Resistência 6

Ela entrou quando eu estava no meio de uma frase. Entre pessoas agradáveis e recém-conhecidas, falava minhas baboseiras de sempre. E então ela entrou. Linda, linda. Pensei que eu fosse interromper minha frase pela metade, olhando embasbacado para ela e deixando todos atônitos com meu estranho comportamento.

Mas aí minha consciência — que tem a voz do Maguila, sério! — me acordou pra vida:

— Continua o que cê tava falando, senão eu vô ti dá mutcha pór-rada!

E com razão: interromper o que estava dizendo seria repetir um erro já por demais cometido, e embarcar mais uma vez para a mesma viagem ruim. O dèja-vu era muito forte para ser ignorado. Então continuei. Dei uma vacilada na voz, mas ninguém deve ter percebido.

Elas não vão mais me pegar tão fácil assim. Tô esperto.

Pelezinho Voador 25

E o Troféu Salvou-Meu-Dia de hoje vai para o moskito, por ter me apresentado o blog Pelezinho Voador (nada a ver com o nosso Pelezinho, já conhecido de todos). Todo o blog é baseado em uma só imagem:

Os autores usam essa foto para as montagens mais estapafúrdias (e muito bem feitas). Uma de minhas preferidas:

E nem o logo do Blogger escapa

Vai pros “Profetas” agora mesmo.

Estrutura 5

Basta eu ter um de meus ataques de total intransigência/intolerância (são muitíssimo comuns), para alguém vir com o velho argumento: “Ah, mas pra você é fácil! Olha a família que você tem! Olha a estrutura!”. A essas pessoas eu tenho vontade de responder com o histórico de três mulheres admiráveis, com vários problemas familiares dos mais intrincados, e que no entanto dão provas quase que diárias de força de caráter. E, vejam só, me apaixonei pelas três. Isso talvez explique muita coisa, mas estou com preguiça de pensar agora.

(Há também o exemplo maior dessa verdade, que é Dona Ana, a senhora minha mãe. Mas quero evitar análises freudianas cansativas e não solicitadas.)

Recadinho 5

Aê, Gravata. Queria falar nada não, mas andam ofendendo sua família por aí. Eu não deixava

Numa sala de reboco 4

Todo tempo quanto houver
Pra mim é pouco
Pra dançar com meu benzinho
Numa sala de reboco

Enquanto o fole
Tá fungando, tá gemendo
Vou dançando e vou dizendo
Meu sofrer pra ela só
E ninguém nota
Que eu tô lhe conversando
Nosso amor vai aumentando
E pra que coisa mais melhor?

Só fico triste quando o dia amanhece
Ai, meu Deus se eu pudesse
Acabar a separação
Pra nós viver
Igualado a sanguessuga
E nosso amor pede mais fuga
Do que essa que nos dão.

(Luiz Gonzaga / José Marcolino)

Já dizia Raul Seixas, comparando Luiz Gonzaga com Elvis Presley: “É a mesma coisa! É a mesma voz, a mesma malícia!”. E pra que coisa mais melhor?

Dicazinha 6

REM cantando One, sucesso do U2. Todo mundo conhece essa gravação, eu sei. Mas vai que alguém tá por aí fazendo nada e nem conhecia? No juízo final Deus (uia!) vai me perguntar o que eu fiz de bom, e eu terei pelo menos esta boa ação para contar antes de ser despachado para o inferno pela cordinha da descarga divina.

Guava 6

Considerando meu penúltimo post, fui surpreendido por uma falha matemática: eu li o Falecomdeus inteiro duas vezes, portanto — devido à minha obsessão pela simetria — devia haver algum blog ainda não explorado até o osso. Procurei, procurei e… VERGONHA! EU AINDA NÃO HAVIA LIDO O PURAGOIABA INTEIRO!!!!
Perdão, perdão! Estou agora mesmo reparando esse erro estúpido. E aproveitando: parabéns ao Ruy Goiaba pelos dois anos de blog.

Conclusão 6

Com a minha coleção de CDs atual, se me enfiassem numa biblioteca grande o suficiente e só com livros bons, podiam até trancar e engolir a chave: eu não sentiria a menor falta das pessoas. Não, não: seria uma bênção me ver livre do convívio enfadonho das pessoas, a mesma meia dúzia de personagens repetindo sempre as mesmas histórias sem graça.

