Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2003

A circuncisão em Gilgal

(Josué 5)

Quando o povo de Israel terminou de assentar acampamento em Gilgal, deus foi mais uma vez falar com Josué:
— Ô, seu bunda mole!
— Porra, Javé, pega leve.
— Pega leve o caralho, que eu sou é deus. Seguinte, tem uma parada aí pra gente fazer. A gente porra nenhuma, pra VOCÊ fazer, que eu não vou sujar minhas mãos. Pra começar, cê vai fazer umas facas de pedra.
— Facas de pedra? Pô, não fode! O neolítico ficou pra trás faz tempo, eu posso muito bem fazer facas de metal.
— Eu sei que você pode, Josué. Mas acontece que EU não quero. Facas de pedra dão mais trabalho e eu me divirto vendo vocês se lascando. Sem trocadilho.
— HUMPF. E pra que as tais facas?
— Então. Aquela geração que saiu do Egito há quarenta anos morreu no deserto; só você e o Calebe foram poupados por mim. Aliás, é bom que você nunca se esqueça disso…
— …
— O negócio é que morreram todos, e os que nasceram no deserto não foram circuncidados. Aí…
— Ah, não!
— Ah, sim! Você vai botar todo mundo em fila e circuncidar um por um.
— COMO É QUE É???
— Não grita comigo, puto.
— Er… Como é que é? Cê quer que eu corte a pele do pau de mais de 600 mil homens???
— Ah, cê pode escolher uns ajudantes.
— O problema não é esse, porra! E eu lá vou ficar pegando em rôla, Javé???
— Vai sim, oras. E sabe por quê? PORQUE EU TÔ MANDANDO, CARALHO!
Diante da força retórica de tal argumento, Josué não teve escolha: arrumou uns negos para ajudá-lo e começou esse servicinho do caralho — literalmente —, assim como Abraão havia feito quando da instituição da circuncisão. O povo ficou acampado até que todos os homens sarassem. Imaginem só: alguns amigos meus operaram fimose já na adolescência ou na vida adulta — não vou citar nomes, portanto o Tonon e o Loxinha podem ficar tranqüilos — e passaram alguns dias em casa de molho, com o júnior cheio de pontos. Não gosto nem de pensar como deve ter sido lá em Gilgal, sem anestesia antes nem sutura depois. Credo.
Bom, depois da Operação Corta-Pica, Javé voltou a falar com Josué:
— Muito bem, muito bem! Que maravilha ver esse monte de marmanjo falando fino e gemendo de dor. Parabéns, Josué. Belo trabalho. Hoje finalmente a vergonha de ter sido escravizado no Egito foi tirada de Israel.
E foi por causa dessa frase que aquele lugar passou a se chamar Gilgal, que em hebraico significa “tirar”. E ali na planície de Gilgal, pertinho de Jericó, os israelitas comemoraram a Páscoa na noite do dia catorze. No dia seguinte começaram a comer o que aquela terra produzia. Finalmente, depois de quarenta anos comendo maná, o povo voltou a comer coisas normais e saudáveis; e o maná parou de cair do céu.

Por aqueles dias, Josué estava caminhando pelas cercanias de Jericó. Olhava para as muralhas espessas, os guardas em suas guaritas, as seteiras, e pensava: “Puta que pariu, vai dar um trabalho do cão entrar aí”. Distraído com seus pensamentos, esbarrou num transeunte.
— Opa. Desculpa aí, meu camaradinha, estava pensando na morte da bezerra e… — Josué interrompeu-se ao notar que o homem, muito alto e forte, estava todo paramentado para a guerra, de armadura, capacete, escudo e espada na mão — Ei, peraí. Você é do nosso exército ou é de Jericó?
— Nenhum dos dois, songomongo: sou o comandante do exército de Javé.
— O comandante? Quer dizer que você é o…
— Eu mesmo.
Josué então, como bom puxa-saco, ajoelhou-se e encostou o rosto no chão em louvor ao homem. Este, nada impressionado com a bajulação do líder israelita, ordenou:
— Pára de viadagem. E vê se pelo menos tira as sandálias, porque o solo em que você pisa é santo.
— Ok, claro, sim, pois não, é pra já.
— VAI LOGO, PORRA!
— Opa, pronto, aí, já foi, descalço, olha só.
— Humpf.
Com esse muxoxo, o homem se retirou. E se vocês fossem mais espertinhos, já teriam sacado que se tratava do arcanjo Miguel. É possível que estivesse voltando da disputa com o diabo pelo corpo de Moisés, vejam só. É como se fosse um DVD: a cena do encontro de Josué com Miguel parece descontextualizada. Só que assistindo aos extras a gente vê em uma das cenas cortadas Miguel e o Canho disputando Moisés numa partida de truco, e tudo passa a fazer sentido.

