Ei!
O que vocês acham de um chat?
(Só até as cinco, ok?)
Esse livro dos Juízes é claramente cíclico: o povo se afasta de Javé, aí vêm os inimigos e dominam Israel. Então os israelitas se arrependem dos seus pecados, Deus manda um líder para libertá-los, há paz por muitos anos. Tranqüilos, os israelitas voltam a adorar outros deuses, aí vêm os inimigos, dominam Israel, e assim por diante. Pois bem, depois da morte de Jair, os israelitas se empolgaram e começaram a adorar os deuses e deusas dos cananeus, da Síria, de Sidom, de Moabe, de Amom e dos filisteus, uma grande salada de divindades. Javé ficou com muita raiva, e castigou seu povo, mandando contra Israel os amonitas e filisteus. Durante dezoito anos eles escravizaram os israelitas que viviam em Gileade, na margem leste do Jordão. Além disso, os amonitas atravessaram o Jordão e começaram a lutar contra as tribos de Judá, Benjamim e Efraim.
Desesperados com a situação, os israelitas pediram a Deus que os libertasse:
— Ô, Javé! A gente sabe que fez cagada com esse negócio de adorar outros deuses e tal. Mas precisava tanto? Os amonitas estão pegando pesado. Vem ajudar a gente, Javé!
E Javé, deixando o orgulho um pouco de lado, dignou-se a responder:
— Tá ruim aí, é?
— Tá!
— Tá insuportável, é?
— Insuportável, Javé! Insuportável!
— Puxa… Das outras vezes eu ajudei vocês, não foi?
— Foi mesmo, Javé!
— Pois é… E mesmo assim vocês me abandonaram, não foi?
— Foi…
— Ei, pra que tanto desânimo? Vocês não querem ajuda? Pois terão ajuda!
— EBA!!!
— Sim, sim!
— E como é que você vai ajudar a gente, Javé?
— Eeeeeeeu??? Eu não vou ajudar ninguém, tão loucos? Vocês têm tantos deuses, peçam ajuda a eles, oras. Se são tão melhores que eu, a ponto de vocês me trocarem por eles, devem ajudá-los com mais eficiência.
— Mas… Mas o Senhor vai abandonar seu povo?
— Er… Deixa eu pensar… Sim! Vou abandonar o meu povo e tirar umas férias! Tchau, boa sorte com seus deuses.
— Não fode, Javé! Tudo bem, só fazemos merda, mas nos ajude só dessa vez!
Então os israelitas destruíram todos os seus ídolos e voltaram a adorar apenas a Javé. Este, por sua vez, resolveu pensar melhor e talvez conceder uma nova chance ao seu povo.
Enquanto isso, o exército amonita acampava em Mispa. O povo de Israel, tendo voltado para Javé, sentia-se seguro para começar a combater o opressor. Então os chefes de Gileade combinaram que o homem que comandasse os israelitas na luta contra os amonitas governaria a região. E é aí que surge um grande filho da puta, do qual falaremos no próximo capítulo.
Ah, que coisa repugnante é a esperança! Fala-se dela com grande entusiasmo por aí, e até o apóstolo Paulo, sempre tão ponderado, escorregou ao incluí-la entre as virtudes teologais, colocando-a ao lado da fé e do amor, tão nobres e necessários. Porque o que é a esperança senão uma sanguessuga de elasticidade ímpar, que começa pequenininha aqui dentro e acaba ocupando todo o espaço disponível? Para crescer, ela suga a fé, o amor e todo o resto, para que só ela permaneça. E nós, achando talvez que nos beneficiamos disso, servimos a ela fatias de mente, porções de coração (grelhadinho na manteiga, nham!), nacos de alma.
Então, quando já se alimentou de tudo o que havia, ela vai embora. Pffff, acabou. “A esperança é a última que morre”, dizem aqueles que gostam de adágios. E é verdade, porque quando (e se) ela morre é porque já matou todo o resto (“Por que o que a gente procura está sempre no último lugar em que a gente olha?”, “Porque depois de achar você não continua procurando”).
Esse parasita vai embora, gordo como um porco, e nos deixa ocos, desmoronados, implodidos. Sobrevivemos, porém. E prometemos que jamais incorreremos no mesmo erro, que nunca mais alimentaremos outra sanguessuga. Até o dia em que ela volta, pequenininha de novo, desamparada, olhar de cão. E lá vamos nós, as bestas, alimentá-la novamente.