Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em December de 2003

A Menina e a Voz

— Licença, pai?
— Claro, filha. Só um minuto, estou resolvendo uma coisinha aqui.
O homem — cara de ator hollywoodiano, meia idade, testa franzida de preocupação — fala ao telefone com um fornecedor. Esbraveja em voz baixa, se é que isso é possível. O rosto fica ligeiramente vermelho, como se por um instante refletisse a cor dos cabelos da filha. “Vocês não são profissionais”, ele grita-sussurra. Está nervoso, mas quando desliga o telefone consegue guardar esse sentimento para depois, e olha para a filha com ternura.
— Sim, filha…
— Pai, eu tenho uma notícia muito séria pra te dar.
— Não vá me dizer que está grávida!
— Humpf.
— Hehehe.
— Eu vou me casar.
— CASAR??? COM QUEM? Peraí. Não vá me dizer que é aquele sujeitinho de São Paulo…
— Claro que não, pai.
— Ufa…
— Queria que você o conhecesse.
— Claro, filha, claro. Podemos ir jantar juntos, só nós três, aí eu conheço o rapaz e vejo se aprovo ou não.
— Hum… Eu acho que seria melhor vocês se conhecerem agora.
— Agora, agora? Ok, então. Ele está aí fora?
— Não, pai. É que… Er… Olha, eu não sei como explicar. Ele…
TIRA ESSE AZEDUME DO MEU PEITO!!!
O pai pula da cadeira.
— Que foi isso???
— Então pai, esse é meu noivo.
— ONDE?
— Aqui. É que ele… Bom. Ele é uma voz.
— Uma… voz?
— É. Não qualquer voz, claro. A voz do Marcelo Camelo.
— Marcelo quem???
— Marcelo Camelo, pai. Vocalista da banda Los Hermanos.
— Ah, aqueles barbudos que cantam Ana Júlia
Ô ANA JÚUUUUUUUULIAAAAAAAAAAAAAAAAA…
O pai derruba o café na mesa, inutilizando alguns papéis importantes, mas nem se dá conta.
— Outro susto desse e eu tenho um infarto. Muito bem, que brincadeira é essa?
— Não é brincadeira, pai. Gimme some fucking credit, tá bom?
— Mas… Mas… Como é que você foi arrumar uma VOZ para namorar??? Isso é ridículo!
— Respeite meus sentimentos!
— Eu respeito, filha. Eu aceitaria qualquer coisa, até o sujeitinho de São Paulo. Com algum esforço, mas aceitaria. Agora… Uma voz?
— Que que tem isso? Tanta mulher aí se casando com o dinheiro do marido e ninguém fala nada. Eu vou me casar com a voz dele. E só quero a voz, então por que trazer todos os acessórios junto? Imagina se eu ia querer aquela barba roçando em mim o tempo todo…
— Nada que uma navalha não resolva. Mas uma voz, meu Deus! E você, rapaz? Quais as suas intenções com a minha filha?
Eu que já não quero mais / ser um vencedor / levo a vida devagar / pra não faltar amoooooooooor.
— Er… Como?
Alegria é olhar pro seu sorriso e ter você sempre ao meu lado / Alegria é andar junto a você e poder ser o seu namorado.
— MEU namorado???
— MEU namorado, pai.
— Ah… Mas, filha…
— O quê?
— É uma VOZ, pelo amor de Deus! Como é que… Como é que vocês vão FAZER?
— Fazer o quê?
— Você sabe, oras.
— Ah. Não precisamos. Só as coisas que ele me diz…
Oh minha menina és de tudo que mais belo existe / Ver tua beleza é esquecer tudo que há de triste.
— Viu só? VIU SÓ??? Não se arrepia, pai?
— Arrepio, arrepio… Mas mesmo assim. UMA VOZ! Rapaz, você não pode se casar com minha filha!
Quem se atreve a me dizer?
— EU me atrevo a te dizer. EU! O PAI DELA! E PARE COM ESSA CANTORIA!
Olha só / que cara estranho q…
— MANDEI PARAR!
— PAI! Não fala assim com meu noivo!
Eu gosto é do estrago…
— Que noivo? QUE NOIVO??? É só uma vibração de ar, mais nada! Nesse sentido não é muito diferente de um peido!
— Pai, por favor!
— Desculpe, desculpe. MAS QUE INFERNO! A gente cria uma filha com todo o carinho, e para quê? Para isso!
De onde vem o jeito tão sem defeito / que esse rapaz consegue fingir?
— MAS QUE INFERNO! O que você quer???
Paz / eu quero paz…
— Não adianta, amor. Ele não compreende…
Esse é só o começo do fim da nossa vida / deixa chegar o sonho, prepara uma avenida / que a gente vai passar.
— Ai, ai…
— E ainda fica suspirando por essa aberração!
— Não fala assim dele, pai! Podia ser pior.
— PIOR COMO???
— Podia ser a voz do Alexandre Pires…

