Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em 2003

A divisão da terra começa

(Josué 13)

Pode não parecer quando se fala de tantas guerras e massacres, mas Josué já estava bem velho e ainda havia terras a conquistar. Por isso Javé resolveu adiantar as coisas:
— Josué, você já está velho e ainda há muito o que fazer. Eu ainda queria que vocês conquistassem a região dos filisteus e dos gesuritas no norte, a terra de Avim, no sul, Meara, Afeca, todo o Líbano, os sidônios… Olha, falta muita, muita coisa.
— Beleza, Javé, beleza! É só cê me falar qual é o plano que eu saio agora mesmo pra acabar com essa raça toda. Vai ser bom. Muito bom. Excelente. UHU!
— Caaaaaaaaalma, Josué… Já falei, você está velho, precisa descansar um pouco.
— Descansar? DESCANSAR??? Eu quero é sangue! SAAAAAAAAAAANGUEEEEEEEEEE!
Uma lágrima apareceu no canto do olho de Deus:
— Ah, meu garoto… Tenho muito orgulho de você, viu? Mas chega de guerra por enquanto. Esses poucos povos que sobraram serão expulsos com o tempo, conforme vocês avançarem; por enquanto o que vocês conquistaram dá e sobra pra acomodar o povo. E eu quero que você faça a divisão da terra antes de morrer.
— Humpf. Depois de morrer é que eu não vou…
— NÃO VEM DAR UMA DE MOISÉS PRA CIMA DE MIM NÃO, SEU MEQUETREFE!
— …
— Oras… Bom, pra começar você já pode anunciar às tribos de Rúben, Gade e Manassés do Leste onde eles vão ficar do outro lado do Jordão.
— Hum… E onde eles vão ficar?
— Ó caralho! O Moisés não te deu o mapa antes de morrer???
— Er… Não.
— Puta que pariu, despreparo… Tá aqui o mapa:


(Clique para ampliar)

— Obrigado, Javé.
— Humpf. Entendeu o mapa?
— Claro, ué.
— Então tá. Agora vamos à divisão das terras a oeste do Jordão…

Gosto irrepreensível

Acredito fervorosamente que se possa definir o caráter de um homem baseado em seu bom ou mau gosto. Tomemos como exemplo os filmes que vi recentemente: na quinta-feira assisti ao argentino O Filho da Noiva, na agradabilíssima companhia da Srta. Brisa. Na sexta à noite assisti Amélie Poulain aqui em casa. No sábado eu e Brisa voltamos ao cinema, dessa vez para assistirmos As Invasões Bárbaras. Ontem à noite revi O Filho da Noiva em DVD, na companhia de Daniela, deus, minha irmã Relssona e Denis Tonon.
E hoje assisti American Pie 3 – O Casamento.

