Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

A guerra contra os midianitas

(Números 31)

Antes de começar, convém um esclarecimento aqui: vocês devem ter notado, no capítulo em que se fala da putaria entre os israelitas e as mulheres moabitas, que o autor do livro dos Números trata moabitas e midianitas indistintamente. Talvez isso aconteça pelo fato de Moabe e Midiã terem sido países aliados. No capítulo em que Balaque manda chamar Balaão, por exemplo, vimos que antes de fazê-lo ele se consultou com os líderes midianitas, e que a caravana que foi buscar o profeta era formada por membros de ambos os povos. A impressão que dá é que se tratava de um sistema de livre comércio primitivo, algo como a União Européia no meio do deserto.
Dito isso, vamos em frente. Moisés estava triste num canto, pensando em sua morte próxima, quando deus veio falar com ele.
— Moisés!
— Q-que é?
— Você vai ordenar ao povo de Israel que se vingue do mal que os midianitas fizeram.
— Q-que mal os m-midianitas f-fizeram?
— CÊ TÁ CADUCO, MOISÉS??? Eles levaram meu povo para o mau caminho, fazendo-o adorar ao deus deles.
— Ah, i-isso.
— É, isso. E agora Israel vai guerrear contra os midianitas. Depois da guerra, você morre.
— …
— Não ouviu o que eu disse, Moisés? Depois da guerra, você morre!
— B-bah! T-tanto f-faz.
— …
— M-mais a-alguma c-coisa?
— Er… Não.
— E-então tá.
Conformado com seu destino, Moisés tratou de traçar os planos para a batalha. Convocou os líderes do povo e determinou que cada uma das tribos mandasse mil soldados para lutar. Então Moisés mandou para Midiã esses doze mil homens sob o comando de Finéias, o mesmo filho de Eleazar que matara o hebreu com a midianita em sua tenda. Para a batalha foram levados também os objetos sagrados e as trombetas para os sinais.
Os israelitas mataram todos os homens midianitas, inclusive os reis Evi, Requém, Zur, Hur e Reba. Ah, e mataram Balaão também.
— BALAÃO???
Hum… É. Balaão.
— BALAÃO, O PROFETA?
Claro, porra! Ou vocês conhecem algum outro Balaão?
— Mas por que mataram o Balaão???
E eu sei lá por que mataram o Balaão! Da última vez em que ele apareceu estava voltando pra sua terra às margens do Eufrates. Por que ele estava em Midiã quando da batalha é algo que me escapa. Pior é que depois ainda é dito que foi seguindo o conselho de Balaão que as mulheres midianitas e moabitas seduziram os homens de Israel. Acho que mataram o cara por acidente — isso acontece em pleno século XXI com o exército mais avançado do mundo, imagine naquela época — e aí inventaram uma historinha para justificar. E vamos em frente, não tenho culpa dessas contradições da Bíblia.
Bom, além de matarem todos os homens, os israelitas levaram as mulheres e as crianças como prisioneiras, saquearam o gado e tocaram fogo nas casas e acampamentos midianitas. Voltaram vitoriosos para a planície de Moabe onde o povo de Israel estava acampado, levando os prisioneiros e o despojo de guerra para apresentarem a Moisés e Eleazar.
O líder e o sumo-sacerdote estavam reunidos com os líderes do povo quando viram o exército se aproximando e foram ao seu encontro. Vendo as mulheres midianitas no meio do exército, Moisés ficou muito puto:
— Q-que p-porra vo-vocês acham q-que e-estão f-fazendo???
— Ô, seu Moisés! Trouxemos umas mulézinha pra distrair a gente…
— D-DISTRAIR??? P-por causa d-dessas “mu-mulézinha” que Ja-Javé m-mandou uma e-epidemia que q-quase acaba com n-nossa r-raça!
— Ah, é…
— “Ah, é…”!
— Mas o que a gente faz agora, seu Moisés?
— Agora cês vão matar todos os meninos e as mulheres que não forem virgens e…
— Seu Moisés…
— NÃO ME INTERROMPA! Vão matar os meninos SIM, vão matar as rodadas SIM e não quero discussão, não quero saber de…
— Não é isso, seu Moisés, é que…
— CALA A BOCA! Tá querendo arrumar confusão comigo, seu fi…
— Seu Moisés, o senhor não tá gaguejando…
— …lho da p-p-p… C-como?
— Esquece…
— E-então. M-mas vo-vocês p-podem d-deixar vi-viver as m-meninas e as mu-mulheres vi-virgens. S-são de vo-vocês como p-prêmio pela vi-vitória.
— EBA! PUTARIA!
— P-putaria é o c-cacete! V-vai to-todo mundo se p-purificar p-primeiro.
Os soldados então tiveram que ficar fora do acampamento, assim como suas prisioneiras e todos os objetos que com eles estavam. Ficaram fora sete dias, cumprindo todos os rituais de purificação.
Quando os soldados puderam finalmente entrar no acampamento, primeiro cairam na gandaia. Depois deus passou a Moisés as regras para divisão dos despojos. Coisa simples: Moisés e Eleazar deveriam fazer uma lista de tudo o que havia sido tomado dos midianitas, incluindo aí as prisioneiras e os animais. Metade de tudo seria dos doze mil soldados, a outra metade deveria ser repartida entre o resto povo. Da parte pertencente aos soldados, 0,2% (um de cada quinhentos, tá certa minha conta?) seriam dados ao sumo sacerdote Eleazar. Da parte do povo, 2% (um de cada cinqüenta) seria entregue aos levitas.
Moisés e Eleazar listaram tudo e chegaram a esta tabela:

Tá, eu sei que está quase ilegível. Mas vocês têm que compreender que isso foi há MILHARES DE ANOS, ok? Bom, quem se deu bem nessa foi Eleazar. Trinta e duas virgens só pra ele. O velho Arão não viveu o suficiente para ter uma alegria dessa.
Depois que já estava tudo dividido, os oficiais do exército vieram trazer a Moisés e Eleazar todo o ouro que haviam saqueado em Midiã. A oferta era uma demonstração de agradecimento pelo exército de Israel não ter sofrido sequer uma baixa em sua primeira campanha importante. O peso total do ouro trazido pelos oficiais para o Tabernáculo foi de 191 quilos. Ouro a dar com pau.

De tudo se ri

Contei toda essa história aí embaixo pro pessoal aqui do escritório. Aí chega a Kely do RH, totalmente inocente da história, cantarolando uma música do Frejat: Por você/Eu limparia os trilhos do metrô
Ataques de riso, apesar de tudo.

No metrô

Ontem por volta das onze da noite, estava eu na estação Anhangabaú do metrô esperando o trem que me levaria confortavelmente através da cidade até minha casa. Acontece que o trem demorou e veio cheio demais. Como é anunciado repetidamente nos alto-falantes durante os horários de pico, “Na impossibilidade de embarque, aguarde o próximo trem. O intervalo médio entre trens é de apenas três minutos”. Foi o que fiz: resolvi esperar o trem seguinte. E enquanto esperava, lembrei-me do que sonhara na noite anterior.
No meu sonho, eu também estava na plataforma do metrô, só que na estação Santa Cecília. Enquanto os usuários esperavam o trem, funcionários do metrô conferiam os bilhetes de um por um. Uma coisa estranha, já que as catracas existem para isso, mas sonho é assim mesmo. Sei que no meu sonho havia duas ou três pessoas em pé no meio dos trilhos. Eu ouvia o trem chegando e tentava adverti-las, mas elas pareciam estranhamente alheias ao perigo.
Absorto na lembrança do sonho, mal notei o trem que se aproximava. Os primeiros vagões passaram por mim. “Oba, esse tá vazio”. O trem parou e eu me postei em frente à porta. Que não abriu, é claro: só metade do trem tinha entrado na plataforma, a outra metade ainda estava dentro do túnel. As luzes dos vagões se apagaram quase no mesmo instante em que um tumulto começou na outra ponta da plataforma. Homens correndo. “Pega!”, “Foi ele! Foi ele!”, “FILHO DA PUTA!”. Passaram por onde eu estava e subiram as escadas.
Ao contrário do que possa parecer, costumo ser otimista em relação à humanidade. Então concluí que o tal “Filho da puta” tinha acionado uma daquelas chaves de emergência da plataforma, parando o trem e atrasando a vida de todo mundo, motivo suficiente para levar uma boa surra. Mas esse meu conto de fadas foi descartado quando vi a funcionária do metrô descendo as escadas correndo, chamando a segurança pelo walkie-talkie e quase chorando. Dois vagões à minha frente, pessoas abaixavam-se e apontavam para os trilhos. O “Filho da puta” tinha jogado uma mulher nos trilhos quando o trem se aproximava. Assalto? Briga? Ninguém sabia dizer.
Não sou portador de curiosidade mórbida, então resolvi sair de lá e pegar um táxi. No corrimão da escada, grandes manchas de sangue fresco. O “Filho da puta” apanhara bastante antes de ser preso. Enquanto eu subia para o vale do Anhangabaú, o Metrô tratava de mostrar sua eficiência: funcionários de roupa verde acionavam os homens de preto que, calçando luvas amarelas, corriam para a plataforma para recolherem os restos da mulher e enfiar tudo num camburão azul. Não procurem a notícia nos jornais. A Companhia do Metropolitano de São Paulo é tudo aquilo que a cidade queria ser: moderna, eficiente, rápida, limpa e assustadoramente hipócrita.
Ando de metrô desde criança, e sempre ouvi falar de gente morta nos trilhos. Estive presente em duas ou três ocasiões em que suicidas sem senso comunitário resolveram se matar na hora do rush. Esse, no entanto, foi o primeiro homicídio de que ouvi falar. Ouvi falar o caralho, eu estava lá. Num caso ou no outro, as ocorrências nunca vazam para a imprensa.
Quanto ao sonho: todos sabem que sou cético, e cito com freqüência a Lei dos Números Muito Grandes, dentre outros verbetes do Dicionário Cético. Sei que ter sonhado com pessoas nos trilhos do metrô foi apenas coincidência. Mesmo assim não consigo evitar uma sensação incômoda, ainda mais por ter estado pensando no sonho no momento em que tudo aconteceu. Foi assustador.