Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em July de 2003

A tua presença morena

A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça
A tua presença
Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
A tua presença
Paralisa meu momento em que tudo começa
A tua presença
Desintegra e atualiza a minha presença
A tua presença
Envolve o meu tronco, meus braços e minhas pernas
A tua presença
É branca, verde, vermelha, azul e amarela
A tua presença
É negra, negra, negra
Negra, negra, negra
Negra, negra, negra
A tua presença
Transborda pelas portas e pelas janelas
A tua presença
Silencia os automóveis e as motocicletas
A tua presença
Se espalha no campo derrubando as cercas
A tua presença
É tudo o que se come
Tudo o que se reza
A tua presença
Coagula o jorro da noite sangrenta
A tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza
A tua presença
Mantém sempre teso o arco da promessa
A tua presença
Morena, morena, morena
Morena, morena, morena
Morena

(Caetano Veloso)

O Homem Que Copiava

Esta semana finalmente fui assistir a O Homem Que Copiava. Estou batendo a cabeça na parede até agora por ter adiado tanto: o filme é tão bom que até o Polzonoff gostou.
Confesso que ao ver o trailer senti-me totalmente desestimulado a ver o filme. “Parece filme americano”, lembro-me de ter pensado. Pois essa é justamente a principal qualidade do filme: nada de cenas como aquela do moleque morto no trilho do trem ou do mercado de órgãos em Central do Brasil, ou aquela das crianças armadas em Cidade de Deus, ou a do cara que vai vender os filhos pra comprar comida em Deus é Brasileiro, ou ainda aquela do cara morto dependurado nas grades em Carandiru. Essas cenas têm em comum a visão que a elite brasileira (cineastas inclusive) têm da miséria do país: algo exagerado, quase uma miséria rococó. E é isso que eles querem vender para o exterior. Não que no Brasil não exista gente vendendo os filhos, ou policiais matando garotos, ou crianças armadas: a questão é a naturalidade com que os outros personagens reagem a esses acontecimentos. Como se por aqui isso tudo já estivesse mesmo intistucionalizado. Oras, pelamordedeus! Se um cara vier me dizer que está indo vender os filhos, arrebento-lhe a cara, ou pelo menos mostro-me chocado. Não vou dizer “Oh, que coisa” e depois ir filmar longas e tediosas cenas de paisagem para vender para os gringos.
Bom, mas voltando ao filme: O Homem Que Copiava parece americano ao ignorar essas questões e encarregar-se apenas de contar — de forma primorosa — uma boa história. Meu mestre supremo, Stephen King, sempre diz que devemos falar do que conhecemos, por isso suas histórias se passam todas no Maine, seu estado natal. Jorge Furtado mostra que sabe muito bem disso ao ambientar sua história em Porto Alegre, em vez de tentar um dinheirinho do governo pra passar umas férias nas praias do Nordeste enquanto finge que faz um filme (alguém aí falou em Cacá Diegues?). O roteiro é excelente, sem preocupações excessivas com a verossimilhança (a vida nem é tão verossímil assim, então pra que se preocupar tanto?). Lida com as três formas de ganhar dinheiro fácil com que todos sonhamos. Não vou falar quais, pra não estragar o filme, mas uma delas é fazer dinheiro, como já está dito no título.
O elenco é excelente. Lázaro Ramos é um gigante, além de ser engraçado vê-lo lutando contra o sotaque baiano. Já repararam em baiano tentando fazer sotaque de paulista ou gaúcho? Sempre exageram nos “erres”, fica legal. Eu me apaixonei por Leandra Leal ao ver o filme, mas isso se deve à minha facilidade para me apaixonar ultimamente. Luana Piovani (Ah, Luana…) surpreende com uma atuação muito boa. E tem o Pedro Cardoso. Porra, que que eu vou falar do Pedro Cardoso??? O cara é deus! EU AMO PEDRO CARDOSO!
Pronto, passou.
Se você ainda não viu o filme você é bobo e feio. Vá correndo.

Pergunte para a vaca

Depois de um tempão de vai-não-vai, o Lelê finalmente resolveu a linha editorial do Pergunte para a vaca: Agora a vaca responde às dúvidas mais excruciantes (sei lá se é assim que se escreve) dos leitores. Vão lá e banhem-se na sabedoria do bovino.