Os viajantes do tempo

Que eu saiba, o Risadinha (meu amigo tocador de berimbau) quase nunca sonha e quando sonha é com bobagens, como da vez em que sonhou que era um jornal saindo da prensa. Triste. Então ele deve me agradecer por tê-lo levado em meu sonho da última noite, que passo a contar agora.
[bocejo na platéia]
Aconteceu que — sei lá por que meios — eu e Risadinha viajamos para o passado. Chegamos e logo percebemos que estávamos em São Paulo ainda, mas passavam bondes, carroças e aqueles carrinhos antigos na rua. Nossas roupas do século XXI — bermudas cheias de bolsos, camisetas, tênis sem cadarço — chamavam a atenção de quem passava, deixando-nos meio desconfortáveis.
Foi aí que ela veio em nossa direção. Vestia uma roupa meio que de melindrosa, o que me levou a supor que tínhamos viajado para a década de 20. Ela nos cumprimentou, perguntou nossos nomes e disse o seu: Glória. Muito bonita, sorridente e simpática. A princípio pensou que fôssemos estrangeiros, mas descartou a idéia ao ver que falávamos português. Então o Risadinha achou melhor falar logo a verdade:
— Nós viemos do ano 2003. Viajamos no tempo até aqui.
— É mesmo??? Que legal!
Glória se mostrava entusiasmada, mas não descrente: aceitou logo de cara que estava conversando com viajantes do tempo. Seguro com sua confiança, perguntei:
— Em que época estamos? Anos 20, não?
— Não, de jeito nenhum! 1940.
Ela deve ter notado que eu olhava suas roupas, porque emendou:
— Ah, e eu me visto assim porque a moda de agora não me agrada. Roupas muito sérias, muito fechadas, credo! Mas venham, vou mostrar a cidade a vocês. Essa aqui é a Avenida Paulista.
Estava irreconhecível a avenida, com trilhos passando pelo meio e casarões e chácaras dos dois lados. Dois homens juntaram-se a nós no passeio: um era tio de Glória, um senhor risonho de barba branca bem aparada, terno e chapéu marrons, bengala. O outro, amigo dele, era um preto de terno de linho branco, falante e engraçado (embora eu não me lembre de nada do que ele dizia; assim são os sonhos). Andávamos pela Paulista e conversávamos, um passeio muito agradável. Num intervalo da conversa, o Risadinha perguntou:
— E aí, Glória? Quer saber alguma coisa do futuro?
Ela pensou um pouco e fez a pergunta mais inesperada:
— Vai faltar milkshake?
— COMO???
— É que eu adoro milkshake
— Hum — comecei — Teve uma época em que faltou leite. Foi depois do Plano Cruzado, com o Sarney — à menção do nome ex (ou futuro, sei lá)-presidente, os três caíram na risada, sabe Deus por quê. — O povo se empolgou, mas não durou muito. E depois de um tempo começou a faltar leite, carne, tudo.
— E quando vai ser isso?
— 1986, 87, por aí.
— Ah, falta tempo…
Nisso já tínhamos chegado à Consolação, então eu pedi para que nos levassem ao Viaduto do Chá. Fomos para lá. Do outro lado do Vale, o viaduto Santa Ifigênia parecia flutuar no meio da iluminação fraca.
— Olha, Risadinha, que lindo o Santa Ifigênia!
E ele, com a eloqüência de sempre:
— É.
Queríamos ir embora, mas Glória não deixou: primeiro tínhamos que conhecer um amigo dela, um artista. Então fomos para a casa do tal artista. Entramos e eu fiquei um tempo sem reconhecer onde estava. A casa ficava de frente para um parque. Percebi enfim: o parque era o Ibirapuera. Eu tinha demorado para reconhecer porque se parecia mais com o Passeio Público de Curitiba (ah, Curitiba…). Quanto ao tal artista, era um jovem que alugara aquela casa em frente ao parque e era vítima de chacota por isso. O próprio tio da Glória comentou com o amigo:
— Uma casa desse tamanhinho e ele pagando 600 mil réis de aluguel. Em qualquer outro lugar da cidade não sairia por mais de 150.
(Qual era a moeda em 1940???)
Eu queria saber quem era o tal do artista, mas não queria perguntar. Então fiquei zanzando pela casa até encontrar uma gravura de estilo inconfundível na parede. Fui verificar a assinatura só para confirmar, e era ele mesmo: Osvaldo Goeldi. Não estranhem: essas edições das obras de Dostoiévski da Editora 34 são ilustradas com gravuras de Goeldi. Além do mais, o nome da rua onde moro e sempre morei é Osvaldo Goeldi, então eu conheço o cara desde pequeno. Só que hoje eu descobri que ele nasceu em 1895, portanto tinha 45 anos em 1940, e não a idade de Glória. Detalhes, detalhes, vamos em frente!
Saímos da casa do Osvaldo Goeldi e resolvemos voltar para 2003. Só que Glória encasquetou que queria ver um filme, então entrou num cinema sem falar conosco. Entramos atrás e ela estava conversando com o bilheteiro. Os ingressos haviam se esgotado e ela contava para ele (um negão barbudo) que estava com dois amigos que tinham vindo do século XXI e tal. Ele, é claro, não acreditou, então eu quis provar:
— Ô, meu amigo, é só me perguntar qualquer coisa do futuro aí.
— Grande coisa. Como vou saber se é verdade ou não?
— Bom. Sabe a guerra na Europa?
— Sei, sei.
— Então. Tá no começo ainda. Vai até 1945. Os Estados Unidos vão entrar na guerra.
— Até parece…
— Verdade, e o Brasil também. O Eixo vai se dar bem até 1945. Aí o Hitler vai querer invadir a União Soviética, e será derrotado pelo inverno.
— Mané inverno — me interrompeu o Risadinha — Isso aí foi com o Napoleão.
— E com o Hitler também, seu burro.
— Calaboca… A guerra acaba na Europa com a invasão da Normandia.
— Pfff… Bom, tem Hiroshima e Nagazaki.
— É mesmo.
— Hein? — o bilheteiro, entendendo nada.
— Ah, então. Os EUA vão jogar duas bombas atômicas sobre essas cidades. Aí sim a guerra acaba.
— Bah! Me deixa trabalhar, vai. Cambada de doidos…
Saímos de lá muito putos, enquanto Glória e seus dois acompanhantes riam. Mas era hora de ir embora, então nos despedimos.
— Hum… Dois mil e três, né?
— É.
— Acho que não vou estar viva até lá.
— Ué. Quando você nasceu?
— 1920.
— Pode ficar viva até lá sim.
— Bem que vocês podiam me procurar então, né?
— É verdade.
— Então anotem aí: meu nome completo é Glória…
E foi aí que eu e o Risadinha voltamos a 2003. Merda.

