Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Fantasmas no Cérebro

Eu tenho essa mania de ler dois ou mais livros ao mesmo tempo (não ao mesmo tempo, um em cada mão, mas sim… Bah, vocês entenderam). Desde ontem, além do abaixo citado Só Deus Sabe, estou lendo Fantasmas no Cérebro – Uma investigação dos mistérios da mente humana, de V. S. Ramachandran, neurologista indiano, professor e diretor do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia. Estou bem no começo ainda, mas as histórias que li até agora já me causaram bastante espanto. Logo no início, por exemplo, ele trata de membros fantasmas, ou seja, casos de pessoas que tiveram membros amputados e no entanto continuam a senti-los. E não só isso: são capazes de “mover” ou sentir dor nos membros fantasmas. O Dr. Ramachandran desenvolve toda a noção de consciência do corpo e como ela se forma no cérebro. E propõe três experiências muito interessantes, que demonstram que a consciência que temos do próprio corpo não é tão sólida e definitiva como somos tentados a pensar. Vou transcrever aqui apenas a primeira (e menos estranha) das experiências:

(…)As experiências que discutimos até agora têm nos ajudado a entender o que está se passando no cérebro de pacientes com fantasmas e fornecido indicações sobre como poderíamos ajudar a aliviar sua dor. Mas aqui há uma mensagem mais prodfunda: o próprio corpo é um fantasma, que o cérebro construiu temporariamente por pura conveniência. Sei que isto parece espantoso, de forma que vou demonstrar-lhes a maleabilidade da sua imagem corporal e como se pode alterá-la profundamente em apenas alguns segundos. (…)
Para experimentar a primeira ilusão, você vai precisar de duas ajudantes (vamos chamá-las de Júlia e Mina). Sente-se numa cadeira, de olhos vendados, e peça a Júlia que se sente em outra a sua frente, voltada para a mesma direção que você. Faça Mina ficar em pé a seu lado direito e dê-lhe as seguintes instruções:
— Pegue minha mão direita e dirija meu dedo indicador para o nariz de Júlia. Movimente minha mão ritmicamente, de forma que meu indicador alise e bata de leve no nariz dela, numa seqüência aleatória, como numa mensagem em código Morse. Ao mesmo tempo, use sua mão esquerda e toque meu nariz no mesmo ritmo e seqüência. Os afagos e batidas no meu nariz e no de Júlia devem estar em perfeita sincronia.
Depois de 30 ou 40 segundos, se você tiver sorte, desenvolverá a fantástica ilusão de que está tocando seu próprio nariz ou de que seu nariz foi deslocado e estivado cerca de um metro em frente ao seu rosto. Quanto mais aleatótia e imprevisível for a seqüência de toques, mais impressionante será a ilusão. Esta é uma ilusão extraordinária; por que acontece? Sugiro que seu cérebro “observa” que as sensações de afagos e batidas do seu indicador direito estão perfeitamente sincornizadas com os afagos e batidas sentidos em seu nariz. Então ele diz:
— A batidinha no meu nariz é idêntica às sensações no meu dedo indicador; por que as duas seqüências são idênticas? A probabilidade de que isto seja uma coincidência é zero, e portanto a explicação mais provável é que meu dedo deve estar tocando meu próprio nariz. Mas eu também sei que minha mão está a 60 centímetros de distância do meu resto. Assim, conclui-se que meu nariz também deve estar ali, a 60 centímetros de distância.

TENTEM FAZER ISSO EM CASA, POR FAVOR! Dependendo do resultado, vou botando outras experiências aqui.

Só deus sabe

No começo deste mês recebi um e-mail de um leitor de Curitiba que assinava como Odissefs Sdoukos. Anteontem fiquei sabendo que não é pseudônimo: o cara é grego mesmo, adepto da prática do beijo grego, inclusive. No e-mail, um trecho do livro Só Deus Sabe, de Joseph Heller:

O pobre Moisés sentiu a carga do mau humor furioso de Deus, momentos depois de ouvir sua voz na moita ardente, anunciando a missão espantosa para a qual acabara de ser escolhido.

