Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Prestamento de confiança

— Ô, meu fio. O fio tem uma namorada, não tem?

Com seu sotaque do sertão da Bahia (que não guarda semelhança nenhuma com a fala dos baianos de novela), meu avô me fez a pergunta. Estávamos do lado de fora do velório e chorávamos a morte de minha avó.

— Tenho sim, vô.

— E vai casar?

— Pretendo — pobre de mim.

— Hum. Muito bom. Mas olha: casamento é prestamento de confiança, viu? Eu e a Silvana por exemplo: namoramos durante um ano. Aí eu pensei: “Vou casar”. Só que antes eu fiz um teste: desmanchei o namoro sem dar satisfação nenhuma e fiquei só observando — no meio de sua dor inimaginável, meu velho avô sorria com a lembrança. — Os amigos vinham me contar como ela se comportava, o que fazia, com quem falava, essas coisas. Isso durou um mês. Aí eu fui falar com ela: “Olha, eu quero voltar, você quer?”. Ela quis, e então nos casamos. Isso há sessenta anos. Casamento, fio, é prestamento de confiança.

Meses depois, tomado pela tristeza, meu avô morreu também. O prestamento de confiança era demais. Acho que ele se sentiu meio desleal ficando por aqui. Eu não me casei, nem creio que vá me casar um dia. Mas tenho vontade de gritar isso para esses casais de hoje em dia, essas pessoas que tratam o relacionamento com a leviandade de solteiros: E o prestamento de confiança, onde é que fica?

Soares Silva

Há blogs que eu reluto em recomendar, não por duvidar de sua qualidade ou originalidade, mas justamente por tê-las em grande conta. Tal relutância se deve a um certo pudor que nada tem de falsa modéstia: e se o autor sentir-se ofendido — ou ao menos constrangido — de ter seu blog recomendado pela vulgaridade óbvia que é o JMC? Além do mais, tenho consciência de que um simples link aqui envia para o destino, misturada na massa de leitores excelentes, uma corja de semianalfabetos broncos.

Estou titubeando (ARRÁ!) há dias em recomendar a vocês um blog que, no fim das contas, vocês já devem conhecer mesmo. Enfim, chega de veadagem: leiam Alexandre Soares Silva e arejem suas cabecinhas.

UPDATE: Escrevi o post e fiquei só de butuca esperando quem seria o primeiro a vir com papo de “O cara é de direita blablablá”. Pois não é que logo no primeiro comentário, de alguém que assina como marx, temos:

Desculpem, mas um cara que venera o Olavo de Carvalho não merece minha visita.

O que primeiro me chamou a atenção foi o verbo no plural. Nego tem mania de dirigir-se ao autor deste malfadado blog no plural. Será o tal de plural majestático, ou é possível que ainda não tenham percebido que isto aqui tem um autor só, e dos bem ruinzinhos?

E aí vem essa questão ideológica e tal: pra que levantar essa questão? Eu sempre me declarei de esquerda, hoje já não sei mais, mas de direita não sou. Acho que me tornei apolítico, se é que existe tal termo. Mas então: o cara escreve bem, o texto é elegante e bem estruturado, o humor é agradável. Então que sentido há em dizer que não vai ler porque o cara é de direita, porque venera o Olavo de Carvalho, porque blablablá? Medo de ser contaminado? Seu esquerdismo é tão frágil que é capaz de ruir frente a uma simples frase fazendo ironia com a distribuição de renda?

Oras, vão se roçar nas ostras!

(ou como me disse agora há pouco o próprio deus: “Esse pessoal de esquerda e direita tinha mesmo que se preocupar com o centro, que é onde está o cu deles.”)