Igor

Igor é meu primo de seis anos de idade, que todo mundo pensa que é meu filho. Ontem fui à sua formatura da Pré-Escola e finalmente conheci Suélen, a garota pela qual ele é apaixonado. Era bonito de se ver: onde ela estivesse ele estava por perto, mas sempre fingindo não notá-la, brincando com os amigos, falando alto e olhando para ela de esguelha de vez em quando. Minha tia contou que durante a semana, no caminho para a escola, ele resolveu apelar:
— Mãe, preciso de uma ajuda sua.
— Ajuda? Pode falar, filho.
— Hoje quando você vier me buscar, eu e o Igor Roberto vamos sair correndo na frente. Você vai ficar atrás com a Suélen e a mãe da Suélen. Aí você pergunta se ela gosta de mim?
— Pergunto, Igor, claro…
— Mas tem uma coisa… Se ela falar que não, não me conta, tá?
— Tá bom.
No dia seguinte veio a pergunta:
— E aí, mãe? Perguntou pra ela?
— Perguntei sim.
— E aí?
— Ela falou que gosta de você…
— DE VERDADE???
— É.
— Hum… Sua cara tá muito engraçada, é mentira sua.
— Pra que eu ia mentir, Igor?
— Ué. Se ela gosta de mim, por que vive agarrada no Caio?
Conheci o tal Caio na festinha ontem. O moleque nem dá bola pra Suélen. Ela ia atrás dele, pedia pra tirar foto com ela, pra brincar com ela, e ele com aquela cara de “Ai, que saco…”. Quanto ao Igor, era apaixonado por outra menina, vizinha nossa, mas desapaixonou-se quando ela apareceu com um corte de cabelo esquisito. A irmãzinha mais nova dela diz que gosta do Igor, mas ele reage horrorizado: “Eu, hein! Com aquele bafo-de-onça???”.
Sei que a Suélen acabou se cansando da indiferença do Caio, e perto do fim da festa foi falar com o Igor para tirarem uma foto juntos. Igor saiu correndo. Pelo jeito o comportamento masculino não se altera com o tempo…

Le Fabuleux destin d’Amélie Poulain

Talvez pelo fato de ser extremamente feio, sou muito sensível às coisas bonitas. Então nem me perguntem se eu gostei do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (sou uma besta, vi pela primeira vez hoje). Não se trata de gostar ou não gostar, no sentido de apreciação estética — embora o filme seja impecável nesse aspecto também — mas de se deixar arrebatar pela beleza. Estou embasbacado. E apaixonado por Amélie, óbvio.

(Não, eu não manjo nada de francês. O “fouettez-moi” do título é coisa da Bárbara)

Os reis vencidos por Moisés e Josué

(Josué 12)

