Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2003

The Wrong Girl

I went looking for my darling,
I went looking for a sign
and I found her in the morning,
somewhere in the back of my mind

I’m not what I could be,
I need a true love
I went looking and I found one

The wrong girl
The wrong kind
The wrong hand to be holding
The wrong eyes to go searching behind
The wrong dream to have on my mind

(Belle & Sebastian, é claro)

As cidades dos levitas e para os fugitivos

(Números 35)

— Putz, Moisés, ia me esquecendo de um negócio!
— O q-quê?
— As cidades para os levitas.
— P-para os le-levitas? Mas v-você não vi-vive d-dizendo que os le-levitas não vão t-ter di-direito a t-território, que os l-levitas são s-seus e o c-caralho a q-quatro?
— Ô, Moisés… Eles não vão receber um território grande como das outras tribos, mesmo porque têm que viver espalhados por todo o Israel. Mas você quer o quê, que eles vivam como ciganos?
— Q-que mal t-tem em ser ci-cigano? Vê o Si-Sidney M-Magal, ou o B-Benito Di P-Paula, ou o… Er… E-esquece.
— Pois é. E você também é levita, esqueceu? Ia querer viver vagando por aí?
— P-peraí! Q-quer dizer q-que eu vou e-entrar na T-Terra P-prometida???
— Ah, é! Tinha esquecido. Que cabeça, a minha…
— Hu-humpf!
— Hehehe. Olha, tá aqui a planta das cidades para os levitas:

Cidade para os levitas

— D-desenhozinho t-tosco, hein, Ja-Javé? P-puta que p-pariu…
— Não torra, Moisés. Fiz isso às pressas só pra você entender. A parte em ocre é a cidade, um quadrado de 900 metros de lado. A parte em verde são os pastos que ficarão em volta da cidade, a uma distância de 450 metros da muralha nas quatro direções. Vocês vão construir 48 dessas cidades espalhadas por todo o território de Israel, sendo seis delas cidades para fugitivos.
— Ci-cidades para f-fugitivos???
— Já explico, porra. Não me interrompe. Bom. Cada tribo terá um número de cidades de levitas proporcional ao tamanho do seu território.
— …
— Que foi?
— Já a-acabou?
— Hum… Já, ué.
— D-dá pra e-explicar que n-negócio é esse de ci-cidades para os fu-fugitivos?
— Ah, é. O negócio é o seguinte: todo assassino será condenado à morte, já falamos bastante disso. Mas pode acontecer de algum zé-mané aí matar outro por engano, sem querer. Acidentes infelizes acontecem. Nesses casos, o povo julgará a favor do que matou, e este vai se refugiar numa dessas seis cidades, ficando lá até a morte do Sumo Sacerdote. Isso será feito para evitar que algum parente da vítima resolva vingar-se. Mas aí o cara tem que ser esperto: se sair da cidade de refúgio e o tal parente da vítima o encontrar, este poderá matá-lo e não será culpado. Neguim vacilou, amanhece com a boca cheia de formiga, é um-dois pra subir.
— Q-que p-porra de l-linguagem é e-essa, Ja-Javé???
— Aham… Foi mal, tava ouvindo uns raps hoje. Então é isso, Moisés. Estamos quase terminando. Ao final você poderá descansar bastante.
— É o q-que ve-veremos…
— Moisés, Moisés… Que cê tá aprontando?
— Ué, v-você não é o s-sabichão? T-tenta a-adivinhar…

