Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Teatro

Há a peça, há os atores e há você. Você talvez não seja a atriz principal. Em compensação, você é o cenário, o figurino, o roteiro, a direção, a iluminação — Você é luz/É raio, estrela e luar —, você é o público e as poltronas puídas em que ele se senta, é a bilheteira mal humorada, o cara que toca a campainha para anunciar o início da peça.

Quando durmo, e começa a peça surrealista dos meus sonhos, você é a esfinge que cai do céu, espalhando enigmas por todos os lados em forma de esferas com ideogramas chineses. Você sai correndo com minhas roupas enquanto eu fico nu no meio da Avenida Paulista. Eu corro e não saio do lugar; é você me segurando. Eu começo a cair e foi você quem me empurrou. Eu vôo, mas é com as suas asas. Morro e vou para o inferno, julgado por você.

Eu precisava tirar você do meu teatro. Eu era ator principal desse negócio; agora me contento com qualquer figuração: acho que o tempo dos palhaços tristes ficou para trás.

Viajante

Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa
Pássaro sem asa
Rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções
Nessa caldeira fria
É que arde o medo
Onde o amor ardia

Mansidão no peito
Trazendo o respeito
Que eu queria tanto te roubar de vez
Pra ser seu talvez
Pra ser seu talvez.

Mas o viajante é talvez covarde
Ou talvez seja tarde
Pra gritar que arde
Seu maior ardor

A paixão contida
Retraída e nua
Correndo na sala
Ao te ver deitada
Ao te ver calada
Ao te ver cansada
Ao te ver no ar
Talvez esperando desse viajante
Algo que ele espera também receber
E quebrar as cercas
Com que insistimos em nos defender.

(Teresa Tinoco)