiar umas cenas que sublinhassem que o filme é puro non sense. Não precisava: tais cenas parecem golpes de um desesperado, um palhaço que, com medo de que a audiência não ria das piadas de sempre, de repente bota o pau pra fora e o chacoalha para a platéia. É ridículo, é histérico. E, acima de tudo, é triste.
Ter a medida exata do humor deve ser a arte mais refinada que existe, e é por isso que eu cultuo Monty Python. É obrigação de qualquer um que pense em fazer humor (desde o despretensioso palhaço da turma, no estilo Chandler Bing, até o comediante profissional que ganha montes de dinheiro, como Matthew Perry) buscar o exemplo do sexteto britânico. Nada (ou quase nada) do que os Pythons fizeram saía da medida. Eles conseguiram, por anos, equilibrarem-se lá no alto do minarete (aliás, o que Eric Idle aprendeu no Monty Python serviu para que ele escrevesse Road To Mars, um ensaio primoroso sobre o humor e sua estreita relação com a melancolia).
Nessa conversa com a Fer, acabei me lembrando das coisas que escrevo aqui. Disse a ela que há gente que acha minha sátira bíblica engraçada por causa dos palavrões. Não acreditam? Pois vejam:

Uhauahauahuah!!!! Dá até gosto de ler passagem bíblicas com palavrões!!!! uuahauahuahauah!!!

Esse foi um comentário feito pela Eudora na minha versão do primeiro capítulo do livro de Rute (notaram as risadas histéricas? Coincidência?). E no último capítulo, um tal Phillipe comentou o seguinte:

Poha [sic], cade os palavroes? Isso aqui antigamente era mais engracado…

Muito bem: alguém pode me explicar o que há de tão engraçado num palavrão? Eu fui criado numa família baiana. Portanto, quando ainda bebê, as primeiras palavras que falei foram “mamãe”, “papai” e “porra”. Não escrevo palavrões para chocar, nem por achá-los engraçados: eles fazem parte do meu vocabulário cotidiano desde sempre. Tenho, porém, tentado maneirar nas palavras ditas “de baixo calão”, justamente para afugentar pessoas como o Phillipe, que dão risinhos nervosos sempre que lêem ou ouvem “caralho”, “puta que pariu”, “vai tomar no cu”, “boceta”, e outros menos cotados.
Oras, faça-me o favor, qual a graça? Os palavrões fazem parte do vocabulário humano há séculos, e eu aposto que até mesmo os grandes heróis bíblicos soltavam um “puta que pariu” nos dois momentos que justificam qualquer palavrão: a relação sexual e a topada com o dedão do pé. Lembro-me de pelo menos um exemplo: em I Samuel 20:30 (o próximo livro a passar por aqui, aliás) o rei Saul, irado com seu filho Jônatas, o chama de “Filho da perversa em rebeldia” (a Bíblia na Linguagem de Hoje traz “filho de uma mulher à toa”). Deve ser o exemplo mais antigo (Saul reinou de 1.065 a 1.025 a.C.) do sempre popular “filho da puta”.
Não estou dizendo que eu tenha a medida exata do humor (não tenho medida alguma, infelizmente), apenas que reconheço que o ideal é obtê-la, e me esforço para isso. De resto, uma dica para o Phillipe e outras pessoas cujo senso de humor alcança apenas a escatologia: conheçam Monty Python. Por favor.

Marco Aurélio, um moço bonzinho

Muita gente reclama do bloqueio imposto por mim à impressão dos livros da Bíblia em formato PDF. Eu fiz isso porque achava que minha sátira poderia um dia ser publicada, e não seria legal ter nego por aí imprimindo a seu bel prazer. Hoje, com minha autocrítica mais afinada, sei que não vou publicar nada disso. Portanto, fiquem felizes: podem ir ali nas “Escrituras”, baixar e imprimir os PDFs.

O golpe de Noemi

(Rute 3)