Metástase

“Arranca!”, você disse, ao mesmo tempo em que fazia o gesto brusco de quem tira com força e raiva algo de dentro do peito e o lança longe. Referia-se, claro está, ao tumor que é este sentimento que tenho por você. Nem sabia que o tumor ainda estava lá, mas apenas porque ele tinha parado de doer nos últimos tempos. Ausência de sintoma nem sempre significa cura, e nesse caso a pausa era apenas preparação para um ataque pior. Você sabe que isso só pode me fazer mal, daí o seu enfático “Arranca!”.
Pois bem, vou arrancar. Não assim, de repente. Gostaria que fosse assim. Mas outros tumores do mesmo tipo já corroeram muito aqui por dentro, e não resta muito tecido saudável; não posso me dar ao luxo de perder mais nada. Preciso de uma cirurgia cuidadosa, delicada e lenta. Não sei se vale a pena também: a cirurgia já foi feita incontáveis vezes, e a metástase sempre ocorre. O câncer demora cada vez mais a se manifestar, não porque eu tenha ficado mais resistente, mas sim pela falta de lugar para plantar suas raízes.
Ainda dói quando você vai embora. Ainda sinto o velho nó na garganta, mas o empurro de volta com um copo d’água: homens não choram. Pensei em fazer quimioterapia a base de tabaco e álcool, mas o tratamento já se mostrou ineficaz em outras ocasiões. Não: a cura vem pela cirurgia, então arranco. Mas com cuidado, porque autoflagelação não é comigo. E preciso deixar espaço para que o próximo tumor se sinta confortável aqui dentro.

O retorno

Tomado por ondas de tristeza, corri para o fumódromo e fiquei olhando pela janela e tomando café, já que não fumo. Em poucos minutos ele apareceu, vindo lá dos lados da Hípica.
— Aê, mané. Me arruma um cigarro.
— Parei de fumar.
— Hum. Tá explicado o sumiço então.
— Sentiu saudades?
— Claro que não. Senti falta de filar um cigarrinho vez em quando. E de dar nó na sua cabeça, que é o mais legal. Aliás, tá fazendo o que aqui hoje?
— Nada. Vim só olhar a paisagem.
— Que paisagem, mané? Esse concreto todo aí? Fala a verdade, você veio me esperar. Desembucha, vai. Que se passa agora?
— Ué, você não é o sabe tudo?
— É, acho que sou. Mas é que gosto de ver você se rebaixando.
— Espere sentado.
— Eu não sento. Não tenho bunda, esqueceu?
— Nem bunda nem capacidade de entender figuras de linguagem.
— Cê tá se achando esperto, né? Pois bem, não quer falar nada? Então eu falo. Você parece uma garça, sabia?
— Teu rabo.
— Deixa eu falar, porra. Você já reparou nessas garças que sobrevoam o rio às vezes? Branquinhas, elegantes, vôo suave, uma beleza.
— É, são bonitas mesmo.
— Bah, bonitas o quê! Mera superfície! Que que um bicho desse vem fazer no Rio Pinheiros? Vem fuçar na merda! Todo mundo tem asco de nós porque somos feios e agourentos. Mas jamais nos humilhamos a ponto de ficarmos revirando merda à cata de migalhas. Nosso negócio é com a morte. Ser urubu é um sacerdócio, ser garça não é nada.
— Tá. E eu com isso?
— Já disse, você é uma garça. Fica aí querendo parecer limpinho e correto, mas vive chafurdando na merda alheia, esperando encontrar como recompensa de seu trabalho sujo um resto de carinho aqui, um pouco de atenção ali, até amor talvez, embora não acredite que sua sorte chegue a tanto. Oras, seu mané! Você é feio, desengonçado e pardacento. Seja um urubu, voe alto, saia da merda.
— Você acha que ser urubu é mesmo grande coisa, não é?
— Melhor do que ser um mané sem vida feito você.
Ia responder, mas nesse momento uma garça passou voando na direção do rio. Ele fez um muxoxo de desprezo e voou para o lado oposto.

Cantada?

Tá, eu tinha esquecido que preciso explicar tudo: o que eu disse não foi uma cantada, foi uma piada com a garota. Eu não passo cantadas. Não sei passar cantadas. Ok?

Política da boa vizinhança

A Andreza resolveu ressuscitar o Cópia Barata e não avisou ninguém. Feladaputa. No último post, ela transcreve o meu texto aí da casa muito engraçada. O que, por vias tortas, me fez lembrar do quanto me orgulho do bom relacionamento que mantenho com TODAS as minhas ex-namoradas (ela e a Bárbara).
Lembro-me de um dia em que estávamos num bar, eu sentado entre as duas. Na minha frente, a garota por quem eu estava meio que interessado na época. Lá pelas tantas soltei essa:
— Olha aí. Estou aqui no bar, com minhas duas ex-namoradas, me divertindo muito. Veja como eu sou um cara legal. Você não acha que vale a pena, fulana?
É claro que não colou. Bah.

