Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em November de 2003

Maria Rita

Muito bem, todo mundo já falou até demais da filha da Elis Regina; minha vez. A cantora recém-surgida do meio de um turbilhão de marketing raramente visto despertou todo tipo de reação: há quem a ame incondicionalmente, há quem tenha raiva dela até pela superexposição (da qual é mais vítima do que beneficiária), há quem, como eu, seja indiferente a ela.

Compreensível. O que eu não entendo é essa gente que acha que o fato de Maria Rita ter a voz idêntica à da mãe seja um fator a ser criticado. Oras, a voz do meu irmão é igualzinha à do meu pai, nem por isso a família o critica. Genética é um troço muito forte. Além do mais, melhor uma cantora com a voz da Elis Regina do que várias que cantam como a Leila Pinheiro ou a Simone.

Então por que eu permaneço indiferente aos encantos de Maria Rita? Eis a heresia: nunca fui muito fã da Elis. Gosto dela, é claro, grande cantora. Mas não me fala à alma, então sou muito mais a Maria Bethânia, por exemplo. Além disso, o tal marketing me incomoda um pouco. Fico preocupado com essa moça tão exposta o tempo todo, penso nas conseqüências que isso pode ter. E são muitas: desde um ostracismo precoce — e lamentável, tratando-se de um indiscutível talento — até repetir o fim trágico da mãe. Quem vende a alma precisa entregar a mercadoria mais cedo ou mais tarde.

Seja como for, para mim a maior cantora brasileira ainda é o Ney Matogrosso.

Lançamento amanhã HOJE

E aí, vai perder?
(Haddock Lobo, 141. Mapa aqui, fica pertinho da Paulista, dá pra ir de metrô)

Eu estarei lá, é claro, e espero que vocês também. Venham, senhoras e senhores, não percam a oportunidade de ver e tocar Paulo Polzonoff, o basilisco de Curitiba.

TODO MUNDO LÁ!

Rondó do Capitão

Bão Balalão
Senhor capitão
Tirai este peso
Do meu coração
Não é de tristeza
Não é de aflição
É só de esperança
Senhor capitão
A leve esperança
Aérea esperança…
Aérea, pois não!
Peso mais pesado
Não existe não
Ai, livrai-me dele
Senhor capitão.

(Manuel Bandeira)

Malvados

Sinto-me honrado. André Dahmer leu o meu post “Adeus?” (sobre o assassinato do casal e o tratamento dado ao caso pela imprensa), e a leitura o inspirou a fazer uma tirinha fodaça dos Malvados:

Matou a pau, Dahmer.

Plagiando moskito

Agonia! Agonia!

encontro4

Hoje é sexta-feira! Dia de repensar a vida e tentar achar uma solução pra porra toda!

Chega de paçoquinha

O post abaixo encerra aqui mais um ciclo de textos a respeito daquilo que o sábio Ruy Goiaba chama de “o sentimento que é nome de paçoquinha”.

Como conseqüência imediata, não teremos mais posts do JMC no Copy & Paste. Ratapulgo, eu já disse, é um romântico incorrigível.

Como outra conseqüência, passo agora a aceitar currículos de leitoras interessadas. Com foto e carta de referências.

Fim de leitura

Sabe aquela sensação de ver um livro muito bom chegando ao final? Aquela tristezinha de saber que em breve vai ter que se despedir dos personagens que você tem acompanhado com tanta atenção, da cabana à beira do lago, do barco, do beco sujo? Então. É assim que eu me sinto, agora que percebo que o sentimento que alimentei por você todo esse tempo começa a evanescer-se. Foi uma excelente leitura — uma espécie de Magnolia dos sentimentos — mas estou nas últimas páginas. Tento reduzir o ritmo, ler uma página hoje, tomar um café, contar os azulejos, olhar para o pé, cortar as unhas, ficar jogando minha bolinha de borracha na parede, ler outra página amanhã, ir ao banco, experimentar um chapéu, cantar no karaokê… Mas eu sei muito bem que esta leitura está terminando. Muito breve fecharei o livro, soltarei um suspiro, olharei para o vazio por um tempo pensando no que acabo de ler, e então botarei o livro de volta na estante.

Seria diferente se você tivesse vindo para ler comigo. Então leríamos até o final com alegria, faríamos comentários engraçadinhos ou melancólicos, como é de nossa natureza. Ao final, começaríamos a adicionar ao livro novas frases, novos parágrafos, páginas, capítulos. Tenho aqui em algum lugar um calhamaço que surgiu assim, escrito por mim e por outra garota. E é muito engraçado, bem escrito, denso. Eu só não sei onde está porque minha biblioteca é uma bagunça. Seria bom escrever um novo com você, mas esse tipo de pensamento não é muito saudável. O futuro do pretérito a Deus pertenceria, você sabe.