O pecado de Acã

(Josué 7)

Quando viram a baba que foi destruir Jericó, os israelitas se encheram de segurança para novas empreitadas. Por isso, quando Josué enviou espiões à cidade de Ai…
AI???
Não torra. Eu ia dizendo: quando Josué enviou espiões a Ai, eles voltaram com prognósticos otimistas:
— Aê, seu Josué, Ai vai ser moleza. Precisa movimentar o povo todo não: manda pra lá só uns dois ou três mil homens, porque há pouca gente lá, e todo mundo se cagando de medo da gente.
Investido de coragem e motivado a não mais poder, Josué convocou então cerca de três mil soldados e os enviou à cidade. Aconteceu, porém, que os homens de Ai fizeram os israelitas recuarem, matando logo de cara 36 soldados. Depois botaram os hebreus para correr, e os perseguiram desde o portão da cidade até uma pedreira que havia por lá, matando israelita à vontade na descida. Quando o batalhão desfalcado voltou ao acampamento não marchando, mas correndo em desordem, com a notícia do que acontecera, o povo perdeu toda a empáfia recém-adquirida.
Josué, desnorteado pela derrota quando esperava uma vitória sem percalços, rasgou suas roupas — a bicha — e se atirou de rosto no chão na frente da Arca. Os líderes do povo, no exercício da antiquíssima e lucrativa atividade chamada puxa-saquismo, fizeram o mesmo. Ali ficaram Josué e os líderes, todos de cara no chão como sinal de tristeza. Então Josué começou sua arenga:
— Ô, Javé! Por que foi que você fez este povo atravessar o Jordão? Para nos entregar de bandeja nas mãos dos amorreus? Pô, sacanagem braba isso aí! Na boa, com todo respeito, isso não se faz! Grande papelão fizeram os soldados israelitas correndo dos habitantes de Ai feito umas frangas tresloucadas. E agora? Agora os cananeus e o resto dessa raça toda aí vão ficar sabendo do acontecido, e aí a fama que conquistamos ao atravessarmos o Jordão e destruirmos Jericó vai pras cucuias. Percebe? Percebe? OS CARAS VÃO CERCAR A GENTE E VARRER ISRAEL DO MAPA! É isso que você quer? E sua reputação, como fica? Hein? Hein? Responde, porra! Resp…
— Tá, tá, Josué! Já escutei, agora chega. Pra começar que porra cê tá fazendo aí de cueca com a cara no chão? Por favor, que cena mais ridícula! Oras, Israel passou esse vexame aí porque o povo me desobedeceu.
— Desobedeceu? Quando???
— Já te digo: eu não falei pra vocês destruírem Jericó totalmente, matando todos os seus habitantes e todos os animais e queimando a cidade? A única coisa que eu permiti foi que trouxessem os objetos de ouro, prata, bronze e ferro para o Tabernáculo, que de bobo eu não tenho nada. Enfim, minha ordem foi clara. E sabe o que aconteceu? Teve nego aí que resolveu trazer uns souvenirs de Jericó para o acampamento, pensando que eu sou idiota.
— Tá falando sério, Javé?
— Não, é pegadinha! Olha ali a câmera escondida! É CLARO QUE EU TÔ FALANDO SÉRIO, CARALHO! E digo mais: enquanto vocês não descobrirem quem foi que teve o topete de desafiar minha autoridade, o povo de Israel continuará sendo motivo de chacota aqui na região. Vai pegar mal pra mim e pra vocês também.
— Mas como é que a gente vai descobrir?
— Usando o Urim e o Tumim, oras.
— Usando QUEM???
— Puta merda, Josué… Cê até que se sai bem militarmente, mas não se preocupou nenhum pouco em aprender os aspectos religiosos e essa coisa toda, né? O Urim e o Tumim, aquelas pedrinhas que o Sumo Sacerdote usa para fazer sorteios.
— Porra, virou bingo isso aqui?
— MANÉ BINGO! O resultado do Urim e do Tumim na verdade é uma manifestação da minha vontade. Então o sorteio será feito até vocês descobrirem quem é o cara. Aí você vai passar uma descompostura nele e queimar tudo o que ele trouxe de Jericó.
