(Josué 5)
Quando o povo de Israel terminou de assentar acampamento em Gilgal, deus foi mais uma vez falar com Josué:
— Ô, seu bunda mole!
— Porra, Javé, pega leve.
— Pega leve o caralho, que eu sou é deus. Seguinte, tem uma parada aí pra gente fazer. A gente porra nenhuma, pra VOCÊ fazer, que eu não vou sujar minhas mãos. Pra começar, cê vai fazer umas facas de pedra.
— Facas de pedra? Pô, não fode! O neolítico ficou pra trás faz tempo, eu posso muito bem fazer facas de metal.
— Eu sei que você pode, Josué. Mas acontece que EU não quero. Facas de pedra dão mais trabalho e eu me divirto vendo vocês se lascando. Sem trocadilho.
— HUMPF. E pra que as tais facas?
— Então. Aquela geração que saiu do Egito há quarenta anos morreu no deserto; só você e o Calebe foram poupados por mim. Aliás, é bom que você nunca se esqueça disso…
— …
— O negócio é que morreram todos, e os que nasceram no deserto não foram circuncidados. Aí…
— Ah, não!
— Ah, sim! Você vai botar todo mundo em fila e circuncidar um por um.
— COMO É QUE É???
— Não grita comigo, puto.
— Er… Como é que é? Cê quer que eu corte a pele do pau de mais de 600 mil homens???
— Ah, cê pode escolher uns ajudantes.
— O problema não é esse, porra! E eu lá vou ficar pegando em rôla, Javé???
— Vai sim, oras. E sabe por quê? PORQUE EU TÔ MANDANDO, CARALHO!
Diante da força retórica de tal argumento, Josué não teve escolha: arrumou uns negos para ajudá-lo e começou esse servicinho do caralho — literalmente —, assim como Abraão havia feito quando da instituição da circuncisão. O povo ficou acampado até que todos os homens sarassem. Imaginem só: alguns amigos meus operaram fimose já na adolescência ou na vida adulta — não vou citar nomes, portanto o Tonon e o Loxinha podem ficar tranqüilos — e passaram alguns dias em casa de molho, com o júnior cheio de pontos. Não gosto nem de pensar como deve ter sido lá em Gilgal, sem anestesia antes nem sutura depois. Credo.
Bom, depois da Operação Corta-Pica, Javé voltou a falar com Josué:
— Muito bem, muito bem! Que maravilha ver esse monte de marmanjo falando fino e gemendo de dor. Parabéns, Josué. Belo trabalho. Hoje finalmente a vergonha de ter sido escravizado no Egito foi tirada de Israel.
E foi por causa dessa frase que aquele lugar passou a se chamar Gilgal, que em hebraico significa “tirar”. E ali na planície de Gilgal, pertinho de Jericó, os israelitas comemoraram a Páscoa na noite do dia catorze. No dia seguinte começaram a comer o que aquela terra produzia. Finalmente, depois de quarenta anos comendo maná, o povo voltou a comer coisas normais e saudáveis; e o maná parou de cair do céu.
Por aqueles dias, Josué estava caminhando pelas cercanias de Jericó. Olhava para as muralhas espessas, os guardas em suas guaritas, as seteiras, e pensava: “Puta que pariu, vai dar um trabalho do cão entrar aí”. Distraído com seus pensamentos, esbarrou num transeunte.
— Opa. Desculpa aí, meu camaradinha, estava pensando na morte da bezerra e… — Josué interrompeu-se ao notar que o homem, muito alto e forte, estava todo paramentado para a guerra, de armadura, capacete, escudo e espada na mão — Ei, peraí. Você é do nosso exército ou é de Jericó?
— Nenhum dos dois, songomongo: sou o comandante do exército de Javé.
— O comandante? Quer dizer que você é o…
— Eu mesmo.
Josué então, como bom puxa-saco, ajoelhou-se e encostou o rosto no chão em louvor ao homem. Este, nada impressionado com a bajulação do líder israelita, ordenou:
— Pára de viadagem. E vê se pelo menos tira as sandálias, porque o solo em que você pisa é santo.
— Ok, claro, sim, pois não, é pra já.
— VAI LOGO, PORRA!
— Opa, pronto, aí, já foi, descalço, olha só.
— Humpf.
Com esse muxoxo, o homem se retirou. E se vocês fossem mais espertinhos, já teriam sacado que se tratava do arcanjo Miguel. É possível que estivesse voltando da disputa com o diabo pelo corpo de Moisés, vejam só. É como se fosse um DVD: a cena do encontro de Josué com Miguel parece descontextualizada. Só que assistindo aos extras a gente vê em uma das cenas cortadas Miguel e o Canho disputando Moisés numa partida de truco, e tudo passa a fazer sentido.