Samba no Bixiga

Domingo nóis fumo num samba no Bixiga
Na Rua Major, na casa do Nicola
Á mezza notte o’clock saiu uma baita duma briga
Era só pizza que avoava junto com as brajola
Nóis era estranho no lugar
E não quisemo se meter
Não fumo lá pra brigar
Nóis fumo lá pra comer

Na hora H se enfiemo debaixo da mesa
Fiquemo ali de beleza, vendo o Nicola brigar
Dali a pouco escuitemo a patrulha chegar
E o sargento Oliveira falar:
“Num tem importância, vou chamar duas ambulância!”
Calma pessoar! A situação aqui tá muito cínica!
Os mais pior vai pras Clínica

(Adoniran Barbosa)

Ainda o Meninas Veneno

Postei um negócio lá no fórum do Meninas Veneno. Vejam lá, discutam, e não se esqueçam: hoje, às dez da noite.

Santa Rita de Cássia

Como eu disse, estou lendo Viver Para Contar, livro autobiográfico de Gabriel Garcia Márquez, por influência de dois luminares das letras nacionais (Polzonoff, me deve um chope por essa puxada de saco. Adailton Sem-Vergonha, de você eu nem cobro mais nada). Estou lendo o livro do jeito como o próprio Gabo descreve sua leitura de A Ilha do Tesouro: devorando “… letra por letra com a ansiedade de saber o que acontecia na linha seguinte e ao mesmo tempo com a ansiedade de não saber para não perder o encanto”. Pois bem: hoje, na hora do almoço (eu vou almoçar sozinho para poder ler sossegado, e leio enquanto como. Fodam-se as boas maneiras) li um trecho que me fez rir muito, e depois me fez chorar um pouquinho escondido por me lembrar MUITO as histórias de minha avó. Ele conta que uma de suas irmãs recebeu o nome de Rita devido à devoção da família por Santa Rita de Cássia, baseada principalmente na paciência da santa com um marido sangue ruim:

Minha mãe nos contava que esse marido da futura santa chegou certa noite em casa enlouquecido pelo álcool um minuto depois de uma galinha ter plantado sua cagadela na mesa da sala de jantar. Sem tempo para limpar a toalha imaculada, a esposa conseguiu tapar a caca com um prato para evitar que o marido a visse, e apressou-se em distraí-lo com a pergunta habitual:
— O que você quer comer?
O homem soltou um rugido:
— Merda.
A esposa então levantou o prato e disse com santa doçura:
— Está servida.
A história conta que o próprio marido se convenceu na hora da santidade da esposa, e converteu-se à fé de Cristo.

Ah, Dona Donata! Queria que a senhora estivesse aqui para eu te contar essa. Seria uma boa para contar para o bisneto que vem aí.

Palhaçada

Por causa de um bando de gente cujos navegadores engasgam com pontos de exclamação, a Beecha foi obrigada a mudar o endereço de seu blog. Normalmente eu diria foda-se, mas agora ela vai ser mamãe e merece algum respeito. Então anotem aí:

http://jornaleco2.blogspot.com

Uma dúvida no ar

A certa altura da gravação, Marina Person perguntou a Juliana, a atriz pornô, se algum ator já havia broxado com ela. Ela falou que sim, porque às vezes vai fazer uma cena com um cara que ela acabou de conhecer, e mesmo assim só trocaram cumprimentos. Sem conversar nem nada, o diretor grita “Ação!” e o cara tem que fazer lá o serviço.

Aí eu fiquei com uma dúvida: quando o ator pornô broxa em serviço, isso vem descontado e discriminado na folha de pagamento, como é feito com atrasos ou faltas em certas empresas?

Meninas Veneno – Bastidores

Cheguei ao prédio da MTV, no Sumaré, por volta das oito da noite. Me deixaram (junto com os outros convidados do programa) esperando por cerca de meia hora. Os outros começaram a conversar. Pareciam se conhecer. Como me é peculiar, não dirigi a palavra a ninguém: abri minha mais recente aquisição (Viver Para Contar, de Gabriel Garcia Márquez, que comprei influenciado por Paulo Polzonoff e Adaílton Persegonha). Só fechei o livro para cumprimentar a Clarah (que foi quem deu meu telefone pra produtora) quando ela passou pela recepção. Clarinha está magra e mais bonita que nunca. Vantagens da maternidade.

Depois de muito esperar, finalmente fomos chamados por Betina, a simpática produtora, para que a acompanhássemos até o estúdio. Lá finalmente pude conhecer melhor meus colegas de circo, e confirmei que todos se conheciam mesmo, sendo eu o único estranho (em vários sentidos) no estúdio. Uma das meninas, a Renata, era também amiga da convidada. Palhaçada.

