Rute e Noemi
No tempo em que os juízes governavam, houve uma grande fome em Israel. Então um homem, de nome Eimeleque, saiu de Belém (também conhecida como Efrata), sua cidade natal, e foi com sua família morar em Moabe. Eimeleque era casado com uma mulher chamada Noemi, e eles tinham dois filhos: Malom e Quiliom (curiosidade: em hebraico, malom é “doença” e quiliom é “desperdício”. Sacanagem botar esses nomes nos filhos…). Após algum tempo morando em Moabe, Eimeleque morreu e Noemi ficou morando com os filhos, que se casaram com duas moças moabitas chamadas Orfa e Rute. Depois de quase dez anos em Moabe, Malom e Quiliom também peidaram no fubá, deixando as três mulheres desamparadas.
Um dia finalmente chegou a boa notícia: a fartura tinha voltado a Israel. Noemi ficou muito alegre, é claro, arrumou suas coisas e pegou a estrada com as noras. No meio do caminho, porém, ela pensou melhor e disse a elas:
— Não, isso está errado. A terra de vocês é aqui, não em Israel. Voltem pras suas casas, fiquem com suas mães. Que Javé abençoe e vocês, que consigam casar-se novamente e ter uma vida feliz.
Ela se despediu delas com um beijo, e ia continuar a viagem sozinha, mas as duas começaram a chorar:
— Ô, Dona Noemi! Não vamos voltar não. Queremos ir com a senhora!
— Ai meus ovários… Pra que cês querem ir comigo? Acham que eu, nessa idade, ainda vou ter filhos para que se casem com vocês? Já estou velha demais para me casar de novo. Além do mais, mesmo que eu arrumasse um homem besta o suficiente para querer se casar comigo, e que eu tivesse filhos, vocês iam esperar os meninos crescerem para se casarem com eles? Claro que não, claro que não! Javé está contra mim, só fode com a minha vida, e se vocês ficarem por perto é capaz de sobrar pra vocês.
— Não importa, Dona Noemi!
— Peraê, Rute. O que Dona Noemi disse até que faz sentido…
— HÃ???
— É, ué. A gente não pode ficar vivendo lá em Israel, encalhadas a vida toda.
— Bom, você faça o que quiser. Eu não vou embora.
— Hum… Então tá. Tchau, Dona Noemi. Tchau, Rute. Boa sorte…
E Orfa voltou para Moabe.
— E você, Rute? Vai ficar aí olhando pra minha cara feito uma songa-monga? Sua cunhada voltou para Moabe e seus deuses, por que você não faz o mesmo?
— A senhora não pode me obrigar a abandoná-la, Dona Noemi! Eu vou aonde a senhora for, e vou morar onde a senhora morar. O seu povo será o meu povo, e o seu deus será o meu deus. Onde a senhora morrer, eu morrerei também, e que Javé me castigue se outra coisa que não a morte me separar da senhora.
— Mas que carrapato você é, hein? Puta que pariu…
Mas na verdade Noemi ficou comovida com essa demonstração de carinho e lealdade, e aceitou que Rute fosse com ela. As duas continuaram a viagem até Belém. Quando chegaram, a cidade toda se agitou: a mulher de Eimeleque, que partira há mais de uma década, voltava acompanhada de uma moça moabita. Estava velha; o tempo não fôra clemente com Noemi. As mulheres de Belém se perguntavam:
— Essa é a Noemi mesmo?
Ao que ela mesma tratou de responder:
— Noemi é o caralho! Meu nome agora é Mara, POR-RA!
Parece uma grosseria gratiuta, mas explico: noemi, em hebraico, quer dizer “feliz”, enquanto mara é “amarga”. E Noemi continuou:
— Javé só me deu amarguras nessa vida. Perdi meu marido e meus dois filhos. Eu tinha tudo quando saí daqui, mas graças a Javé voltei sem nada. Então por que vocês me chamariam de Feliz, se tudo o que Deus me deu foi aflição e sofrimento?
Noemi estava revoltada, e com razão: era triste a perspectiva das duas mulheres sozinhas em Belém. Mas a colheita de cevada estava para começar, e uma grande mudança ocorreria na vida de Rute e Noemi. Como veremos no próximo capítulo.