Bom, eu avisei: a partir de agora o livro de Josué fica uma chateação sem fim. Este capítulo, por exemplo, não passa de uma enumeração dos reis derrotados por Moisés a leste do Jordão e por Josué a oeste. A lista começa com Seom, rei dos amorreus da região de Hesbom, primeiro a se bater com os israelitas. Levou a pior contra o exército comandado por Moisés, assim como Ogue, rei de Basã, que — ficamos sabendo agora — foi o último dos refains, outra raça de gigantes. Depois de Ogue… Hum… É, isso encerra a lista dos reis derrotados por Moisés. Produtividade zero a desse velho gago, não foi à toa que Javé tratou de fazê-lo peidar no fubá no alto do Monte Nebo para substituí-lo pelo sanguinário Josué.
E Josué, sim, trabalhava do jeito que Javé gosta, quadrinho de “Funcionário do Mês” sempre. Conquistou toda a região a leste do Jordão, derrotando os reis de Jericó, Ai, Jerusalém, Hebrom, Jarmute, Laquis, Eglom, Gezer, Debir, Geder, Horma, Arade, Libna, Adulã, Maquedá, Betel, Tapua, Héfer, Afeca, Lasarom, Madom, Hazor, Sinrom-Merom (que nome legal!), Acsafe, Taanaque, Megido, Quedes, Jocneão (perto do monte Carmelo), Dor (ui! — cidade litorânea), Goim (que ficava no que mais tarde viria a ser a Galiléia) e Tirza — Ufa!. Trinta e três reis. É mole?
Pois então, mas por que se fala em reis derrotados, em vez de cidades conquistadas? Simples: nem todos os reis que perderam batalhas para os israelitas perderam suas cidades também. O exemplo mais importante é o de Jerusalém que, pelo que eu me lembre, só passou definitivamente às mãos de Israel no reinado de Davi. Mas isso ainda está longe, tenham calma. Por enquanto vamos ver como foi repartida entre as tribos a terra há muito prometida.

Canção de Natal

Ouvindo o Belle & Sebastian tocando músicas de Natal me ocorreu a idéia: por que não juntar meia dúzia de bloguistas para gravar uma ou duas canções natalinas? Hein? Alguém topa?

Aliás…

Se eu quiser continuar vivendo, preciso emagrecer (drama!). Então pergunto a vocês que são entendidos (hehehe): entro numas de esteira e bicicleta ou natação é uma idéia melhor?

Ch-ch-ch-CHANGES

Hoje eu fui à minha primeira consulta no ortodontista. À noite vou fazer matrícula na academia.
Mulheres, preparem-se.
Pra quê???
Ué. Oras. Er… SEI LÁ!

Tchan, tchan!

Eu e a Brisa (Ah, se a juventude que essa brisa canta / ficasse aqui comigo mais um pouco / lalalalalalalalalalaaaaaaaaalaláaaaaaa. Ok, brincadeira. Muito bom te conhecer, moça) fomos ao cinema hoje assistir ao maravilhoso O Filho da Noiva. E não sei onde é que eu estava com a cabeçorra que ainda não o tinha visto: excelente, excelente!
Uma cena em particular me chamou a atenção: Juan Carlos, amigo de infância de Rafael Belvedere (o protagonista), conta uma história. Fala de como ficou depois que perdeu a mulher e a filha num acidente de automóvel:
— Comecei a beber, beber. Faltava ao emprego. Os amigos se afastaram de mim. Não os culpo: eu vivi um tango de dois anos de duração. Até que um dia acordei no meio de uma poça de vômito. Nojento! Levantei e fui tomar banho. Na banheira, olhei para o espelho que fica do lado, para fazer a barba durante o banho. Fiquei olhando meu rosto por meia hora, pelo menos. Olhando, olhando… E nesse momento… Tchan, tchan!
— …
— …
— E…?
— E nada, oras! Tchan, tchan!, acabou o tango, voltei a viver.
Que beleza! A vida é assim mesmo, não é? Vivemos tangos de um dia, uma semana, três meses, um ano, dois, uma década. E quando passa é assim mesmo: Tchan, tchan! É claro que essa ou aquela seqüência de acordes, ou uma tendência a voltar ao tom inicial meio que antecipam o final. Mas acaba mesmo é assim, de repente. Num momento você está lá dançando com uma flor há muito morta entre os dentes; no momento seguinte é o silêncio abençoado. Tempo para dançar um samba, um baião, um foxtrote, um twist, ou mesmo sentar-se um pouco e ficar assistindo aos outros dançarem.
Eu mesmo já dancei muitos tangos na vida, uns curtos, outros que pareciam versões canhestras de Faroeste Caboclo. Muitas vezes achei que aquele bandonéon ficaria tocando para sempre, mas o tchan, tchan! sempre veio. Hoje estou dançando alguns tangos, mas não reclamo: vão todos acabar com exceção de um. Este vai fazer assim:

… de mi corazóoooooooooon!

TCHAN, TCHAN!

[emenda com a introdução de Asleep on a Sunbeam]

When the half light makes for a clearer view
Sleep a little more if you want to
But restlessness has siezed me now, it’s true
I could watch the dreams flicker in your eyes
Lying here asleep on a sunbeam
I wonder if you realise you fascinate me so.

Então eu terei parado com esse negócio de dançar sozinho, e terei talvez um par de olhos azuis a menos de um palmo dos meus.

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