Desperation Made A Fool Of Me

I’m sick
I’ve felt this way for some time now
Fed up with the daily grind
I’m trying to find relief

If you feel this way then clap your hands
Never thought this was a private line
What is making people mean about sin?

Now that I have got my motives straight
And I am thinking clearly
I’ll sneak up to your window with my senses open wide

I’m tired
On my shoulders weighing heavily
With the full responsibility
For your troubles and your charms

You betray the cause that run with you
Like the sword in some old tragedy
Either stick it in my back
Or pull out

Now that I have got my motives straight
And I am thinking clearly
I’ll sneak up to your window with my senses open wide

Never really thought it would be like this
I know its kinda happening
I’m glad that it is
I’m glad

Now that I have got my motives straight
And I am thinking clearly
I’ll sneak up to your window with my senses open wide

Sim, sim. Trata-se de mais uma canção da banda escocesa Belle & Sebastian. Não, eu não me canso de falar desses caras. Porque de todas as bandas de rock do universo e ao redor dele, só consigo me identificar totalmente mesmo com o Belle & Sebastian (inclusive decorando as letras e cantando junto, vejam vocês). O som dos caras é triste mas não depressivo. A tristeza B&S é aquela saudável e necessária a todos. Porque quem ri o tempo todo é retardado.
Ah, quanto à música: sei lá por que, mas os putos não incluíram Desperation Made A Fool Of Me no disco novo. Em compensação, tem Lord Anthony: “When will you realize it doesn’t pay/To be smarter than teachers, smarter than most boys/Shut your mouth, start kicking the football”. Taí. Se alguém tivesse me dado um toque assim quando eu era criança, talvez hoje eu fosse uma pessoa melhor.

Era uma casa muito engraçada…

(Da série “Coisas que penso depois do almoço”)

Esse negócio todo de amor e coisa e tal é feito uma casa. Uma casa enorme, cheia de quartos, salas, saletas, corredores, escadas, rampas, passarelas, nichos, reentrâncias, portas e muitas, muitas passagens secretas. Pode ser uma casa confortável se você e fulana(o) resolverem morar nela. Vocês podem se aventurar por corredores desconhecidos, se assustar com uma estante que gira revelando uma nova sala de estar, ou passar um tempo chorando juntos no porão.
O problema é quando fulana(o) entra na casa por engano. Ia passando, a porta estava aberta. E você também é bem besta, convidou fulana(o) pra entrar mesmo sabendo dos riscos. E então você descobre que fulana(o) se sente desconfortável ali dentro, e que o desconforto é contagioso. Só que você já a(o) deixou andar demais pela casa. Gostaria de, como pessoa bem educada que é, levá-la(o) até a porta de entrada (e saída, obviamente), mas onde diabos está a porta mesmo…? Fez-se o caos: ficam você e fulana(o) andando constrangidos pelos corredores que parecem não ter fim, você diz “Acho que é por aqui”, e em vez do hall de entrada dão de cara com o banheiro, “Não, não, é ali, tenho certeza”, mas é a biblioteca, “Peraí, vamos tentar por aqui”, e saem numa sacada. Você tem vontade de atirar fulana(o) ali de cima — seria uma saída de qualquer forma — mas lá no fundo você quer sua permanência, mesmo que insuportavelmente constrangedora para ambos depois de algum tempo.
Mas chega o dia em que vocês finalmente encontram a saída. Despedem-se sem jeito e com indisfarçável alívio. Fulana(o) vai embora; você a(o) observa afastar-se, e reprime uma vontade imbecil de gritar seu nome, pedir que fique, que fique assim mesmo, que se foda o constrangimento. Porque com um habitante só essa casa volta a ser o mausoléu de sempre.

Teste

Judy,
Judy.

Which Belle & Sebastian Song Character are You?
brought to you by Quizilla

Tristeza não tem fim

Sim, meus queridos leitores. Marcurélio está triste. Muito, muito triste. Não é aquela tristeza Radiohead de antes, é mais uma coisa Belle & Sebastian, uma tristeza bem-humorada.
O caso é que preciso de leitoras altruístas dispostas a me alegrarem com aquele clássico boquete. Alguém? Alguém?
Não…?
Sabia.

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