Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

A despedida de Josué

(Josué 24)

Pooooooooovo de Israel…
— Aí, não falei? Voltou pro bis.
— É verdade. Mas bem que ele podia pular essa parte do “Pooooooooovo de Israel”.
— Pode crer. Mas vamos ouvir o cara.
Eu tenho aqui uma carta de Javé pra vocês. Ele… Aham… Ele diz: “Há muitos séculos os antepassados de vocês moravam lá do outro lado do rio Eufrates e adoravam outros deuses. Dentre eles havia um cara chamado Tera, que tinha dois filhos: Abraão e Naor. Eu ia com a cara de Abraão, então fiz um trato com ele: se ele largasse todos aqueles deuses para servir e obedecer só a mim, eu daria a ele uma grande descendência. Abraão saiu lá da Mesopotâmia e veio morar aqui em Canaã, obedecendo a uma ordem minha. Então eu dei a ele um filho, Isaque. Um dia eu pedi a ele que oferecesse Isaque em sacrifício. Era só uma pegadinha, mas ele levou a sério e ficou puto comigo. Tudo bem, tudo bem. O que importa é que Isaque teve dois filhos, Esaú e Jacó. Mudei o nome de Esaú para Edom e dei pra ele essa região montanhosa de Seir, que até hoje é terra dos edomitas. Jacó, no entanto, desceu ao Egito junto com seus filhos…”
— Puta que pariu, não acredito que ele vai contar essa história toda.
— É. Vamos embora? Parece que vai rolar uma partida de pôquer na tenda do Aminadabe.
— É mesmo? Puxa, o pôquer do Aminadabe é sempre um bom programa… Mas vamos ouvir o discurso do Josué. Pode ser o último, né?
— É verdade.
“… Depois enviei Moisés e Arão e acabei com tudo lá no Egito…”
— Opa, já deu uma adiantada na história.
— É.
“… e atravessaram o Mar Vermelho. Depois que estavam do outro lado, eu fiz com que o mar se fechasse novamente sobre o exército do Faraó, matando afogados milhares de soldados. Então eu os guiei na direção da terras dos amorreus. Eles atacaram, mas eu dei a vitória a vocês. Então foi a vez de Balaque, rei de Moabe, fazer guerra contra vocês. Ele mandou chamar Balaão e…”
— Bambalalão???
— Balaão, porra, Balaão! Cê nunca ouviu essa história?
— Recordo-me vagamente. Aquele da jumenta falante?
— Ele mesmo.
— Ah…
“… mas eu fiz com que Balaão os abençoasse, contrariando as intenções de Balaque. Vocês derrotaram os moabitas e depois atravessaram o Jordão. Os homens de Jericó quiseram lutar contra vocês, mas…”
— Porra, vamos lá pra tenda do Aminadabe. Deve estar muito mais legal.
— Ué, pra quê? Até ele deve estar aí no meio ouvindo o discurso.
— Putz, é mesmo. Merda…
“… os heveus e os jebuseus. Eu dei a vocês uma terra prontinha pra morar. Hoje vocês vivem em cidades que não construíram e comem o fruto de parreiras e oliveiras que não plantaram.”. Moleza, não? De fato, Javé fez muito por nós.
— Opa, já terminou a leitura da carta, agora deve ser rápido.
— Prestenção, porra.
Portanto agora é obrigação de vocês temer e servir a Javé…
— Porra, de novo esse papo?
— Ah, acho que é pra gente não esque… Eita, que gritaria foi essa?
— Sei lá! O povo todo gritou “SIM!”.
— Prestenção lá no Josué….
Têm certeza? Eu vou repetir a pergunta: vocês prometem servir e adorar apenas a Javéééééééé?
— SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!
E trocar Javé por outros deuseeeeeeeeeees?
— NAAAAAAAAAAAAAAAO!
Então vão querer trocar Javé por uma bicicletaaaaaaaaaaaaaa?
— …
Pô, só uma piadinha… Baterista, por favor?
[tch]
Humpf. Então façam-me o favor de jogarem fora as imagens de outros deuses que vocês têm aí. Nananinanão, não adianta negar! Eu sei que vocês têm imagens escondidas por aí.
— …
Mequetrefes! Os mandamentos que vocês devem seguir estão todos neste livro aqui, ó. Além disso, olhem para esta pedra! Estão vendo esta pedra? Ela ouviu tudo que foi dito hoje, e servirá de testemunha da promessa que vocês fizeram de adorarem apenas a Javé.
— Er… Tá caducando, coitado.
— Pois é.
Agora vão pras suas casas. Ou então para a tenda do Aminadabe, que vai rolar um pôquer por lá hoje.
— Merda, aquilo vai lotar.
— Vamos correndo enquanto o povo aplaude, ué.
— Bora!

Josué terminou de falar e ficou observando o povo que se dispersava, cada grupo indo na direção das terras que tinham acabado de receber. Sentiu-se feliz pelo final bem sucedido de uma jornada que começara havia mais de 40 anos, com Moisés e Arão passando por malucos na corte do Faraó. Pensando nisso, começou a enxergar tudo difuso. Achou que começava a chorar, mas não era isso: era algo mais sério. Compreendeu de chofre o que acontecia, e sorriu. Morreu ali mesmo, aos cento e dez anos de idade, e foi sepultado em sua propriedade em Timnate-Sera, nas montanhas de Efraim. Eleazar, o sumo-sacerdote, morreu pouco tempo depois, e foi sepultado em Gibeá, cidade pertencente a seu filho Finéias, também nas montanhas de Efraim.
Os restos mortais de José, carregados pelo povo durante quarenta anos, finalmente puderam ser sepultados em Siquém, na propriedade que Jacó comprara dos filhos de Hamor séculos antes. O sepultamento de José simboliza o assentamento definitivo do povo de Israel na terra há muito prometida. Agora sim, os israelitas teriam paz e sossego.
Teriam?
Veremos.

