Ufa!
Acho que já deu por hoje, né? Chico Buarque, reflexões sobre a infinitude, Jean-Paul Sartre.
Pronto, gastei tudo. Falemos de boceta.
Acho que já deu por hoje, né? Chico Buarque, reflexões sobre a infinitude, Jean-Paul Sartre.
Pronto, gastei tudo. Falemos de boceta.
Se eu já não amasse o Pedro, passaria a amá-lo por ter me emprestado O Diabo e o Bom Deus, de Jean-Paul Sartre. Trata-se de uma peça de teatro ambientada (existe isto, “ambientada”?) na Alemanha Renascentista. Mas isso é só desculpa para provocar no leitor (ou expectador ESPECTADOR) uma profunda reflexão sobre a natureza do Bem e do Mal. Soa pesado? Pois não é! Leitura agradabilíssima, com momentos muito engraçados (a cena da venda das indulgências me fez rir sozinho no ônibus; eu sempre pago esse mico). E há um trecho no final que me fez chorar (e engasgar com uma fatia de pão com requeijão):
A leitura vale a pena. Recomendo uma garimpagem pelos sebos.
Bom, vocês já sabem, né? Terça-feira é dia de Daniela Santos no Clube da Lulu.
Tá, vou dar uma chance a vocês: Ouçam Chico Buarque na Rádio Jesus, me chicoteia!
Um monte de gente não entendeu qual é a do penúltimo post. Oras, caralho! É uma versão em prosa da música “O Meu Guri”, de Chico Buarque de Hollanda. “Ah, mas eu não sou obrigado a conhecer Chico Buarque mimimimimi“. É SIM!
Bom, aí vai a letra:
O Meu Guri
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Eu não sei como é que ainda não enlouquecemos todos. Comece a pensar em qualquer coisa; logo os pensamentos tomarão um ritmo vertiginoso. Você tenta pará-los e não consegue, e acaba sendo levado por eles, como que tragado por um buraco negro.
Agora há pouco, por exemplo, estava eu fazendo um esforço de depuração em busca de alívio para minha agonia intrínseca. Resumindo: tava cagando. E aí comecei a pensar em Jorge Luis Borges (vejam como sou pretensioso). Comecei a pensar que todo matemático, físico ou astrônomo deveria ser obrigado a ler Borges, pois ele é o único autor que eu conheço que consegue, através da literatura, dar uma idéia do que seja o infinito, tanto o infinito “grande” quanto o infinito “pequeno”. Os números, por exemplo.
Aí fodeu: sempre que começo a pensar nos números tenho a impressão de chegar ao limiar da loucura e só escapar dela por acaso. Se não vejamos: primeiro a gente aprende o 1, depois o 2, e o 3, e assim por diante. Um dia perguntamos a um adulto quando é que os números acabam e ele responde, como se fosse a coisa mais normal do mundo que não acabam. “Como não acabam?”, pensamos, “Como é que esse cara fala isso como se fosse pouca coisa?”.
Mas a seqüência numérica ser infinita em ambas as direções é até compreensível. O que sempre me fundiu a cabeça é a infinitude que há em qualquer intervalo numérico. Entre o 1 e o 2, por exemplo, que aprendemos tão cedo, existem infinitas frações. INFINITAS! São infinitos números, mas como, se há limites claros para eles??? Começa no 1, termina no 2, TEM QUE TER UMA QUANTIDADE CERTA, PORRA! Trace uma reta. Ponha o 1 numa ponta e o 2 na outra e tente aceitar que há infinitos números na reta. Aposto que você vai rasgar o papel.
Aí nego vai vir com a definição geométrica de ponto. O ponto geométrico é um trocinho tão pequeno, mas tão pequeno, que nem dimensões tem. Há infinitos pontos numa reta, ou semi-reta, ou segmento de reta, ou em qualquer figura geométrica com mais de uma dimensão. Mas peraí: como é que se pode do nada criar tudo? Quer dizer que se eu pegar um número infinito de zeros terei um número? Então os números nada são do que uma quantidade muito grande de nada? E isso se aplica a tudo que é infinito? Então tudo o que é infinito não passa de abastração? Quer dizer então que os números não existem? E deus? E o universo?
Bah, depois não sabem porque eu demoro no banheiro.
Então, seu moço. Esse menino nasceu antes do tempo. Nasceu de surpresa, aquela cara de fome. E eu nem tinha escolhido o nome pro danadinho ainda. Aí fui levando, né? Não sei como, mas fui levando. E ele foi ficando aí, sempre mirradinho, sempre daquele jeito. Lembro um dia que ele, bem pequeno ainda, chegou da rua, me olhou assim bem no olho, sabe?, e falou: “Mãe, um dia eu chego lá”. Sério demais da conta, o senhor precisava de ver. Ah, o meu guri…
Agora é assim: sai e não sei quando volta. Trabalha demais, coitado. Quando chega em casa é todo espavorido, suado, mas sempre sorrindo. E toda vez me traz algum agrado só pra me deixar sem graça. Já me deu tanta corrente de ouro que eu ia precisar de outro pescoço pra usar todas. Uma vez me trouxe uma bolsa. Linda, linda. Mas o senhor acha que era só uma bolsa, moço? Que nada! Uma bolsa recheada, completa: chave, caderneta, terço, patuá, lenço. Até documento tinha! Olha só, não sou mais indigente! Hehehe, esse guri…
Parece que tá se dando bem no trabalho, viu? Chega aqui no morro com cada carregamento, é coisa eletrônica, material de construção, coisa pra carro, jóia, tudo! Fico até agoniada; com tanto assalto por aí e o guri com essa responsabilidade toda. Quando ele demora a chegar, acendo uma vela e rezo pra Deus proteger ele. E quando ele chega é uma festa. Somos só nós dois, moço, então um ajuda o outro. Tem noites que ele deita no meu colo aqui no sofá e a gente conversa um tempão… Depois acaba os dois cochilando. Aí quando eu acordo de madrugada, cadê? Já foi trabalhar, o danado! Ê, guri!
E saiu até no jornal, sabia? Verdade! Não saiu o nome dele, só as, como é que chama?, iniciais. Mas já é alguma coisa, né? Tá começando a ficar famoso. Quer ver, peraí… Olha, moço, olha que lindeza! Uma pena terem tapado os olhos dele, mas tudo bem. Eu não disse no começo, moço? Ele disse que chegava lá! Olha aí, seu moço, olha aí! É o meu guri!
Adoro o Espírito Santo. Não, não a pessoa da Trindade: a unidade da Federação mesmo. Itaúnas é uma beleza, Piúma é foda. Cachoeiro de Itapemirim eu só conheço de passagem, mas amo do mesmo jeito, porque lá nasceram Rubem Braga e Roberto Carlos. Enfim, um estado abençoado.
Mas vocês sabem como é, tem sempre alguém pra estragar. O capixaba de que o Rafael fala neste post, por exemplo. Lamentável.