Bom, lá estávamos nós: Camila, uma morena linda com um olhar inteligente daqueles de botar medo em homem besta, Rebeca, uma loirinha meio tímida, e a já referida Renata, Vaguinho Waguinho, um cara muito engraçado, Valdo Aldo, um bonitão, capa da G Magazine e surpreendentemente (para os meus preconceitos) inteligente e bem humorado, Dudu, amigo do Vaguinho que foi se mostrando progressivamente babaca no decorrer da gravação, e este que vos fala, totalmente deslocado no meio de tanta gente bonita e saudável. Faltava a convidada principal, Fernanda, a mulher que fez o mesmo cara broxar seis vezes seguidas (ou sete, ela entrou em contradição várias vezes). As seis não foram todas na mesma ocasião, infelizmente.

Quando a apresentadora Marina Person entrou no estúdio e começou a conversar conosco, faltava ainda uma das meninas e o início da gravação atrasou por causa dela. Mas nem deu pra sentir raiva quando ela chegou: uma morena gostosa a não mais poder, de roupa colada, bem puta. Juliana, uma delícia. Depois ficamos sabendo que era atriz pornô. Assim como eu, não conhecia ninguém. Alimentei por instantes a esperança de que esse elo em comum rendesse alguma coisa, esperança esta logo abandonada.

Começou então a gravação, com o depoimento da Fernanda falando sobre as vezes em que tentou fazer amorzinho (expressão dela, não minha, deus me livre!) e não pôde porque, como bem disse o Aldo depois, o negócio não marcava meio-dia nem a pau.

(Mais tarde, num dos intervalos, eu apelidei a garota de Motosserra, a Derrubadora de Paus. Os rapazes se escangalharam de rir, as meninas acharam de mau gosto, a Fernanda era muito songamonga e perdeu a piada, a Marina me proibiu de contar a piada no ar. Lamentável.)

Marina começou perguntando quem de nós já havia broxado. Apenas um admitiu. Quem? Oras, quem! Eu, é claro! O tal de Dudu sequer leva em consideração a hipótese de vir a broxar algum dia. Quase no final da gravação ele estava com o orgulho de macho tão ferido que, no intervalo antes do último bloco, comentou comigo:

— Tá, já se falou muito mal de homem aqui nessa porra. Agora vamos detonar essas putas, caralho.

Minha resposta foi inevitável:

— Mas que raiva de mulher, hein?

Além disso, o cara roubava minhas piadas dos intervalos para contá-las quando a gravação era retomada. Porra, roube minha mulher, minhas piadas não!

Bom, não vou contar o programa aqui. Assistam e vejam Marco Aurélio assumindo em rede nacional que é broxa, velho, feio e careca. Hoje na MTV às 22 horas, com reprise sábado à meia-noite.

Relembrando Moisés

O Carlos escreveu no JORNALECO! um excelente post falando sobre o misticismo em torno dos santos da Igreja Católica e sobre buzinas também. Não vou explicar nada, leiam lá que vale MUITO a pena. Minha beecha querida sempre mandando muito bem.
“E Moisés com isso?”, perguntarão vocês, provavelmente atônitos diante da disparidade entre o título deste meu post e o texto do Carlos. Pois bem: no post ele colocou uma figura de São Miguel Arcanjo. Quando a vi, bati a testa na mesa e senti ódio de mim mesmo por ter me esquecido do aspecto da morte de Moisés que desde a infância (sim, eu comecei a ler a Bíblia aos seis anos de idade) me impressiona muito. Uma história que faz parte da tradição judaica, e na Bíblia cristã é citada apenas no penúltimo livro do Novo Testamento, a epístola de Judas. O Judas em questão, claro, não é o Iscariotes. O autor identifica-se como “Judas, irmão de Tiago”, o que nos leva a crer que talvez se trate de um dos irmãos de Jesus. Sua epístola, muito breve, é plena de citações da Torá e de histórias folcóricas de Israel. Nos versículos de 8 a 10 do único capítulo do livro, ele diz a respeito dos homens incrédulos:

Também do mesmo modo esses homens têm visões que os fazem pecar contra seus próprios corpos. Desprezam a autoridade de Deus e insultam os seres angélicos. Nem mesmo o arcanjo Miguel fez isso. Na discussão que teve com o Diabo, para saber quem ia ficar com o corpo de Moisés, Miguel não se atreveu a condenar o Diabo com insultos, mas apenas disse: “Que o Senhor repreenda você!”. Mas esses homens xingam aquilo que não entendem.