(Para a Fer, por supuesto)

Triste notícia

Minhas cuecas novas encolheram. Todas elas.
Oremos.

George Harrison

Vendo meus DVDs do Monty Python, o Daniel (ele e o Rafael me visitaram ontem, para minha imensa alegria) notou algo que eu nunca tinha notado:
— George Harrison, Menezes?
— Que que tem ele?
— Produtor executivo do “A Vida de Brian”?
— Não pode ser!
— Pois olhe aqui.
Ele estava certo: o guitarrista dos Beatles havia empregado um quinhão de sua fortuna na produção de um filme dos Pythons. Pesquisando a respeito na Internet, descobri algo mais e capturei uma cena do DVD:

Sim, sim, é ele mesmo em primeiro plano: George Harrison, numa rápida ponta ao lado de John Cleese.
E pensar que a Fer — que se diz fã dos Beatles e tal — viu esse filme aqui em casa e nem notou nada. Lastimável…

Flying Circus

Meu eterno sonho de consumo:

flyingcircus.jpg

Sai por 170 dólares. É bastante dinheiro, eu sei. Mas são CATORZE DVDS do MONTY PYTHON!!! Estou falando de coisa sagrada! Então nem reclamo dos 170 dólares. O que me dói o coração é pagar, além disso, mais de 200 reais de imposto. Então queria saber: há alguma forma de economizar nesse negócio? Alguma forma honesta, por favor? Se souberem, me digam. Serei eternamente grato.

Utilidade Pública

Muitos de vocês aí que têm blogs hospedados no Blogger brasileiro devem ter recebido um e-mail deles falando sobre mudanças na utilização do serviço. Estranho é que nem a Fer nem o Rafael, dois heavyusers, receberam, enquanto eu, que só tenho por lá os já fechados abaixo a heresia e Sonhos Sonhos São, recebi a mensagem ontem à noite. Bom, negócio seguinte: a mudança só afeta (por enquanto) quem quiser se cadastrar a partir do dia 16 de dezembro, porque vai ter que assinar a Globo.com. Para quem já é usuário, nada muda. No entanto, é bom vocês já irem pensando numa forma de salvarem seus blogs. No site nacional do Movable Type há um tutorial de como fazer a exportação dos posts do Blogger. Mesmo quem não pensa em um dia pagar pra ter um blog, é uma forma de pelo menos ter seus posts em algum lugar. Só pra garantir.

(Acho que chamar Rafael Capanema de heavyuser do Blogger foi uma forma de ironia involuntária. O moleque não posta nada desde o dia 3.)

Mas vejam só…

As votações para a primeira fase do iBest encerraram-se ontem e eu nem sabia. Que merda de candidato eu sou. Mereço mesmo ganhar porra nenhuma. Empenho zero. Lamentável.

BUÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Ok.

