Coisas escritas em
Instinto
Não é costume dos moradores de São Paulo observar a natureza. Primeiro porque não restou muita natureza para ser observada nesta cidade, e depois porque são todos muito ocupados e apressados. Eu, no entanto, aprendi com meu pai a manter os olhos abertos para as manifestações naturais e nunca me arrependi disso.
É quase primavera, as flores começam a surgir, as plantas vão fazer seu sexo anual (quem me dera trepar com tanta freqüência!). Agora mesmo, se você olhar entre os ramos das árvores, verá passarinhos começando a construção de seus ninhos. Daqui a um tempo veremos os rituais de acasalamento: os pombos de peito inflado tentando impressionar pombas exigentes, os bem-te-vis cantando suas serenatas com voz esganiçada, os lagartixos dançando break, os ornitorrincos tocando castanholas de saia rodada.
Porém, o que mais me impressiona quando a primavera vem chegando é o comportamento dos humanos. Todos parecem mais sentimentais, mais propensos ao flerte, ao jogo amoroso, aos seus próprios rituais do acasalamento. Não é ainda aquela coisa escancarada do verão, todo mundo pelado e vamos trepar logo que daqui a pouco chega o outono e a broxada é geral. Não: é algo mais tranqüilo e calculado. Alea jacta est, e por enquanto jogamos pôquer: consideramos cada jogada, mantemos a fisionomia impassível. E blefamos, muito. No verão começa o truco, a gritaria, vale tudo, vale roubar, vale gritar “SEIS, MARRECO!” na orelha dos outros jogadores. Mas não agora: estamos jogando pôquer e ninguém sai. Ninguém sai!
Comecei a reparar nisso porque de uns tempos pra cá não se passa um dia sem que eu ouça histórias do tipo “Um ex-namorado que eu não via há anos me ligou ontem. Sei lá onde arrumou meu telefone!”, ou “Lembra aquela mina maluca do ano passado? Então, me mandou um e-mail. Assim, do nada!”. Posso estar errado (geralmente estou), mas acho que nós somos muito mais controlados pelo instinto e pela influência das estações do que gostaríamos de admitir.
Deuteronômio – Introdução
O nome do quinto livro da Bíblia, e último do Pentateuco, deriva de duas palavras gregas: deuteros (“segundo”) e nomos (“lei”). Isso quer dizer que teremos mais leis? Não exatamente: teremos as mesmas leis vistas pela segunda vez. O Deuteronômio trata da compilação de uma série de discursos proferidos por Moisés às margens do Rio Jordão.
Está aí o truque do velho profeta para prolongar sua vida: resolveu reunir todo o povo e recontar tudo o que acontecera desde a saída do Sinai até aquele momento em que se preparavam para a tomada de Canaã. Além disso, não nos esqueçamos, ele ainda tinha seus cinco livros para escrever (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e o próprio Deuteronômio). Malandro demais esse Moisés…
O Deuteronômio assume grande importância em toda a Bíblia. No começo do reinado de Josias (800 anos depois da morte de Moisés), um pergaminho do Deuteronômio será convenientemente encontrado entre as ruínas do Templo de Jerusalém, dando ânimo ao povo para a obra da reconstrução. Acredita-se hoje que este livro, assim como todas aquelas histórias heróicas do Velho Testamento, tenha sido escrito nessa época como material de propaganda e motivação, utilizando como base escritos mais antigos e velhas lendas orais.
Séculos depois (1.300 anos depois de Moisés, na verdade), quando tentado pelo demônio, é a citações do Deuteronômio que Jesus Cristo vai recorrer para derrotar seu adversário.
Devido a seu caráter repetitivo, creio que minha releitura desse livro será rápida e indolor para vocês. Não sou doido de ficar repetindo todas aquelas leis e rituais. Vamos ver como me saio. Sentem-se, acomodem-se. Vamos ouvir o que Moisés tem a dizer.