Morte aos spammers

Não há coisa mais patética do que blogueiro que usa a caixa de comentários alheia para fazer propaganda. Vocês hão de pensar que isso é implicância dos blogs ditos “grandes” (como é que se mede o tamanho de um blog???), mas quando eu, o Pedro e o moskito criamos a campanha “Cabo de enxada no cu de quem pede link”, nossos blogs tinham meia dúzia de visitas por dia. E como que para comprovar que não é implicância da panelinha blogueira, mas antes a opinião de qualquer pessoa de bom senso, a Sarcástica fez dois banners que resumem muito bem meu pensamento sobre isso:

blogueirospammer.jpg

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Muito bem, moça! Vai pros Profetas e deve receber o formulário de adesão à Sacrossanta Panelinha Blogueira nos próximos dias. Não se esqueça de mandar o frasquinho de sangue e a mecha de cabelos, ok?

Que feio!

Procure uma coletânea do Fagner com a gravação original da música Canteiros. Revire sua cidade. Venha a São Paulo e entre em cada biboca procurando a música. Você não encontrará. Uma das poucas músicas realmente boas do cara e não pode ser encontrada em lugar algum. Nem adianta procurar a edição remasterizada em CD de Manera Frufru Manera, disco de 1973 que continha a música: Canteiros foi limada do CD.
Eu passei por essa via crucis há uns anos. Encontrei numa loja em Guarulhos, de um maluco que fazia coletâneas em CD a partir de velhos LPs. Ele tinha Canteiros numa das coletâneas (uma bem ruinzinha, aliás), e me explicou o motivo do aparente boicote à canção: plágio. Sim, a letra era chupinhada de um poema de Cecília Meirelles. A família da poeta processou e a música foi riscada do mapa.

Mas por que estou falando isso agora? Simples: Fagner acaba de ser condenado em outro processo por plágio, dessa vez pela música As Penas do Tiê, também do disco Manera Frufru Manera.

Que feio! O melhor trabalho da carreira do cara contém PELO MENOS dois plágios! Eu sempre duvidei do talento do Fagner, mas achava que esse disco o redimia. Agora sou tentado a pensar que ele nunca teve talento mesmo. A não ser que mão-leve seja considerado um talento, claro.

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)

Sim, eu sei que já postei esse poema. Mas é que o último post da Fer (cujo blog, aliás, tá de cara nova) me fez lembrar dele.

Sarcasmo

Fui dar uma olhada nos comentários do Emotionrélio e vi esse:

Pelo amor de Deus, QUE BLOG É ESSE? Achei muito original. Olha a minha cara de espanto!!!! Adorei!

Sarcasmo S.A.

Até agora não sei se devo ficar feliz ou não com o comentário. Um cara Uma mina (sou paulista, caralho) que assina como “Sarcasmo S.A.” só pode ter o intuito de confundir a mente das pessoas. Fui até o blog do cara da mina e é MUITO FODA. O último post, sobre o que acontece quando você procura “weapons of mass destruction” no Google, é um achado e tanto. E os banners? Puta que pariu!
Vou ler mais um pouco e depois mandar ali pros profetas. Apesar do sarcasmo.

Espuma

— Marco, o que você acha de terminar de pagar meu carro?
— Acho uma péssima idéia.
— Peraí, vamos negociar. Eu te dou o terreno na Serra dos Cristais.
— Aquilo não vale nada, pai.
— Mas tá valorizando! Tá valorizando!
Meu pai sempre tenta enfiar esse terreno da Serra dos Cristais em tudo que é negociação. Na época que eu namorava ele perguntou se eu não queria construir minha casa lá. A Bárbara não gostou muito da idéia, com razão: É um terreno no alto do morro, longe de tudo. Bom, de tudo não: é pertinho da cidade de Pirapora do Bom Jesus. Nomezinho bucólico, não? Pois é. Só que a cidadezinha sofre há anos com a espuma de detergente do rio Tietê. Lembro-me que quando meu pai comprou o terreno, em 1982, a espuma já estava lá. O vento que vinha do rio para a estrada trazia flocos de espuma suja, que grudava no pára-brisa dos carros. Era uma coisa nojenta de se ver.
Achei que esse problema não existisse mais, daí meu susto ao ver no Estadão esta semana as fotos da espuma invadindo Pirapora. Como bem reparou meu amigo Panda, as fotos parecem cenas de filme de ficção daqueles bem ruins. Uma cidade invadida pela espuma, que tipo de imbecil escreveria um roteiro desses? Pois não precisamos de roteiro nenhum, fica a apenas 54 quilômetros de São Paulo. O detergente é biodegradável mas, como diz a matéria, não se dilui em água sem oxigênio. E a água do Tietê — todo paulistano tem orgulho de dizer — tem nível ZERO de oxigênio.
Terreno na Serra dos Cristais? Melhor vender pra prefeitura de Pirapora. Porque logo logo eles vão ter que mudar a cidade para o alto do morro. Só assim para conseguirem fugir da espuma.