Tita Blister

Para aqueles que ainda não tiveram o privilégio de conhecê-la, apresento Tita Blister:

Essa foto foi tirada no dia do aniversário da Fer, lá em Curitiba. A Tita, com sua mente distorcida, resolveu fazer um par de algemas de papelão A PARTIR DE UM FLYER e colocá-las em nós. Nada de mais, mas para mim ficou parecendo algum tipo de ritual, de simpatia, sei lá. Sei que ela me surpreendeu com essa idéia estapafúrdia e ainda assim muito significativa.
Tita Blister é engraçada, surpreendente, generosa pra caralho. E agora é Profetisa PROFETITA da casa também. Seja bem-vinda, Dona Tita.

(Correções exigidas por essa chatinha aqui na base da porrada)

Prece

Hoje eu sou um rapaz muito feliz. Voltei do almoço e a seguinte mensagem aguardava em minha caixa de entrada:

Peço suas preces para a reconciliação com meu marido está muito perturbado. Ele pensa que voltou a adolescencia e saiu de casa.
Ficaria muito feliz se voltasse para o Natal.

Atenciosamente.

Maria.

Oras, mas que oportunidade de ouro para fazer o bem a uma pessoa necessitada! Imbuído do mais puro altruísmo, rapidamente elaborei minha resposta:

Maria, muito obrigado por seu contato. É motivo de regozijo para todos nós ver cada dia mais pessoas procurando conforto aqui conosco e, principalmente, com o Senhor ao qual servimos. A senhora pode ficar tranqüila: seu esposo estará de volta ainda antes do Natal. Deixe-o em paz por enquanto. Ele está com o espírito em conflito, precisa resolver várias questões internas. Quando isso ocorrer, ele estará pronto para se relacionar com as pessoas, o que inclui, obviamente, a senhora.
Seu pedido de prece foi incluído em nosso rol semanal. A prece será elevada a nosso Senhor Satanás hoje mesmo (sexta-feira), logo depois do Ritual das Velas e antes do Sacrifício e da Orgia subseqüente.

Atenciosamente,

Sacerdote M.

Puxa! Como é bom ajudar as pessoas!

Josué fala ao povo

(Josué 23)

— Opa!
— Ô, rapaz, como é que vai?
— Tudo bem, e com você?
— Tudo ótimo! Peguei umas terras boas ali em Judá. Ó a escritura aqui.
— Hum… Puxa, terreno grande, hein?
— Pois é! Tem uns jebuseus, heteus, seiláoqueus pra expulsar de lá ainda, mas isso é fácil.
— Verdade… Hum… Ah, e então, vai lá ver o discurso do Josué hoje?
— Discurso? Tô nem sabendo…
— Ah, o Josué vai falar hoje. Acho que ele já tá velho, quer se despedir do povo, essas coisas.
— Sei, sei… E quando é?
— Que horas são agora?
— Quatro e meia.
— Putz! É daqui a meia hora.
— Onde?
— Logo ali em Siquém.
— Em Siquém? Ah, então a gente chega a tempo. Vamos indo?
— Vamos.
— …
— …
— Calor, né?
— Pois é.
— …
— Podia chover, né?
— Podia. Refrescava um pouco.
— Não é mesmo?
— É.
— …
— …
— Pois é…
— Só…
— …
— …
— Hum… Ei, conhece aquela dos três anaquins anões?
— Todo mundo conhece.
— Bah.
— …
— Olha lá quanta gente!
— Rapaz! Josué tá com moral. Será que demora pra começar a papagaiada?
— Acho que não, ele costuma ser pontual. Olha lá! Já tá no palco.
— É ele? Puxa, é ele. Como tá velho…
— Pois é…
— É…
— Shhhh, ele vai começar…
Pooooooooovo de Israel…
— Ele sempre começa com esse “Poooooooooooovo de Israel”…
— SHHHH!
— Opa, foi mal.
Como vocês podem ver, eu já estou velho. Pra vocês terem uma idéia, no meu tempo os Dez Mandamentos eram sete! [bateria: PARAMPAM-TCHHH!, risos forçados da platéia] Durante todo esse tempo que eu estive à frente do povo vocês viram as coisas espantosas que Javé fez. Já faz alguns anos que eu fiz a divisão da terra, e nesse tempo todo temos vivido em relativa paz com os habitantes das terras vizinhas. Mas não se enganem: eles são inimigos, e no tempo certo vamos derrotá-los. Para isso, é necessário que vocês permaneçam fiéis a Javé.
— Como se a gente tivesse alternativa…
— Shhhhhh!
Continuem sempre com ele, e vocês continuarão se dando bem. Javé expulsou povos grandes e fortes para longe, até agora ninguém resistiu à força de Israel. Um só israelita pode fazer fugirem mil inimigos!
— Mentiraiada da porra…
— Cala a boca!
Fiquem ligados a Deus, como ficaram até agora. Porque se vocês se deixarem influenciar pelos povos aqui da região, ah!, cês tão na roça. Eles vão se tornar má influência para vocês, serão para vocês como armadilhas, precipícios, chicotes nas costas ou espinhos nos olhos…
— Que bonito isso…
— É…
Fiquem espertos: se vocês se misturarem com esses povos, vocês desaparecerão. E ninguém quer isso, quer?
— NÃO!
— Foi uma pergunta retórica, imbecil…
— Ah. Eu sempre me confundo com perguntas retóricas imbecis.
— Oras, faça-me o favor de calar essa boca!
Bom, vocês sabem que minha morte está próxima. Mas eu quero que vocês se lembrem sempre que tudo o que Deus prometeu ele cumpriu. Cabe a vocês cumprirem sua parte no trato, ou suportar no lombo a ira de Javé. Obrigado.
— Ué! Era só isso???
— Estranho, né? Tanta agitação pra chegar aqui e falar dez minutos…
— Bom, vamos esperar. Ninguém tá indo embora, acho que vai ter mais.
— É… Podia ter uns shows enquanto isso, né?
— É, uma mulherada rebolando de shortinho…
— Chope de graça, barraquinhas de comida, jogos…
— Pula-pula, piscina de bolinh… Olha lá, não é o Josué de novo?
— Parece que sim. Acho que voltou pro bis.
— Shhhh, vamos escutar…