(Tradução na Linguagem de Hoje, Sociedade Bíblica do Brasil)

Como vocês sabem (ou saberiam, se lessem os capítulos bíblicos em vez de perder tempo com as outras bobagens que escrevo), deus sepultou o corpo de Moisés em lugar incógnito. De acordo com a tradição, no entanto, antes desse sepultamento houve uma disputa entre Miguel e o diabo para decidir quem ficaria com o cadáver. Miguel o queria para que Javé fizesse as honras fúnebres e tal. Quanto ao diabo, não sei. Churrasquinho, provavelmente.
— Satanás, que porra cê quer com o corpo de Moisés?
— Humpf. Churrrrrrasco!
E nego ainda me pergunta por que a Bíblia me fascina tanto…

Não tem jeito?

Meu caro Thiago Fialho fez o seguinte comentário agora há pouco:

Marco Aurélio, tá na hora de adotar uma tática de guerrilha pra ganhar essa parada do iBest. Bom, como o kibeloco e o ueba estão participando, o negócio fica mais difícil, mas entre os top3 eu não tenho dúvidas de que dá pra chegar. Olhe os outros blogs que lá estão e verá que são menos populares que este.
Mas estas pessoas devem estar arrumando dados de outros indivíduos e votando neles mesmos.
E pra ganhar tem que ser assim, não tem jeito.

Engraçado. Não é a primeira pessoa que me diz isso depois que foram divulgados os resultados parciais, em que o JMC não aparece entre os cinco primeiros colocados. Não tem jeito, é? Então foda-se, oras. Outra coisa: os blogs que estão entre os cinco primeiros lá merecem mesmo. Oras.

Eu já disse isso a respeito de tirar carteira de motorista, e digo o mesmo sobre o iBest: entre conseguir o negócio sendo desonesto e não conseguir, fico com a segunda opção.

O que não os impede de votarem em mim, é claro…

As doze pedras comemorativas

(Josué 4)

Quando o povo terminou de atravessar o Jordão, e enquanto a água do rio ainda estava represada por sua força sobrenatural, deus foi falar com Josué:
— Ô, Josué. Foi boa essa, hein?
— Hum. Mais ou menos.
— COMO ASSIM, “MAIS OU MENOS”???
— Bah. Coisinha mais mixuruca fazer a gente atravessar um rio sem-vergonha feito o Jordão.
Mixuruca, Josué? MIXURUCA??? QUERO VER VOCÊ FAZER IGUAL! QUERO VER!
— Calma, Javé… Só um comentário.
— Pois guarde seus comentários pra você. E pára de frescura. Esse povo aí é resmungão mesmo e não se impressiona com nada. Atravessaram o Mar Vermelho a seco como se estivessem atravessando a Avenida Paulista. Povinho bunda… Mas essa travessia do Jordão aí já serviu pra eles verem que eu tô do seu lado.
— Será?
— Vai por mim, Josué. Vai dar tudo certo. Deixa de ser bunda mole, porra!
— …
— Seguinte: você vai construir um monumento para relembrar o milagre espantoso que foi a travessia do rio.
— Monumento, é? Posso chamar o Niemeyer?
— Mané Niemeyer! O cara ainda tá prestando vestibular pra arquitetura, ô! Além do mais, não temos tempo nem verba pra isso. Você vai falar para os doze líderes da tribo irem até ali onde os sacerdotes estão, no meio do rio. Cada um vai tirar uma pedra grande de lá e carregar até o acampamento, onde você construirá o monumento com as doze pedras.
— Tá bom então.
— Muito bem. Até mais.
Josué então repassou as ordens. Para mostrar serviço, ainda empilhou outras doze pedras no meio do Jordão, onde os sacerdotes esperavam pacientemente a ordem para marcharem, agüentando sobre os ombros uma arca de madeira-de-lei maciça contendo, entre outras coisas, as duas placas de pedra dos Dez Mandamentos. Tendo terminado seu gesto de puxa-saquismo explícito, Josué permitiu aos sacerdotes que concluíssem a travessia do rio. Assim que eles pisaram na margem ocidental, as águas do Jordão voltaram a correr normalmente.
Concluída — enfim! — a travessia, o povo começou sua marcha, finalmente dentro de Canaã, a Terra Prometida. Eram quarenta mil homens preparados para a guerra. O povo acampou em Gilgal, onde Josué ergueu o monumento com as doze pedras trazidas pelos líderes tribais.
A travessia aconteceu no dia dez do primeiro mês, quatro dias antes da Páscoa. Os reis amorreus e cananeus das terras a oeste do Jordão até o litoral do Mediterrâneo souberam da travessia milagrosa do rio, e ficaram com muito medo do avanço dos israelitas. Estes, por sua vez, estavam preparados para sua primeira grande conquista em Canaã, a tomada de Jericó. Mas antes precisavam cumprir um ritual um tanto constrangedor. No próximo capítulo eu conto.

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