(É claro que tal conclusão não se aplica a certa garota de olhos azuis. Ela é a variável que bagunça todas as minhas equaçõezinhas perfeitas.)

Padre Levedo 5

Estou para colocar o Confessionário do Padre Levedo ali nos profetas. Eu sei que demorou demais, mas tenho meus motivos: todos os blogs ali na coluna da direita — TODOS! — foram lidos por mim de cabo a rabo. Comecei a ler os arquivos do Padre apenas hoje, então vai demorar um pouco.
Sim, eu sou doente.

Maravilhas 27

Acabo de ler que a Voyager 1, sonda espacial lançada há 25 anos, está agora mesmo cruzando a fronteira do Sistema Solar. Aqui, ó. Lendo a matéria, senti uma empolgação infantil: a humanidade cruza mais uma fronteira. É claro que hoje o Sistema Solar é pouca coisa: com os equipamentos que temos atualmente, nosso conhecimento vai muito além dele. Mas, notem, atingimos fisicamente essa fronteira. Há um artefato nosso…

— Nosso porra nenhuma! É mais um instrumento imperialista que visa a dominação do…

[POW! SOC! CRASH!]

Arram… Como eu dizia, há um artefato nosso além de Plutão. Longe, muito longe! 12,3 bilhões de quilômetros!

E aí sou tomado por uma tristeza. Porque sei — eu e Fer vivemos lamentando isso em nossas longas conversas — que a reação de grande parte das pessoas frente a esse fato maravilhoso será:

— E daí? Em que isso muda minha vida? Como é que a Voyager vai me ajudar a pagar o aluguel?

E tenho pena dessas pessoas. Pena mesmo, o dó mais sincero. Como é que alguém consegue viver assim, sem o mínimo maravilhamento diante da vida, da natureza e das conquistas da ciência? Como é que alguém passa seus dias sem nunca se questionar sobre a existência, sobre o funcionamento das coisas, sobre Deus? Acham tudo isso sem importância porque, oras, questões assim não botam comida na mesa. Ah, mas que porra de mentalidade tacanha! Nem só de pão vive o homem, será que é tão difícil perceber isso?

Nem é necessário que você viva se perguntando sobre questões elevadíssimas. Eu mesmo às vezes passo horas ou dias pensando em coisas que deixariam essas pessoas aterrorizadas frente à minha falta do que fazer (qualquer linha de raciocínio que não tenha um objetivo claro e prático é falta do que fazer para essas pessoas. Podem reparar). Uma questão que anda me intrigando há dias: como é que uma criança posta frente-a-frente com um Yorkshire Terrier e um Boxer saberá imediatamente que são ambos cachorros, mesmo sendo bichos tão diferentes um do outro, e se deparada com um gato e uma jaguatirica, que são bem parecidos, dirá prontamente que o primeiro é um gato e o segundo não? (Aliás, pesquisando para ilustrar as raças de cães aqui, cheguei a outra pergunta: por que as palavras cinofilia e zoofilia têm sentidos tão drasticamente diferentes, se o que muda é só o prefixo?)

E qual a importância de questões assim? Oras, quem é que sabe? Não acredito em nenhuma pergunta que não possa ser formulada por uma criança; só as questões infantis são profundas de verdade. Se você despreza isso, sinto muito: você é um autista. Vá se tratar. Você nunca produzirá arte e nunca será capaz de amar de verdade. Imagine só olhar para a mulher que você ama e não pensar algo do tipo “Como é que ela consegue com um simples gesto estabanado me encher de ternura desse jeito?”. Ah, não. Muito sem graça.

Maravilhem-se, meus caros. Perguntem-se coisas como “Quantas cores existem? Todas elas têm nome?” (Fer), “Por que é que o banheiro fica com eco depois da faxina?” (Biboca), “De que cor é o Ziraldo?” (Polzonoff), “Por que os fabricantes de camisinhas as fazem tão grandes? Ninguém tem um pau daquele tamanho, os caras gastam milhões em borracha que nem vai ser usada!” (moskito, mas ele é suspeito), “Por quê, em propagandas de margarina, todos os pais têm que chamar o filho de ‘filhão’?” (Alexandre), “Como é que a calculadora faz conta?” (Gravata), “Pra que serve esse botãozinho vermelho?” (deus, e foi assim que ele criou tudo). Perder a capacidade de fazer perguntas assim é suicídio.