A época da colheita terminou, e Rute voltou à vida de sempre. Não agüentando mais ver a nora ali sem fazer nada, só criando bunda, Noemi foi falar com ela:
— Rute, preciso arranjar um marido pra você. É por nada não, mas cê já tá meio passada, não temos tempo a perder. Cê lembra do Boaz, né? Aquele da cevada?
— Claro.
(Infelizmente)
— Pois muito bem. Se eu bem o conheço, esta noite ele vai debulhar cevada. E você vai tomar um banho (tá precisando, hein?), botar perfume e vestir sua melhor roupa. Depois, vá até o lugar onde ele está trabalhando, mas sem que ele a veja.
Noemi explicou todo o plano a Rute, e ela seguiu as instruções da sogra. Ao chegar à propriedade de Boaz, viu enquanto ele debulhava os grãos (da cevada, não dele, por favor!). Depois do trabalho, ele jantou pão de cevada com espigas secas e tomou cerveja. Estando já um tanto bêbado, deitou-se num monte de cevada. Gostava de cevada, o danado.
Ao ver que ele dormia, Rute foi se aproximando devagarinho, levantou a coberta de Boaz e deitou-se aos pés dele. No meio da noite ele acordou de repente (com uma puta dor de cabeça e uma sede infernal), e ficou espantado de ver uma mulher deitada ali com ele.
— Er… Quem é você?
— Sou Rute, sua empregada.
— Ah. Rute. Hum. O que aconteceu? Quero dizer… Bom. Você sabe.
— Você é nosso parente próximo, e tem que nos proteger.
— Hum. É. Tá. Então. Puxa, que coisa, não? Eu sabia que você era leal à sua sogra, mas não tinha nem idéia de que sua lealdade à família do seu sogro fosse grande a esse ponto…
— Hehehe.
(Trouxa)
— Mas é sério! Podia ter ido procurar um homem mais moço, mas veio aqui. Puxa… Olha, não tenha medo, viu? Todos aqui em Belém sabem que você é moça direita. Não se preocupe, vou fazer o que você quiser.
— Puxa, seu Boaz. Obrigada.
(Trouxa)
— Que é isso, que é isso… Só que tem um negócio: de fato, eu sou parente próximo da Noemi, mas tem um cara aqui na cidade que é parente mais próximo ainda. Então vamos fazer o seguinte: você fica aqui comigo o resto da noite, e amanhã eu falo com o tal sujeito. Se ele quiser ficar responsável por você, tudo bem. Caso contrário, eu juro por Javé que assumirei minha responsabilidade.
— Er… Obrigada, seu Boaz. Muito obrigada.
(Mas que grande filho da puta!)
Percebem? Rute deitou-se aos pés de Boaz, que acordou ainda meio bêbado, viu a mulher e deduziu que ele a levara para a cama. O plano de Noemi seria perfeito, não fosse o detalhe de Rute ser viúva. Se se tratasse de uma virgem, seria uma situação mais complicada. Como era viúva, Boaz ainda teve a presença de espírito para lembrar-se do outro parente de Elimeleque.
Bom, Rute voltou a dormir, mas acordou quando ainda estava escuro, para sair enquanto não havia ninguém acordado. Ela não podia correr o risco de ser vista, não agora que o casamento de Boaz não era tão garantido como Noemi calculara.
— Já vai, Rute? Peraí. Tire a sua capa e estenda-a aqui no chão.
Rute o fez e, adivinhem? Sim, sim: Boaz despejou uns vinte quilos de cevada sobre a capa, ajudou Rute a ajeitar o fardo sobre os ombros e despachou-a. Ela foi de lá até a casa de Noemi maldizendo todos os homens e todos os grãos do mundo. Ao chegar, foi recebida por Noemi:
— E aí, minha filha? Como foi?
— Hum. Mais ou menos. Ele disse que há um outro parente do seu finado marido, ainda mais próximo que ele.
— Ah, não! Não pode ser! Não p… Putz, é verdade. Tem aquele fulaninho lá. Ah, mas que merda! Como é que eu fui me esquecer disso?
— Pois é. Ele vai falar com o tal fulaninho. Por enquanto, mandou essa cevada pra gente.
— ARGH! Tira esse negócio da minha frente, que se eu comer mais cevada vou começar a produzir cerveja no estômago.
— É, também não agüento mais. Puxa vida, Dona Noemi. Que que a gente faz agora?
— Agora é ter paciência, Rute. Boaz não vai dormir enquanto não resolver esse assunto, pode ter certeza.
O golpe tramado por Noemi, que parecia tão garantido, acabou esbarrando num problema inesperado. Seja como for, Rute arrumou um marido. Mas quem será? Boaz ou o tal fulano?

Malucas?

“I reject anyone who’s crazy enough to actually go out with me,
and then I bitch about the fact that there aren’t any great women out there.”

(Chandler Bing)

É bem batida aquela frase de Groucho Marx: “Jamais ingressaria num clube que me aceitasse como sócio”. A graça da frase está em sua natureza paradoxal e também no alto teor autodepreciativo. Aplicada noutro contexto, porém, talvez a afirmação torne-se trágica. A relacionamentos, por exemplo.
Assim como Chandler Bing, eu passei os últimos anos rejeitando qualquer mulher louca o bastante para ficar comigo, e depois reclamava que não há mulheres legais no mundo. Acho que cheguei mesmo a escrever aqui no blog que só me apareciam mulheres malucas. É claro: eu achava doida qualquer mulher que manifestasse um certo interesse por mim. Enquanto isso, corria (ou rastejava) atrás de mulheres impossíveis, das quais eu via mais a personagem criado por mim e menos a pessoa de verdade.
Bom, já basta disso: depois de alguns momentos de autoanálise, concluí que tenho, sim, meus atrativos. Não físicos, isso é óbvio, mas tenho cá minhas graças. Portanto, uma mulher que se venha a se interessar por mim não será necessariamente maluca. Meio desregulada talvez, mas não maluca. Ou pelo menos não por isso. Pode ter batido a cabeça quando era criança, ou ter nascido em Cubatão no começo da década de 80, ou ter recebido uma alimentação insuficiente, ou… Ok, ok, estou divagando. O ponto é: pode se apaixonar por mim. Acho que aprendi a aceitar.

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