Na Veia

Acho que vocês sabem que eu venho trabalhar de fretado todo dia. Moro pra lá da Penha, trabalho no Brooklin, é longe pra caralho. A Fer fez o trajeto comigo uma vez e ficou espantada com a distância. Bobagem dela: só uma hora e meia da minha casa até aqui. Dá pra dormir bastante.
Pois muito bem: até a última terça-feira o motorista do fretado deixava o rádio ligado na Alpha, que toca aquelas musiquinhas fáceis de ignorar, boas para dar sono logo de cara. Não sei o que houve com ele, só sei que na quarta-feira entrei no ônibus e estava tocando uma música do Chico César, aquela que tem o inspiradíssimo refrão “ÔOOO / A maradzaia zoiê / Dzaia, dzaia / A i-i-i-inga do rãaaae”. O dial tinha pulado pra freqüência da Nova FM. Desde então não consigo mais dormir no ônibus, com aquela seqüência de artistas cujas músicas para mim são piores do que unhas arranhando um quadro-negro: Simone, Ivan Lins, Kleyton & Kledyr, conjuntos vocais, filhos genéricos da Elis Regina e sua patota da Trama. Lamentável.
Mas não é que hoje estava melhorzinho? Entrei no ônibus ao som de Quase Sem Querer, da Legião Urbana. Deixei de ser fã da Legião assim que abandonei a adolescência — isto é, há uns três anos — mas tem valor sentimental. Logo depois, Iolanda. Tá, eu sei que tem a Simone nessa, mas é só concentrar os ouvidos na bela letra e no Chico Buarque cantando.
Enfim, uma seqüência que se manteve por umas quatro músicas, até descambar para a ignorância: música nova dos Engenheiros do Havaii, os gaúchos que Dani adora. Nessa música nova, Na Veia (ouçam aqui), Humberto Gessinger conseguiiu superar-se. O refrão, “Vem / Ver com os próprios olhos / Vem / Ver a vida como ela é”, fará para sempre a alegria do Homem Chavão. Coisa impressionante.
Nunca mais eu vou cochilar no ônibus. Merda.

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