Still got the blues
Não adianta, eu sempre volto ao azul.
Não adianta, eu sempre volto ao azul.
Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver banda passar
Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal ?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal
Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu tédio
Pedindo para eu cantar
Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério
Agora falando sério
Eu queria não falar
Falando sério
(Chico Buarque)
[Dias tristes, esses primeiros do ano]

Minha mãe achou essa foto aí — reparem no enquadramento perfeito — fuçando nos arquivos da família. Sou eu, aos nove meses de vida, no colo do Zé, meu tio. Fevereiro de 1976. Acho que a maioria dos meus leitores não era nascida então, quase 28 anos atrás. Notem que eu não tinha cabelo. Procurei meu pinto na foto, sem sucesso. Ninguém esperava muito de mim: eu era feio, tinha vários problemas de saúde, era quieto demais e vivia olhando o mundo, em silêncio, com meus olhos enormes.
Há coisas que não mudam muito.