Sorte

Vocês viram o cara cujo pára-quedas não abriu, levando-o a enfrentar uma angustiante queda livre de 3.500 metros até ser amparado por uma mangueira e sofrer apenas algumas fraturas? Vai ter sorte assim lá na casa do caralho! Com minha saúde do jeito que está, sou capaz de morrer andando três quilômetros e meio, que dirá caindo

A Letra A

Cheguei em casa e o segundo pacote do Submarino desta semana me esperava sobre a mesa. “A Letra A”, do Nando Reis. Então desfiz o pacote às pressas, abri o compartimento do CD-player, tirei o CD do Coldplay e botei o do Nando. Antes de fechar o compartimento, um pensamento fugaz borboleteou pela minha mente: Coldplay, Nando Reis? Não é dar muita sopa pra tristeza não? E, pra piorar, pensamentos fugazes andam borboleteando por aqui, ou seja, estou virando bicha.
Bom, dando ou não sopa pra tristeza, Nando Reis vale a pena. Pelo caráter que tem, pela honestidade que transmite em tudo que diz e faz, pela voz que tem, pela poesia que produz, pela música que compõe, pelo violão, pelo contrabaixo. Nando Reis é daqueles caras que dizem as coisas que a gente queria dizer e não sabia como. Bah, a gente nem sabia que exisitiam palavras praquela tristezinha que às vezes chega a ser agradável, aquele nó na garganta que a gente nem percebe mais, aquela lágrima que teima em cair e a gente diz que é sono ou conjuntivite. E o faz de forma simples, em versos como “E agora que eu amo você / O mundo não precisa nunca mais girar”. O que é muito difícil, ainda mais nesta nossa era de compositores pretensiosos como Lenine, Zeca Baleiro, Chico César e toda aquela corja da Trama. Se simples fosse fácil, diz o mestre Erasmo Carlos, já teriam feito outro “Parabéns a você”
Ainda estou digerindo o disco novo. Primeira audição e acabo de chegar à metade do CD, mas já escolhi qual vai ser a música para ouvir sem parar, pelo menos por enquanto:

Hoje mesmo

O jeito que você arruma seu cabelo
procurando aquele efeito que o mundo
não quer reparar:
— revela tanto
E o tempo que demora para decidir
se aquilo que está ouvindo é
convincente para poder concordar
— e me deixa esperando
Eu posso esperar

Assim que eu entro, já no cumprimento
eu reconheço as múltiplas perguntas
que na ausência entram em meu lugar
Seus olhos fitam com medo
A única certeza que eu tenho é absurda
pois a dúvida sustento, por quê
não me mudar
pro seu apartamento
Hoje mesmo

Hoje eu vou sair por aí anunciando que o sol
não vai mais se deitar
As plantas gostam de chuva, mas por você
nem mesmo as nuvens teriam
razão de haver em nenhum lugar
Não…

Se um gênio perguntasse quais seriam
os meus três desejos, o primeiro:
— pra te ver aos dezesseis anos
Não há idéia que alcance ou seja parecida
com a imagem da menina
esguia, a bolsa a tiracolo
— e as pedras só pesando
Pois ela nunca irá jogá-las.

O seguinte, segundo desejo,
emoldurar no céu
o seu sorriso que eu pensei
que nunca mais pudesse reencontrar
O filho cria a mãe

E o último, complexo, honesto e genuíno,
amar sem precisar da dor,
querer também sem magoar
Tocar seu corpo
Hoje mesmo.

Não tenha medo!
O nosso amor é essencial
Nenhum amor é imortal
Eu gosto de você!

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