A Menina e a Voz
— Licença, pai?
— Claro, filha. Só um minuto, estou resolvendo uma coisinha aqui.
O homem — cara de ator hollywoodiano, meia idade, testa franzida de preocupação — fala ao telefone com um fornecedor. Esbraveja em voz baixa, se é que isso é possível. O rosto fica ligeiramente vermelho, como se por um instante refletisse a cor dos cabelos da filha. “Vocês não são profissionais”, ele grita-sussurra. Está nervoso, mas quando desliga o telefone consegue guardar esse sentimento para depois, e olha para a filha com ternura.
— Sim, filha…
— Pai, eu tenho uma notícia muito séria pra te dar.
— Não vá me dizer que está grávida!
— Humpf.
— Hehehe.
— Eu vou me casar.
— CASAR??? COM QUEM? Peraí. Não vá me dizer que é aquele sujeitinho de São Paulo…
— Claro que não, pai.
— Ufa…
— Queria que você o conhecesse.
— Claro, filha, claro. Podemos ir jantar juntos, só nós três, aí eu conheço o rapaz e vejo se aprovo ou não.
— Hum… Eu acho que seria melhor vocês se conhecerem agora.
— Agora, agora? Ok, então. Ele está aí fora?
— Não, pai. É que… Er… Olha, eu não sei como explicar. Ele…
— TIRA ESSE AZEDUME DO MEU PEITO!!!
O pai pula da cadeira.
— Que foi isso???
— Então pai, esse é meu noivo.
— ONDE?
— Aqui. É que ele… Bom. Ele é uma voz.
— Uma… voz?
— É. Não qualquer voz, claro. A voz do Marcelo Camelo.
— Marcelo quem???
— Marcelo Camelo, pai. Vocalista da banda Los Hermanos.
— Ah, aqueles barbudos que cantam Ana Júlia…
— Ô ANA JÚUUUUUUUULIAAAAAAAAAAAAAAAAA…
O pai derruba o café na mesa, inutilizando alguns papéis importantes, mas nem se dá conta.
— Outro susto desse e eu tenho um infarto. Muito bem, que brincadeira é essa?
— Não é brincadeira, pai. Gimme some fucking credit, tá bom?
— Mas… Mas… Como é que você foi arrumar uma VOZ para namorar??? Isso é ridículo!
— Respeite meus sentimentos!
— Eu respeito, filha. Eu aceitaria qualquer coisa, até o sujeitinho de São Paulo. Com algum esforço, mas aceitaria. Agora… Uma voz?
— Que que tem isso? Tanta mulher aí se casando com o dinheiro do marido e ninguém fala nada. Eu vou me casar com a voz dele. E só quero a voz, então por que trazer todos os acessórios junto? Imagina se eu ia querer aquela barba roçando em mim o tempo todo…
— Nada que uma navalha não resolva. Mas uma voz, meu Deus! E você, rapaz? Quais as suas intenções com a minha filha?
— Eu que já não quero mais / ser um vencedor / levo a vida devagar / pra não faltar amoooooooooor.
— Er… Como?
— Alegria é olhar pro seu sorriso e ter você sempre ao meu lado / Alegria é andar junto a você e poder ser o seu namorado.
— MEU namorado???
— MEU namorado, pai.
— Ah… Mas, filha…
— O quê?
— É uma VOZ, pelo amor de Deus! Como é que… Como é que vocês vão FAZER?
— Fazer o quê?
— Você sabe, oras.
— Ah. Não precisamos. Só as coisas que ele me diz…
— Oh minha menina és de tudo que mais belo existe / Ver tua beleza é esquecer tudo que há de triste.
— Viu só? VIU SÓ??? Não se arrepia, pai?
— Arrepio, arrepio… Mas mesmo assim. UMA VOZ! Rapaz, você não pode se casar com minha filha!
— Quem se atreve a me dizer?
— EU me atrevo a te dizer. EU! O PAI DELA! E PARE COM ESSA CANTORIA!
— Olha só / que cara estranho q…
— MANDEI PARAR!
— PAI! Não fala assim com meu noivo!
— Eu gosto é do estrago…
— Que noivo? QUE NOIVO??? É só uma vibração de ar, mais nada! Nesse sentido não é muito diferente de um peido!
— Pai, por favor!
— Desculpe, desculpe. MAS QUE INFERNO! A gente cria uma filha com todo o carinho, e para quê? Para isso!
— De onde vem o jeito tão sem defeito / que esse rapaz consegue fingir?
— MAS QUE INFERNO! O que você quer???
— Paz / eu quero paz…
— Não adianta, amor. Ele não compreende…
— Esse é só o começo do fim da nossa vida / deixa chegar o sonho, prepara uma avenida / que a gente vai passar.
— Ai, ai…
— E ainda fica suspirando por essa aberração!
— Não fala assim dele, pai! Podia ser pior.
— PIOR COMO???
— Podia ser a voz do Alexandre Pires…
(Para a Fer, por supuesto)





