Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Chega de paçoquinha

O post abaixo encerra aqui mais um ciclo de textos a respeito daquilo que o sábio Ruy Goiaba chama de “o sentimento que é nome de paçoquinha”.

Como conseqüência imediata, não teremos mais posts do JMC no Copy & Paste. Ratapulgo, eu já disse, é um romântico incorrigível.

Como outra conseqüência, passo agora a aceitar currículos de leitoras interessadas. Com foto e carta de referências.

Fim de leitura

Sabe aquela sensação de ver um livro muito bom chegando ao final? Aquela tristezinha de saber que em breve vai ter que se despedir dos personagens que você tem acompanhado com tanta atenção, da cabana à beira do lago, do barco, do beco sujo? Então. É assim que eu me sinto, agora que percebo que o sentimento que alimentei por você todo esse tempo começa a evanescer-se. Foi uma excelente leitura — uma espécie de Magnolia dos sentimentos — mas estou nas últimas páginas. Tento reduzir o ritmo, ler uma página hoje, tomar um café, contar os azulejos, olhar para o pé, cortar as unhas, ficar jogando minha bolinha de borracha na parede, ler outra página amanhã, ir ao banco, experimentar um chapéu, cantar no karaokê… Mas eu sei muito bem que esta leitura está terminando. Muito breve fecharei o livro, soltarei um suspiro, olharei para o vazio por um tempo pensando no que acabo de ler, e então botarei o livro de volta na estante.

Seria diferente se você tivesse vindo para ler comigo. Então leríamos até o final com alegria, faríamos comentários engraçadinhos ou melancólicos, como é de nossa natureza. Ao final, começaríamos a adicionar ao livro novas frases, novos parágrafos, páginas, capítulos. Tenho aqui em algum lugar um calhamaço que surgiu assim, escrito por mim e por outra garota. E é muito engraçado, bem escrito, denso. Eu só não sei onde está porque minha biblioteca é uma bagunça. Seria bom escrever um novo com você, mas esse tipo de pensamento não é muito saudável. O futuro do pretérito a Deus pertenceria, você sabe.

Então guardo o livro. Ele ficará lá na estante, emitindo seu brilho de uma cor muito linda — a sua cor predileta, aquela — e será difícil não olhar para ele por algum tempo. Talvez um dia você entre aqui na minha biblioteca do seu jeito leve e tímido, e com a voz vacilante me peça o livro emprestado. Se acontecer, será a melhor releitura de minha vida. Se não acontecer, paciência: há muitos livros nessas estantes de madeira escura que vão até o teto. E eu sou mais voraz que os cupins.

É HOJE!

Candide

Está no Rio? E vai perder essa a troco de quê? Vai lá, garanto que vai ser legal. E fico aqui roendo os cotovelos de inveja.

Meus livros

Quando aprendi a ler, aos cinco anos de idade, dois livros me fascinaram logo de cara: um tinha capa preta com o título, “Bíblia Sagrada”, em letras douradas. Na primeira página, uma dedicatória:


Marco Aurélio,

Leia e será abençoado.

Lindauro

Levei a sério a dedicatória do meu pai e comecei a ler. Gostava da leitura, me empolgava com as histórias, achava algumas cenas hilariantes e não entendia como é que tanta gente dizia que era um livro complicado. De jeito nenhum! Tinha um monte de palavras novas, é verdade, mas para isso eu tinha o meu outro livro. Um livro que me chamou a atenção logo que eu consegui ler seu título na lombada enorme: Dicionário Aurélio. Eu não sabia quem era o tal de Dicionário, mas logo simpatizei com ele por também chamar-se Aurélio. Meu pai me explicou para que servia e como funcionava, e eu quase endoidei: então era só abrir aquele livrão e pronto, eu saberia o significado de qualquer palavra? Magnífico!, como diria o Compadre Washington.
Eu lia a Bíblia com gosto, e quando me deparava com monstrengos como aleivosia, opróbrio ou concupiscência, corria para o livro que tinha meu nome e descobria o sentido de todas elas. Era um mundo novo de personagens maravilhosos, histórias fantásticas e palavras belíssimas.

E vejam só no que deu…