(Josué 3)
Conforme prometera no último capítulo, Josué acordou na madrugada seguinte ao retorno dos espiões de Jericó, e com ele todo o povo de Israel. Saíram do vale de Sitim e acamparam às margens do Jordão. Do outro lado do rio, mais próxima do que nunca, estava Canaã, a terra prometida aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, e mais tarde a Moisés e Arão, sua conquista agora quase uma realidade sob o comando do general Josué. A expectativa, como era de se esperar, era imensa, mas o povo ainda teve que ficar acampado ali por três dias sem maiores novidades. Depois desse período, Josué ordenou que emissários passassem pelo acampamento com as seguintes instruções:
— Olha aí, negada, tá chegando a hora da onça beber água. Quando vocês virem os levitas levantando a Arca, vocês também se levantarão e os seguirão. Mas façam o negócio direito: guardem uma distância de uns novecentos metros entre vocês e a Arca, para que não a percam de vista, pois o caminho é meio complicado.
Quando todo o povo já estava avisado e de prontidão, Josué ordenou aos sacerdotes que erguessem a Arca e esperassem novas instruções. Voltou para sua tenda só para dar um tempo e criar um suspense, e foi surpreendido pela presença de ninguém menos que Javé, bebericando um licor de tâmaras sentado numa almofada.
— Ó, meu Senhor e Deus, que honra imensurável receber tão nobre visita em minha desprezível casa. Permita agora que eu renda os louvores merecidos por tão majestosa figura, cuja glória cobre a terra tal qual o…
— Porra, Josué, vai caçar outro saco pra você puxar, que eu não tenho tempo pra essas veadagens.
— …
— Negócio seguinte: você anda meio desacreditado no meio do povo.
— Desacreditado???
— É, rapaz. Falam que você é um bundão, na verdade, e que bom mesmo era o Moisés.
— EU MATO O FILHO DA PUTA QUE DISSE ISSO!
— Vixe! Se você for matar todo mundo que tira sarro da tua cara no acampamento, será um genocídio. Sossega o rabinho aí e deixa comigo. Hoje eu vou mostrar a esse povinho bunda aí que para mim você é um líder tão bom e tão querido por mim quanto Moisés.
— Puxa, sério mesmo?
— Claro que não, porra. Você é um bundão, bom mesmo era o Moisés. Mas para vocês entrarem em Canaã, o povo precisa de motivação. E para isso, precisa acreditar nessa papagaiada.
— Hum. E qual é o plano?
— Coisa pouca: você vai ordenar aos sacerdotes que levem a Arca e parem quando chegarem às margens do Jordão.
— Tá, e aí?
— Aí você vai fazer um discurso assim para o povo…
Os dois combinaram tudo dentro da tenda, e Josué saiu de lá radiante para dar suas ordens e fazer seu discurso:
— POOOOOOOOOOOOVO DE ISRAEL! Hoje vocês verão o grande poder e majestade de Javé! Escolham doze homens, um de cada tribo, para irem à frente de vocês, seguindo a Arca. Acontecerá, então, que quando os sacerdotes pisarem as águas do Jordão, estas pararão de correr, acumulando-se de um lado, e vocês atravessarão o rio a seco!
— …
— VOCÊS ENTENDERAM O QUE EU DISSE? VAMOS ATRAVESSAR O JORDÃO NA MAIOR, SEM MOLHAR OS PÉS.
— Pra isso basta usar uma das pontes! — gritou um gaiato do meio da multidão, provocando risos aqui e ali.
— FODAM-SE AS PONTES! Com isso Javé quer demonstrar todo o seu poder!
— Então ele já foi melhor! Com Moisés foi o Mar Vermelho, agora esse riozinho mequetrefe!
— ORAS, VÃO TOMAR NO CU!
Josué abandonou o palanque furioso e os sacerdotes continuaram sua marcha com a Arca sobre os ombros. Tudo aconteceu conforme ele dissera, e o povo atravessou o rio a seco. Acostumados, porém, a ouvirem histórias e mais histórias sobre a travessia do Mar Vermelho — muitíssimo mais imponente, convenhamos — os israelitas não se impressionaram muito com mais esse truquezinho de Javé.