Custa nada perguntar…

Oh love of mine
would you condescend to help me
’cause I’m stupid and blind?

(Belle & Sebastian – The state I am in)

Teste

Ignorem este post. Estou só vendo se o w.blogar funciona com o Movable Type. Se funcionar, deus estará muito ocupado nos próximos dias.

A Menina e a Voz

— Licença, pai?
— Claro, filha. Só um minuto, estou resolvendo uma coisinha aqui.
O homem — cara de ator hollywoodiano, meia idade, testa franzida de preocupação — fala ao telefone com um fornecedor. Esbraveja em voz baixa, se é que isso é possível. O rosto fica ligeiramente vermelho, como se por um instante refletisse a cor dos cabelos da filha. “Vocês não são profissionais”, ele grita-sussurra. Está nervoso, mas quando desliga o telefone consegue guardar esse sentimento para depois, e olha para a filha com ternura.
— Sim, filha…
— Pai, eu tenho uma notícia muito séria pra te dar.
— Não vá me dizer que está grávida!
— Humpf.
— Hehehe.
— Eu vou me casar.
— CASAR??? COM QUEM? Peraí. Não vá me dizer que é aquele sujeitinho de São Paulo…
— Claro que não, pai.
— Ufa…
— Queria que você o conhecesse.
— Claro, filha, claro. Podemos ir jantar juntos, só nós três, aí eu conheço o rapaz e vejo se aprovo ou não.
— Hum… Eu acho que seria melhor vocês se conhecerem agora.
— Agora, agora? Ok, então. Ele está aí fora?
— Não, pai. É que… Er… Olha, eu não sei como explicar. Ele…
TIRA ESSE AZEDUME DO MEU PEITO!!!
O pai pula da cadeira.
— Que foi isso???
— Então pai, esse é meu noivo.
— ONDE?
— Aqui. É que ele… Bom. Ele é uma voz.
— Uma… voz?
— É. Não qualquer voz, claro. A voz do Marcelo Camelo.
— Marcelo quem???
— Marcelo Camelo, pai. Vocalista da banda Los Hermanos.
— Ah, aqueles barbudos que cantam Ana Júlia
Ô ANA JÚUUUUUUUULIAAAAAAAAAAAAAAAAA…
O pai derruba o café na mesa, inutilizando alguns papéis importantes, mas nem se dá conta.
— Outro susto desse e eu tenho um infarto. Muito bem, que brincadeira é essa?
— Não é brincadeira, pai. Gimme some fucking credit, tá bom?
— Mas… Mas… Como é que você foi arrumar uma VOZ para namorar??? Isso é ridículo!
— Respeite meus sentimentos!
— Eu respeito, filha. Eu aceitaria qualquer coisa, até o sujeitinho de São Paulo. Com algum esforço, mas aceitaria. Agora… Uma voz?
— Que que tem isso? Tanta mulher aí se casando com o dinheiro do marido e ninguém fala nada. Eu vou me casar com a voz dele. E só quero a voz, então por que trazer todos os acessórios junto? Imagina se eu ia querer aquela barba roçando em mim o tempo todo…
— Nada que uma navalha não resolva. Mas uma voz, meu Deus! E você, rapaz? Quais as suas intenções com a minha filha?
Eu que já não quero mais / ser um vencedor / levo a vida devagar / pra não faltar amoooooooooor.
— Er… Como?
Alegria é olhar pro seu sorriso e ter você sempre ao meu lado / Alegria é andar junto a você e poder ser o seu namorado.
— MEU namorado???
— MEU namorado, pai.
— Ah… Mas, filha…
— O quê?
— É uma VOZ, pelo amor de Deus! Como é que… Como é que vocês vão FAZER?
— Fazer o quê?
— Você sabe, oras.
— Ah. Não precisamos. Só as coisas que ele me diz…
Oh minha menina és de tudo que mais belo existe / Ver tua beleza é esquecer tudo que há de triste.
— Viu só? VIU SÓ??? Não se arrepia, pai?
— Arrepio, arrepio… Mas mesmo assim. UMA VOZ! Rapaz, você não pode se casar com minha filha!
Quem se atreve a me dizer?
— EU me atrevo a te dizer. EU! O PAI DELA! E PARE COM ESSA CANTORIA!
Olha só / que cara estranho q…
— MANDEI PARAR!
— PAI! Não fala assim com meu noivo!
Eu gosto é do estrago…
— Que noivo? QUE NOIVO??? É só uma vibração de ar, mais nada! Nesse sentido não é muito diferente de um peido!
— Pai, por favor!
— Desculpe, desculpe. MAS QUE INFERNO! A gente cria uma filha com todo o carinho, e para quê? Para isso!
De onde vem o jeito tão sem defeito / que esse rapaz consegue fingir?
— MAS QUE INFERNO! O que você quer???
Paz / eu quero paz…
— Não adianta, amor. Ele não compreende…
Esse é só o começo do fim da nossa vida / deixa chegar o sonho, prepara uma avenida / que a gente vai passar.
— Ai, ai…
— E ainda fica suspirando por essa aberração!
— Não fala assim dele, pai! Podia ser pior.
— PIOR COMO???
— Podia ser a voz do Alexandre Pires…

(Para a Fer, por supuesto)

Triste notícia

Minhas cuecas novas encolheram. Todas elas.
Oremos.