Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

LBV

EVERYTHING THAT HAS A BEGINNING HAS AN END.

SOME THINGS DO NOT CHANGE… SOME THINGS DO.


Pelamordedeus, quem foi o gênio que criou essas pérolas para Matrix? O Paiva Netto???

(Post para Marcos Patricio, o tarado por anões cobertos de Catupiry)

O acordo com os gibeonitas

(Josué 9)

Como era de se esperar, a notícia da destruição de Ai espalhou mais ainda o terror por toda a Canaã. Conhecedores da fama sanguinária de Josué, os reis dos heteus, dos amorreus, dos cananeus, dos jebuseus, dos perizeus, dos heveus e outros eus fizeram uma aliança para guerrearem juntos contra Israel. Havia, no entanto, uma cidade chamada Gibeão, na terra dos heveus, cujos líderes decidiram adotar uma estratégia diferente. Afinal, lutar contra os israelitas não parecia uma idéia muito boa. A tomada de Ai tinha sido uma luta normal, com uma derrota na primeira batalha e uma boa estratégia na segunda, que foi vitoriosa. Mas o que dizer sobre Jericó? Como explicar aquele cerco que mais parecia um desfile de carnaval, e a queda das muralhas quando o povo gritou? Não, não: melhor dar outro jeito de livrar a pele. E foi o que eles fizeram, como veremos.
Os israelitas estavam acampados em Gilgal, ainda comemorando conquista de Ai. Celebravam, davam gritos de guerra, exibiam uns aos outros o que haviam saqueado da cidade. Porém a festa foi interrompida pela chegada de uma caravana de homens maltrapilhos, trazendo jumentos cansados carregados de sacos velhos e odres de vinho remendados. O povo se reuniu em volta do recém-chegados, olhando-os com curiosidade e uma ponta de desdém.
— Opa. E aí? Desculpe a gente chegar assim sem mais nem menos. Viemos de um país distante, e ouvimos falar da grande força e poderio de seu povo. Sendo assim, resolvemos vir aqui apresentar nossos cumprimentos e fazer com vocês um acordo de paz e colaboração.
Os homens de Israel ouviram aquilo meio desconfiados, e Josué questionou os viajantes:
— Hum, sei… E como a gente vai saber que essa ladainha toda é verdade, hein, ô feinho? E se na verdade vocês forem um desses caras que moram por aqui? A gente não tá aqui pra fazer acordo com os povos daqui não. Nosso negócio é matar todo mundo, destruir as cidades e saquear tudo. E quem garante que vocês não são uns cananeus metidos a espertinhos?
Falava grosso esse Josué, não? Quando Javé não estava por perto, é claro. Mas o porta-voz dos viajantes respondeu:
— De jeito nenhum, que é isso??? Somos de longe, já disse. E estamos dispostos até a trabalhar pra vocês, veja só. Façam acordo com a gente, vai ser bom pros dois lados…
— Hum… E quem são vocês exatamente? De onde vêem?
— Já disse, já disse: somos de um país muito longe daqui, vocês não conhecem. Viemos até aqui porque ouvimos falar do deus de vocês, das coisas espantosas que ele fez no Egito. Impressionante aquilo, uau! E também chegaram a nossos ouvidos a história das batalhas que vocês travaram contra os reis Seom e Ogue. Então nossos líderes nos mandaram pra cá, a fim de propor a vocês um acordo de paz, e até mesmo oferecer nossos serviços para o que vocês quiserem. Acreditem, somos de muito longe mesmo. Olha esse pão seco e bolorento aqui, quando saímos de casa estava quentinho. Nossos odres, nossas roupas e sandálias, era tudo novo, e agora vejam só o estado.
— É, cês tão numa pindaíba danada mesmo…
— Tô te falando… Mas tudo bem, valeu a viagem só para conhecermos este povo tão pujante. Agora só nos falta conhecer seu grande líder Josué.
— Er… Sou eu mesmo.
— O senhor é Josué??? Mas que honra! QUE HONRA! Senhor Josué, devo dizer que sua fama de general e grande líder alcançou os cantos mais distantes da Terra.
— Ah, que é isso…
— É verdade! Lá no nosso país quando as crianças vão brincar de guerra sai até briga pra saber quem vai ser o Josué. O senhor é um herói!
— Bondade sua…
— Bondade nada! No caminho pra cá ficamos sabendo da tomada de Jericó. O que foi aquilo???
— Ah, mas não fui eu não. Coisas do Javé…
— De quem?
— Javé, o nosso deus.
— Ah, sim. E a conquista de Ai, então? Que estratégia!
— É, ali eu mandei bem mesmo. Modéstia à parte.
— Pois então! Como é que a gente podia ignorar um mito desse porte? Não senhor! Fizemos questão de vir até aqui para fazermos um acordo de paz com o senhor e todo seu povo.
— Ah, é. O acordo. Oras, que diabo! Então façamos o tal acordo. Toca aqui, rapaz!
— Assim é que se fala, seu Josué! Então estamos seguros?
— Têm a minha palavra. E mais: juro por Javé.
Que beleza, não? Josué caiu direitinho na bajulação dos caras e firmou um acordo de paz com eles. Inocente, esse Josué. Três dias depois, os israelitas chegaram à região em que habitavam os gibeonitas (a capital, Gibeão, e as cidades de Cefira, Beerote e Quiriate-Jearim). É claro que Josué ficou emputecido quando descobriu que os viajantes maltrapilhos com os quais havia feito o tal acordo eram na verdade habitantes de Canaã, e portanto futuros alvos dos ataques de Israel.
— SEUS PUTOS! VOCÊS NÃO FALARAM QUE VINHAM DE MUITO LONGE???
— Ué, três dias de viagem! O senhor acha pouco???
— Puta que pariu… Agora o povo tá reclamando comigo e com os outros líderes, dizendo que somos molengas e burros por termos feito um acordo com vocês. Que que eu faço?
— Vê lá, hein, Josué! Lembre-se que você jurou pelo seu deus…
— Eu sei, eu sei! Mas que CAGADA! INFERNO! Olha, eu jurei por Javé então vou ter que manter meu juramento. Mas vocês vão me pagar por essa malandragem.
— …?
— Todos vocês gibeonitas vão ser nossos escravos. Carregadores de água, rachadores de lenha, essas coisas.
— Pô, Josué… Será que não dava pra gente…
— E SAIAM DA MINHA FRENTE ANTES QUE EU RESOLVA QUEBRAR O JURAMENTO!
Os gibeonitas acharam prudente não discutirem com Josué, mesmo porque para quem ia sumir do mapa qualquer acordo era lucro. Assim, em troca da própria vida, os gibeonitas passaram a ser escravos em Israel. Triste fim para um povo tão cheio de mumunhas. Fim muito mais triste, no entanto, tiveram os outros povos que ficaram no caminho de Josué…

