Crônons
O Mochileiro das Galáxias, Monty Python e uma teoria besta sobre a natureza do tempo
No Natal eu finalmente criei coragem para começar a ler o The Ultimate Hitchhiker’s Guide, que reúne os cinco livros da série de Douglas Adams. Ler em inglês me dá uma preguiça danada, e ainda mais quando se trata de um catatau de mais de 800 páginas, como é o caso. Enfim: comecei, e logo de cara comecei a imaginar se o Monty Python fizesse uma versão cinematográfica do Mochileiro das Galáxias. Enquanto leio, penso em John Cleese no papel de Arthur Dent, Graham Chapman como Ford Prefect, Michael Palin fazendo o L. Prosser, Terry Gilliam como algum Vogon, essas coisas. Um problema: Graham Chapman está morto. Outro: os cinco sobreviventes estão meio velhos para os papéis. O que fazer? Hum… Talvez voltar à década de 60, ir morar em Londres, dar um jeito de conhecer os Pythons antes mesmo que eles se conhecessem, tornar-me o 23º Python (eu ia dizer o sétimo, mas o posto é da Carol Cleveland. O de oitavo é do Neil Innes. E tem mais um monte. Mas o lugar de 23º ninguém tasca). Surge outro problema: as conseqüências para o presente de mudanças feitas no passado, questão já mais do que abordada, mais recentemente no filme Efeito Borboleta. O negócio seria voltar ao passado e alterá-lo como bem entendesse, sem afetar o presente. Como?
Bom, aí surge outro problema: minha intransponível preguiça. Eu vivo pensando em física, mas nunca me animo a ler nada a respeito. Então começo a forjar umas teorias sem qualquer alicerce, surgidas da pura especulação de uma mente vazia. É o caso dessa que vou tentar apresentar agora. E por que me exponho à vergonha pública? Porque quero abusar de vocês, meus leitores: vejam aí se há algo entre as modernas teorias da física que trate desse assunto. E me mandem links. A preguiça, meus filhos, a preguiça…
Vêem a figura aqui do lado? Então. Bonita, né? Fiz no Paint. Sozinho!
Aham.
Eu comecei a pensar no tempo dividido em porções tão pequenas que seriam elas mesmas indivisíveis (algo parecido com a idéia clássica de átomo). Dessa forma, o tempo não seria uma linha contínua, mas uma sucessão de “partículas”. Precisamos de um nome para elas. Crônons, pronto (ah, a irresponsabilidade!). Cada crônon tem, digamos, 10-1024 milionésimos de segundo. Os crônons se sucedem num só sentido, sendo que cada um deles é destruído pelo crônon subseqüente (pensem numa mesa de bilhar em que cada bola atingida por outra é encaçapada). No entanto, assim que surge, o crônon se desdobra em outros dois: um que é sua cópia exata e uma outra. A primeira é só isso mesmo, uma cópia que fica num outro plano, dimensão, sei lá. A segunda é conseqüência de uma escolha. Por exemplo: você tem que escolher entre uma bomba de chocolate e um sorvete. Escolhe o sorvete. Está atravessando a rua, o sorvete cai no chão, plóft. Você se distrai com isso, vem um caminhão e te atropela. Se tivesse escolhido a bomba de chocolate as coisas seriam diferentes: você comeria a bomba, voltava pro trabalho feliz da vida. Na saída, resolveria passar na doceria para comprar outra. Mas seu sapato sairia do pé no meio da rua, viria um caminhão e páft. Claro que no dia a dia as escolhas não são binárias: há sorvete, há bomba de chocolate, há torta de morango, há pudim de leite. Mas acredito que o processo de decisão no nível dos crônons é binário: ou você escolhe um logo de cara e descarta o resto, ou escolhe um grupo de três sobremesas e despreza o resto. O processo se repete para o grupo de três, até que você escolha um. Cada uma dessas etapas até a escolha é um processo binário: você escolhe uma coisa e descarta outra. Então o outro crônon gerado é o do futuro do pretérito: o que aconteceria em seguida se a escolha fosse a outra (falo em escolhas para exemplificar, o negócio todo serve para acontecimentos acidentais e tal). Resumindo: no eixo X, temos o tempo correndo como o conhecemos; os crônons paralelos no eixo Y, e os alternativos (do futuro do pretérito) no eixo Z. Enquanto os crônons do eixo X vão sendo destruídos pelos novos crônons, os dos outros dois eixos permanecem isolados, sem qualquer ligação com os outros, portanto sem serem destruídos. Entenderam? Não? Nem eu, então vamos adiante.
Dessa maneira, viajar para o passado não tem qualquer efeito sobre o presente: na verdade, o viajante do tempo vai para o crônon paralelo àquele do momento ao qual quer voltar (o qual, é claro, não existe mais). Esse crônon, que existe isolado e auto-suficiente, muda assim que alguma ação é exercida sobre ele. Ou seja: no momento em que chega o viajante, uma cópia é criada (num outro plano, dimensão, universo). Essa cópia, então, inicia um ciclo de tempo normal: crônons surgindo e sendo em seguida substituídos por outros, fazendo antes suas cópias e coisa e tal. Eu poderia voltar, por exemplo, ao crônon correspondente ao instante que John Cleese e Graham Chapman se conheceram, ficar amigo dos dois, vir a tornar-me o 23º Python. Depois de A Vida de Brian e antes de O Sentido da Vida, produziria o Mochileiro das Galáxias com eles. Tudo isso sem afetar nada do que continuaria acontecendo aqui no plano de vocês.
Outra opção seria voltar a um crônon no eixo Z e descobrir o que teria acontecido se eu tivesse escolhido o pudim de leite. Mesma coisa: com a ação sobre o crônon, ele inicia a seqüência usual.
— Mas e se eu quiser ir para o futuro?
Ok, minha cabeça dói.