Então guardo o livro. Ele ficará lá na estante, emitindo seu brilho de uma cor muito linda — a sua cor predileta, aquela — e será difícil não olhar para ele por algum tempo. Talvez um dia você entre aqui na minha biblioteca do seu jeito leve e tímido, e com a voz vacilante me peça o livro emprestado. Se acontecer, será a melhor releitura de minha vida. Se não acontecer, paciência: há muitos livros nessas estantes de madeira escura que vão até o teto. E eu sou mais voraz que os cupins.

É HOJE!

Candide

Está no Rio? E vai perder essa a troco de quê? Vai lá, garanto que vai ser legal. E fico aqui roendo os cotovelos de inveja.

Meus livros

Quando aprendi a ler, aos cinco anos de idade, dois livros me fascinaram logo de cara: um tinha capa preta com o título, “Bíblia Sagrada”, em letras douradas. Na primeira página, uma dedicatória:


Marco Aurélio,

Leia e será abençoado.

Lindauro

Levei a sério a dedicatória do meu pai e comecei a ler. Gostava da leitura, me empolgava com as histórias, achava algumas cenas hilariantes e não entendia como é que tanta gente dizia que era um livro complicado. De jeito nenhum! Tinha um monte de palavras novas, é verdade, mas para isso eu tinha o meu outro livro. Um livro que me chamou a atenção logo que eu consegui ler seu título na lombada enorme: Dicionário Aurélio. Eu não sabia quem era o tal de Dicionário, mas logo simpatizei com ele por também chamar-se Aurélio. Meu pai me explicou para que servia e como funcionava, e eu quase endoidei: então era só abrir aquele livrão e pronto, eu saberia o significado de qualquer palavra? Magnífico!, como diria o Compadre Washington.
Eu lia a Bíblia com gosto, e quando me deparava com monstrengos como aleivosia, opróbrio ou concupiscência, corria para o livro que tinha meu nome e descobria o sentido de todas elas. Era um mundo novo de personagens maravilhosos, histórias fantásticas e palavras belíssimas.

E vejam só no que deu…

Adeus?

Passando em frente a uma banca hoje, reparei que todos os jornais falavam numa certa Liana e num tal Felipe. Eu — que não leio jornais nem vejo TV e tenho orgulho de minha alienação — não sabia do que se tratava, então tratei de me informar. Ao que parece é a notícia da vez: um casal foi acampar e acabou assassinado. Bom, acho que todos já estão cansados de saber da história. Eu queria mesmo era comentar a capa do Jornal da Tarde de hoje:

Eu pergunto: como é que posso dar adeus a pessoas que nem conhecia? Eu sei que o caso é triste, e tento imaginar a dor e a revolta que as famílias e os amigos de ambos devem estar sentindo agora. É triste, sim. Mas não me afeta. A morte do rato em Green Mile, do Stephen King, me entristeceu mais do que esse caso. Por que eu seria hipócrita então?
Sou cruel? Não! Cruel é o JT, que usa a dor das famílias afetadas para vender jornal. Cruéis são as pessoas que compram o jornal loucas para acompanharem Passo a passo o roteiro da tragédia. Minha indiferença nesse caso é mais solidária às famílias que sofrem do que ficar lamentando a morte de Liana e Felipe, os quais jamais conheci. Lamentando, mas querendo saber detalhes, é claro. Qual dos dois morreu primeiro? Como eles foram mortos? Ela foi violentada? Mas de que forma? E quantas vezes?
Eu tenho nojo.

E agora as vozes que bradam a favor da pena de morte se levantam mais uma vez. Estranho que essa gente só se manifeste quando a imprensa faz esse jogo emocional com algum caso. Ninguém fala em pena de morte quando um favelado é morto. Policiais têm sido assassinados sistematicamente em São Paulo e nada de alguém se lembrar da pena capital. Engraçado, né? Querem pena de morte? Organizem-se, elejam deputados e senadores que defendam as mesmas idéias. Oras.
O problema é que nego quer ser mais cruel que o Javé do Velho Testamento: enquanto a Lei Mosaica pode ser resumida em “Olho por olho, dente por dente”, tem muita gente por aí que quer algo do tipo “Pisão no pé por olho” ou “Chamar de ‘seu bobo!’ por dente”. Gente que fala que o certo seria o exército bombardear favelas. Que seria bom a polícia sempre dar um jeito de fazer a mesma faxina que fez no Carandiru em 1992. Pessoas assim são a favor da barbárie, não da justiça.

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