O revolucionário

Seis e pouco da manhã. Ainda semiconsciente, andava na direção do ponto de ônibus (nem é um ponto, na verdade, só a esquina onde pego o meu fretado. Como se fosse um ponto de ônibus só meu, oh) quando dois vira-latas surgiram da rua transversal. Dobrei a esquina e fui surpreendido por outros oito ou nove cães, uns sentados, outros deitados e um em pé. Essas matilhas de vira-latas são muito comuns no fim da tarde ou à noite, mas não me lembro de alguma vez ter visto uma reunião canina assim tão matinal.
O cachorro que estava em pé (marrom-claro, pata traseira esquerda quebrada, orelha machucada, olhos vermelhos) veio na minha direção e começou a latir. Achei a situação meio vexaminosa, sei lá por quê. Talvez por não saber o que responder aos latidos senti-me como quando estou entre pessoas que falam de assuntos que desconheço. Tentei usar o velho truque de me abaixar para fingir que ia pegar alguma coisa para agredir o cão, mas ele rosnou. Opa. Tenho medo quando eles rosnam. Bati o pé falando “PASSA!” e ele chegou mais perto. Raios. Estava a menos de um metro de mim, olhando fixo pra mim e latindo seu latido monótono. Vez em quando ele se aproximava dos que estavam deitados, e latia alternando o olhar entre eles e eu. Depois virava-se na direção da praça, onde os dois que já haviam se levantado zanzavam, e latia para eles. Os primeiros pareciam constrangidos com a atitude do colega: uns abaixavam a cabeça, outros olhavam sem interesse para mim, outros ainda olhavam por cima da cabeça do barulhento, ignorando-o, como se diz, ostensivamente. Os últimos não davam atenção alguma, queriam mesmo era zanzar na praça (a não ser por uma cadelinha miúda, que eu ainda não tinha visto, a qual atendeu ao chamado dele e ficou latindo pra mim lá do outro lado da rua e sem muita convicção).
Então percebi: tratava-se de um revolucionário. Devia passar dias e noites fazendo suas pregações aos colegas de matilha. Tentava convencê-los de que era hora de por fim à opressão aos cães perpetrada pelo homem. Que urgia (urgia!) conscientizar os cachorros domésticos de sua condição de animais superiores. Que era mister (mister!) despertar toda a nação canina para a realidade da luta de classes, ou melhor, de espécies. Essas coisas de revolucionário, sabem como é? Comecei a compreender a atitude amalucada de certos cães, inserindo-as no contexto (inserindo no contexto, Jesus!) da mentalidade revolucionária. Correr atrás do próprio rabo até ficar tonto seria então uma forma de protesto, ou o símbolo da natureza cíclica do tempo, pois um dia os ancestrais do homem temeram os ancestrais do cão, e tal cenário repetir-se-ia no futuro. Sair latindo atrás dos carros poderia ser um esforço para boicotar os meios de transporte dos humanos (se pelo menos mais cães aderissem à Causa!). Correr atrás do carteiro, então, seria uma forma de atrapalhar os meios de comunicação do inimigo (atitude revolucionária que perdeu muito de sua força depois que inventaram o e-mail).
Enfim, o cão que latia para mim era um revolucionário, e como tal era considerado um chato por seus colegas. Fiquei com pena dele. Meu ônibus chegou e ele foi para a calçada, em silêncio (o vira-lata, não o ônibus). Depois que eu entrei, ele saiu correndo e latindo atrás do ônibus. Incansável companheiro!