— Por—por—que eu??? Eu ga—ga—gaguejo!

— Quem disse que eu deveria ser simpático?— desafiou Deus. — Onde está escrito que eu tenho de ser gentil?

— Você não é um bom Deus?

— Onde está dito que eu tenho de ser bom? Não é suficiente que eu seja Deus? Não desperdice seu tempo com devaneios, Moisés. Ordenei a Abraão que fosse circuncidade quando já era adulto. Este é um ato de alguém que é gentil?

— Eu não sou cir—cir—cuncidado — lembrou Moisés, subitamente tremendo.

— Pois espere só — disse o Senhor rindo.

— Dó—dó—dói — choramingou Moisés!

— Onde está escrito que não haveria dor?

—É uma vida dura a que nos deu.

— E por que haveria de ser mole?

— É um mundo muito árduo.

— Por que deveria ser fácil?

— E por que nós deveríamos amá—lo e idolatrá—lo?

— Eu sou Deus. SOU QUEM SOU!

— As coisas serão melhores para nós se o fizermos?

— As coisas serão piores? Agora vá para o Egito e dia aos filhos de Israel que o Deus de seus antepassados quer que você os reúna e os tire de lá.

— Por que eles deveriam acreditar em mim? O que deverei lhes dizer quando me perguntarem o seu nome?

— SOU QUEM SOU.
— SOU QUEM SOU?
— SOU QUEM SOU!!!

— Quer que eu diga a eles que você é SOU QUEM SOU?

(…)

É claro que me interessei de cara pelo livro. Esse trecho em particular guarda semelhanças com minha própria versão do primeiro encontro de Moisés com deus. Então o Odissefs me explicou de que se tratava: à beira da morte, velho e doente, o rei Davi relembra sua vida gloriosa ao mesmo tempo em que insere alguns trechos da história do povo de Israel. Foi o que bastou para eu me interessar mais ainda. Comecei a procurar o livro por aqui, mas o Odissefs, provavelmente na expectativa de favores sexuais, comprou-o num sebo curitibano e me mandou pelo Sedex.
Um presente de grego muito, muito bom. O texto é bem humorado, às vezes escrachado, mas sempre fiel ao original. O autor toma certas liberdades com o espaço-tempo, o que dá ao texto um sabor muito original. Por exemplo: Davi passa o tempo todo reclamando de sua escultura feita por Michelangelo, ou das vezes em que Shakespeare o plagiou. Ótimo! Só que aí começam meus problemas também: o antigo proprietário do livro era uma dessas pessoas irritantes que grifam trechos enquanto lêem. E esse cara grifava com caneta vermelha. O que leva alguém a estragar um livro dessa maneira? Não só fica esteticamente feio, como estraga o prazer da releitura. É muito bom descobrir aspectos novos a cada vez que você lê um livro. Mas se na primeira leitura você sai sublinhando os trechos que acha importantes, quando for reler dará maior atenção a esses trechos novamente, deixando escapar talvez algumas surpresas preciosas.
E isso nem é pior: pior é que o cara sapecou pontos de interrogação gigantescos ao lado de cada trecho em que Davi fala de coisas ocorridas depois de seu tempo. Há um páragrafo quase inteiro em que ele fala de Freud, e imagino que o ex-proprietário do livro quase o rasgou de tanto ódio, tamanha a quantidade de pontos de interrogação. Uma triste e constrangedora demonstração de burrice e raciocínio restritivo.
Bom, o que importa é que o livro agora está em boas mãos, e me delicio com cada linha. Obrigado, Odissefs. Mas sem beijo grego, por favor.

Álbum de família

POOOOOOOOOOOOOVO DE CURITIBA!

Última chamada, galera. Quem quiser cair na gandaia com a gente em Curitiba, faça o favor de mandar um email. Oras.