Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Para uma menina querida demais

Então sua voz tão tênue saiu a muito custo da sua garganta, atravessou o bocal do telefone, percorreu quilômetros de fios, cortou a atmosfera e ricocheteou no satélite, sendo mandada aqui pra baixo de novo para cair em outro monte de fios de telefone até chegarem ao auscultador atrás do qual minha perplexidade se escondia.
E agora eu vivo com o coração do tamanho de uma castanha-do-pará. Você aí tão longe, e eu queria poder mandar um abraço pelo mesmo caminho pelo qual sua voz veio, mas parece que o abraço é muito grande para aquele fiozinho tão pequenininho, então fico aqui de abraço frustrado. Queria que pelo menos meu cabeção funcionasse direito e conseguisse formar um certo número de palavras e frases que fossem feito um abraço em código, aceitável aos padrões das telecomunicações internacionais, mas quem sou eu? Só o que consigo fazer e me entristecer com você, e ficar com raiva também, e sentir vontade de rir e de chorar. Porque conheço a sensação de sentir o chão faltar de repente, mas também já vivi o bastante para saber que isso afeta a cada um de forma distinta.
Ah, tão longe, tão longe! Só queria que você soubesse que a amo, e que estou sempre aqui para ouvir mais — isso se você ainda quiser falar alguma coisa para um inútil que nunca sabe o que dizer e só fica repetindo “que merda, que merda, caralho, que merda, puta que pariu, que merda, que merda, QUE MERDA!”.
Fique bem, menina linda. Você já alegrou minha vida tantas vezes, queria poder fazer o mesmo por você. Te amo, minha amiga querida.

Novamente

Me disse vai embora, eu não fui
Você não dá valor ao que possui
Enquanto sofre, o coração intui
Que ao mesmo tempo que magoa
O tempo, o tempo flui

E assim o sangue corre em cada veia
O vento brinca com os grãos de areia
Poetas cortejando a branca luz
E ao mesmo tempo que machuca o tempo me passeia

Quem sabe o que se dá em mim?
Quem sabe o que será de nós?
O tempo que antecipa o fim
Também desata os nós
Quem sabe soletrar adeus
Sem lágrimas, nenhuma dor
Os pássaros atrás do sol
As dunas de poeira

O céu de anil do pólo sul
Há dinamite no paiol
Não há limite no anormal
É que nem sempre o amor
É tão azul

A música preenche sua falta
Motivo dessa solidão sem fim
Se alinham pontos negros de nós dois
E arriscam uma fuga contra o tempo
O tempo salta


(Fred Martins / Alexandre Lemos)

As profecias

Tem dias que a gente se sente
um pouco talvez menos gente
um dia daqueles sem graça
de chuva cair na vidraça
um dia qualquer sem pensar
sentindo o futuro no ar
o ar carregado, sutil
um dia de maio ou abril
sem qualquer amigo do lado
sozinho, em silêncio, calado
com uma pergunta na alma:
por que nesta tarde tão calma
o tempo parece parado?

Está em qualquer profecia
dos sábios que viram o futuro
dos loucos que escrevem no muro,
das teias, do sonho remoto
estouro, explosão, maremoto,
a chama da guerra acesa
a fome sentada na mesa,
o copo com álcool no bar
um anjo surgindo no mar,
os selos de fogo, o eclipse
os símbolos do apocalipse,
os séculos de Nostradamus
e a fuga geral dos ciganos
está em qualquer profecia
que o mundo se acaba um dia.

Um gosto azedo na boca,
a moça que sonha, a louca
o homem que quer mas esquece
o mundo do dá ou do desce
está em qualquer profecia
que o mundo se acaba um dia
sem fogo, sem sangue e sem ais
o mundo dos nossos ancestrais
acaba sem guerras mortais,
sem glórias de mártir ferido
sem estrondo, mas com gemido
os selos de fogo, o eclipse,
os símbolos do apocalipse
a fuga geral dos ciganos
os séculos de Nostradamus
está em qualquer profecia
que o mundo se acaba um dia…

A primeira profecia de Balaão (Números 23:1-12)

Muito bem, onde é que estávamos? Ah, Balaque ofereceu sacrifícios a seus deuses, aquela coisa toda. Pois bem. Na manhã seguinte, Balaque levou Balaão até um lugar chamado Bamote-Baal, de onde se podia ver parte do acampamento dos israelitas. Balaão olhou, coçou o queixo e disse:
— Balaque, esse menino. Faça aqui sete altares de pedra e me arrume sete novilhos e sete carneiros.
Balaque tratou logo de dar as ordens, e em pouco tempo os altares estavam prontos, bem como os animais solicitados. Então Balaque e Balaão ofereceram em sacrifício um novilho e um carneiro em cada altar.
— E agora, Balaão?
— Agora você fica aqui um bocadinho, que eu vou ali ver se Javé me diz o que fazer.
— Balaão, essa sua intimidade aí com o deus dos israelitas, sei não…
— Fique calmo, Balaque. Eu volto já.
Balaão subiu até o alto de um monte onde deus já esperava por ele.
— Eita, Balaão! Sete novilhos e sete carneiros logo cedo? Cês tão querendo me agradar mesmo, hein?
— Pois é, Javé. Todo mundo sabe que seu negócio é sangue, então trouxe esse presentinho aí pra você.
— Muito obrigado, viu? Gostei muito.
— Fico feliz, Javé. Mas e então? O homem tá doidinho pra eu amaldiçoar os israelitas. O que eu faço.
— Tá com a viola aí?
— Mas que pergunta, Javé! Mais fácil eu arrancar um braço do que me separar da minha violinha.
— Muito bem. Então volta lá e canta esses versos aqui pra eles.
— Hum… Deixa eu ver… Eita, Javé! Não é por mal não, mas esses seus versos tão ruins de lascar. Não é melhor eu dar uma garibada não?
— Foi o que eu pude fazer na pressa, e é assim que você vai cantar.
— Tá bom. Só que eu vou falar pra todo mundo que os versos são seus.
— Tudo bem.
Balaão desceu do monte e encontrou Balaque ainda do lado dos altares, ansioso.
— E aí, Balaão? Falou com o tal Javé?
— Falei sim senhor.
— E aí? E aí?
— E aí que ele me mandou cantar uma cantiga. O senhor me dá licença?
— Er… Claro.
— Pois então… Arram… Lá vai:

Balaque, rei, coronel
Foi me buscar no Eufrates
Pra lhe ajudar no combate
E falar mal de Israel
Mas como posso eu só
Se eles são feito o pó:
Ninguém consegue contar
Os tais filhos de Jacó.

Eu não posso condenar
A quem deus abençoou
E foi Javé quem mandou
Eu vir aqui lhes falar:
Queria ser israelita
Ficaria bem na fita
Eles vão se dar muito bem
Ao contrário dos moabitas…

— Que porra é essa, Balaão? Eu te chamei foi pra amaldiçoar esse povo aí, não pra vir aqui falar bem dele!
— Sei de nada não, Seu Balaque. Os versos são de Javé, ele que me mandou cantar.
— Ô, rapaz… Será que a gente não pode tentar de novo?
— Por mim, tudo bem.
— Então vamos.
— Bora.

Dica musical

Você tem Kazaa ou outro programinha peer to peer pra caçar mp3? Tem bom gosto musical? Tem amor próprio, nem que seja um tiquinho? Então procure a versão de Stanley Jordan para Eleanor Rigby. Você vai me agradecer.

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