Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Felicidade recém-nascida

A felicidade recém-nascida, assim como qualquer bichinho no mesmo estado, precisa de muito cuidado e atenção. Porque, vejam, ela nasce com ossinhos frágeis e é toda destrambelhada, anda tropeçando, um inferno. Então convém guardá-la bem, evitar a exposição, que é pra ela durar bastante. Muita gente é feliz por pouco tempo porque não consegue seguir essa regra básica; é feliz porém descuidado de sua felicidadezinha. Aí alguém pisa nela, ou a deixa cair no chão, ou então ela mesma — danada! — pisa no skate no topo de escada e aí babau. Eu mesmo já cometi esse erro algumas vezes. Agora não: ela fica aqui comigo até estar forte o suficiente para poder sair na rua. E não adianta vocês insistirem.

A Coisa Não-Deus

Aliás, essa técnica de escolher livros pelo primeiro parágrafo é tão boa quanto qualquer outra. Quando li, por exemplo,

O Paraíso não é um estado de espírito. É um lugar. Se você der dois passos pra fora, está fora; se der dois passos pra dentro, está dentro. Uma vez lá dentro, você pode pisar à vontade na grama, dar cambalhotas, pode até se machucar dando cambalhotas, porque o chão não é de ectoplasma, não é de nenhuma espécie mística de fog, não é de gelatina amorfa; é matéria, pura e sólida e dura matéria. Mesmo os Anjos são matéria. Se você perguntar a eles se acreditam em algo que não seja matéria, eles vão rir da sua cara. Logo, eles não só são matéria, como são materialistas; e não só são materialistas, como são ateus.

eu soube imediatamente que A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva, merecia ser lido. Não sabia ainda se era bom ou ruim, mas o comecinho dava vontade de ler o resto, e é isso que se espera de um primeiro parágrafo. Acabou que li o livro todo em um dia e ele pulou imediatamente pra minha lista de livros queridos. É original, leve, despretensioso, inteligente, engraçado; tudo o que o primeiro parágrafo já deixava entrever.
Quando terminei de ler A Coisa Não-Deus, pensei em classificar Alexandre Soares Silva como um Lovecraft do bem. Bobagem: um Lovecraft do bem já existe, e se chama Monteiro Lobato. O livro parece algo escrito pelo Monteiro Lobato com pinceladas de C.S. Lewis e Conan Doyle (influências reconhecidas do Alexandre).
Então o que vocês estão esperando? Eu é que não vou falar mais sobre o livro, estragaria tudo. Leiam! Comprem:

Criticando com os colhões

Fim de tarde de sexta-feira. Daniela Abade me telefona. Está agitada. Claro, ela sempre está agitada. Mas dessa vez é outra a agitação:
— Marco, eu estou indignada e quero dividir minha indignação com você.
— Espero que você mantenha essa filosofia quando estiver rica… — não, eu não disse isso, na verdade só pensei nisso agora, merda. O que eu disse mesmo foi: — Hum?
— O Marcelo Mirisola escreveu um artigo descendo o pau no Budapeste.
— Marcelo quem???
— Mirisola.
— Ah…
Lembrei-me do sujeito. Havia lido uma crítica do Polzonoff ao livro dele e pensado “Não é possível, o Paulo pegou pesado com o cara, sacanagem”. No mesmo dia estava na Siciliano da Barão de Itapetininga e vi um livro dele na prateleira. Alguma coisa sobre um filho morto, sei lá. Li um parágrafo e senti imediatamente a vontade de comprar todos os exemplares de todos os livros do Marcelo Mirisola que a Siciliano tivesse em estoque. Para queimar tudo na Praça da República, é claro. O cara é ruim, só isso. Sabe aquilo que Paula Foschia chama muito apropriadamente de vergonha alheia? Aquele constrangimento de se colocar no lugar de alguém que está numa situação muito embaraçosa? Pois então, foi uma das coisas que senti ao ler a prosa (!!!) do Mirisola. Mas o que eu mais senti mesmo foi raiva: raiva de alguém publicar aquilo, de outro alguém vender, de outro comprar, ler e gostar, de outro fazer uma crítica favorável (sempre um crítico que escreve com o cu, para combinar com a escrita culhonística de Mirisola).
Queria falar tudo isso para aplacar a ira assassina de minha amiga Daniela, mas achei melhor apenas chamar sua atenção para a diferença entre Marcelo Mirisola e Chico Buarque, uma diferença que se nota seja qual for o parâmetro de comparação escolhido: qualidade literária, importância histórica, caráter, beleza (o Mirisola é muito feio!). Marcelo Mirisola. Chico Buarque.


marcelo mirisola

FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA

É isso. Não dá pra levar a sério o tal artigo, que tem por título um trocadilho que parece ter sido feito por um piá de doze anos©, e do qual o autor usa um terço para falar de si mesmo, talvez em busca das credenciais que não tem. E ainda acha que “benfazeja” é substantivo! Leiam, leiam. Nota-se que o autor se joga no chão, chora e esperneia: queria ser o Chico Buarque mas — desgraça! — é só o Marcelo Mirisola. Assim é a vida: uns nascem para ser olhos ardósia, outros nunca passam de remela.

A divisão da terra começa

(Josué 13)

Pode não parecer quando se fala de tantas guerras e massacres, mas Josué já estava bem velho e ainda havia terras a conquistar. Por isso Javé resolveu adiantar as coisas:
— Josué, você já está velho e ainda há muito o que fazer. Eu ainda queria que vocês conquistassem a região dos filisteus e dos gesuritas no norte, a terra de Avim, no sul, Meara, Afeca, todo o Líbano, os sidônios… Olha, falta muita, muita coisa.
— Beleza, Javé, beleza! É só cê me falar qual é o plano que eu saio agora mesmo pra acabar com essa raça toda. Vai ser bom. Muito bom. Excelente. UHU!
— Caaaaaaaaalma, Josué… Já falei, você está velho, precisa descansar um pouco.
— Descansar? DESCANSAR??? Eu quero é sangue! SAAAAAAAAAAANGUEEEEEEEEEE!
Uma lágrima apareceu no canto do olho de Deus:
— Ah, meu garoto… Tenho muito orgulho de você, viu? Mas chega de guerra por enquanto. Esses poucos povos que sobraram serão expulsos com o tempo, conforme vocês avançarem; por enquanto o que vocês conquistaram dá e sobra pra acomodar o povo. E eu quero que você faça a divisão da terra antes de morrer.
— Humpf. Depois de morrer é que eu não vou…
— NÃO VEM DAR UMA DE MOISÉS PRA CIMA DE MIM NÃO, SEU MEQUETREFE!
— …
— Oras… Bom, pra começar você já pode anunciar às tribos de Rúben, Gade e Manassés do Leste onde eles vão ficar do outro lado do Jordão.
— Hum… E onde eles vão ficar?
— Ó caralho! O Moisés não te deu o mapa antes de morrer???
— Er… Não.
— Puta que pariu, despreparo… Tá aqui o mapa:


(Clique para ampliar)

— Obrigado, Javé.
— Humpf. Entendeu o mapa?
— Claro, ué.
— Então tá. Agora vamos à divisão das terras a oeste do Jordão…