(Josué 6)

Na chón!
Com os depauperados israelitas já recuperados da circuncisão, Javé não via motivos para adiar mais a invasão de Jericó. Deu instruções detalhadas a Josué, e foi assim que na manhã seguinte os homens que estavam de guarda nas muralhas da imponente cidade presenciaram uma cena insólita: soldados israelitas marchando seguidos por sete homens com roupas engraçadas — sacerdotes, pela solenidade que exibiam — tocando cornetas de chifre de carneiro. Atrás desses sacerdotes vinham outros carregando um baú sobre os ombros — que os guardas não tinham como saber que era a Arca da Aliança — e atrás destes mais soldados. De longe, do acampamento, o povo de Israel assistia à cena. O que mais impressionava era o silêncio: nem os soldados que marchavam, nem os sacerdotes que carregavam a arca, nem o povo no acampamento emitiam som algum. Os homens nas guaritas, estupefatos e sem saber direito o que estava acontecendo, guardavam silêncio sem se dar conta disso, só murmurando de quando em vez: “Que porra é essa?”. Apenas as cornetas soavam enquanto os sacerdotes e soldados rodeavam as muralhas. Depois de completarem seu percurso, todos voltaram para o acampamento.
A história se espalhou pela cidade, cujos habitantes já viviam em estado de sítio antes mesmo de qualquer ameaça israelita: desde o dia em que o povo atravessara o Jordão os portões da cidade viviam muito bem trancados, e ninguém tinha autorização para entrar ou sair. Naquela manhã, quando os guardas viram os soldados se aproximarem, pensaram tratar-se enfim da invasão. Depois que eles apenas rodearam as muralhas e voltaram para o acampamento, porém, um certo alívio foi sentido: talvez os israelitas tivessem desistido da invasão ao verem o tamanho da cidade e a espessura de seus muros.
No entanto, a tensão voltou a reinar no dia seguinte, quando os mesmos soldados e sacerdotes voltaram carregando o baú e tocando cornetas enquanto davam mais uma volta ao redor da muralha. A notícia se espalhara, e dessa vez vários habitantes de Jericó assistiam à cena de cima do muro. Houve vaias, gritos de guerra, ovos e tomates atirados, faixas de “Galvão, filma eu!”. Os israelitas, impassíveis, apenas completaram sua volta e retornaram ao acampamento.
A mesma cena se repetiu por mais quatro dias. A tensão então era insuportável, com aqueles malucos vindo todo dia à mesma hora para tocarem cornetas e circundarem a cidade. Seis dias consecutivos da mesma palhaçada; e o povo de Jericó com os nervos estraçalhados.
No sétimo dia foi a mesma coisa: vieram os soldados, atrás deles os corneteiros e a Arca, e depois mais soldados. Só que não voltaram para o acampamento quando terminaram de dar a volta na cidade. Em vez disso, deram outra volta.
E outra.
E mais outra.
Sete voltas no total. Depois disso, os sacerdotes tocaram as cornetas produzindo um som prolongado, e os israelitas vieram correndo do acampamento, enquanto gritavam em uníssono:
VAMO INVADI!
VAMO INVADI!
VAMO INVADI!
Imediatamente as muralhas da cidade caíram.
…
— Ah, não fode!
Porra, o que cês querem que eu faça??? É assim que tá lá na Bíblia, então tenho que contar assim: com o grito do povo, as muralhas de Jericó — tão espessas que havia pessoas morando nelas, lembrem-se — ruíram. Os israelitas então invadiram a cidade, tratando de cumprir com alegria as instruções de Javé: matar todos os habitantes, inclusive velhos e crianças, e todos os animais.
— Peraí — há de perguntar algum leitor mais atento — e a Raabe?
Sim, sim, é verdade. Raabe, se vocês não se lembram (é CLARO que não se lembram…) era aquela puta que morava na muralha da cidade, e que protegeu os espiões israelitas. Antes de partirem, eles garantiram que ela e sua família seriam poupados no dia da destruição de Jericó. Pois vejam só: toda a muralha caiu, com exceção do pedaço em que Raabe morava. Os dois espiões — que já a conheciam muito bem — foram encarregados de irem até lá e resgatarem a puta, os filhos da puta, os pais da puta, enfim, a putaiada toda. Ela foi incorporada ao povo e tratada como israelita desde então. Se bem que era MULHER e PROSTITUTA. Numa sociedade machista e moralista como aquela, seria mais negócio ser cachorro.
Resgatada Raabe com sua família, os soldados israelitas puderam concluir seu trabalho: atearam fogo à cidade, salvando apenas os objetos de ouro, prata, bronze e ferro, que foram levados para o tesouro do Tabernáculo. Depois de concluída a destruição, Josué amaldiçoou a cidade e qualquer um que tentasse reconstruí-la. Sei não, mas acho que a maldição não foi levada muito a sério. Podem procurar num mapa de Israel: ali do lado do Jordão está a moderna cidade de Jericó. O que importa para nós agora, porém, é que com a destruição de Jericó, Josué finalmente começou a ser respeitado e temido. Os israelitas celebravam o sucesso de sua empreitada sob o comando do novo líder, enquanto os cananeus tremiam apavorados ao ouvirem a história do general que, juntamente com seu povo, derrubara as muralhas de uma cidade na base do grito.