— Só isso?
— Só. Ah, mas com um detalhe: na mesma fogueira em que você queimar as tais lembrancinhas, aproveita pra queimar o cara, a família dele, suas posses e sua tenda.
— PORRA, JAVÉ! Precisa tanto???
— Ai meu saco, a mesma discussão de sempre… Sei lá se precisa ou não, o que importa é que eu QUERO e assim será feito. Entendeu, songomongo?
— Entendi…
— Então vai lá.
De acordo com a ordem de Javé, Josué acordou na madrugada seguinte e convocou todo o povo (aliás, já repararam que muita coisa no livro de Josué acontece de madrugada? O filho-da-puta do milico tinha esse costume de toque de alvorada, e pelo jeito impôs esse comportamento ao povo. Sacanagem). O primeiro sorteio foi feito, indicando que o responsável pela vergonha de Israel vinha da tribo de Judá. Outro sorteio foi feito, e a sorte recaiu sobre o grupo familiar de Zera. Com outro sorteio, determinou-se que o procurado era da família de um tal Zabdi. Nenhum pio se ouvia no acampamento quando o último sorteio foi feito e Acã foi acusado do crime de desobediência. Josué, não muito crédulo nesse negócio de pedrinhas da sorte, quis confirmar com ele:
— Acã, meu filho. Conta aqui pro Josué, conta: o que foi que você fez? Não esconda nada, pode ficar tranqüilo.
— Posso, é? Então tá. Seguinte, seu Josué: a gente tava lá em Jericó matando adoidado, tocando fogo em tudo, aquela beleza. Aí vi no meio dos escombros uma capa linda, coisa fina, made in Babilônia. Pensei: “Oras, é só uma capa, não faz diferença nenhuma”, e peguei a danada.
— Sei, sei… E foi só isso?
— Hum… Teve um pouquinho mais. Quase nada: uns dois quilos de prata e uma barra de ouro que deve pesar por volta de meio quilo.
— Você pegou OURO e PRATA pra você, Acã???
— Er… Peguei, né? Tá tudo enterrado na minha barraca.
— Putz, aí fodeu. Fosse só a capa eu tentava dar um jeito, mas pegando ouro e prata você roubou o Javé, cara. Ele foi bem claro com isso: os metais preciosos deveriam ser levados para o Tabernáculo. Olha, eu não quero ser agourento não, mas acho que de hoje você não passa…
— PELAMORDEDEUS, SEU JOSUÉ!
— Bah, posso fazer nada. Mas antes vamos confirmar essa história direitinho. Ô! Vocês aí! Vão até a tenda do Acã e vejam se as coisas estão mesmo enterradas lá.
Os homens designados por Josué correram para a tenda do réu, e de fato encontraram a capa, o ouro e a prata enterrados lá. Então Josué e todo o povo de Israel — sempre doido por um linchamento — levaram Acã, sua família, seus animais e tudo o que ele possuía para um vale. Lá o povo apedrejou Acã e queimou sua família e seus bens, inclusive os objetos que ele pegara em Jericó. Feita a desgraceira, empilharam um monte de pedras sobre a família carbonizada. Uma maravilha, coisa linda de se ver! O lugar passou a se chamar Vale de Acor, que significa desgraça.
Olha, não sei quanto a vocês, mas eu se fosse israelita naquela época, com essa lei do cão imposta por Javé, trataria logo de pedir asilo político no primeiro país pelo qual passasse. De besta eu só tenho a cara.

PORRA!

Eu sei que esse negócio de falar do Polzonoff e de deus a toda hora já tá ficando até meio suspeito, mas não consigo evitar. Estava lendo o Falecomdeus agora e tive um ataque de riso que me levou à beira da morte. A causa:

LEITOR: Senhor, os seu posts estão cada vez maiores!
DEUS: É porquê você ainda não viu o tamanho que meu pau está ficando.

Ó PUTA QUE PARIU! Rir assim a esta hora da manhã acaba com qualquer mau humor. Obrigado, deus.