Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em March de 2003

Osmose

Tenho pensado em vários textos para escrever. Mas com esse negócio de mudança no escritório eu tenho convivido com tanta gente burra que meu cérebro está encolhendo. A arquiteta que coordena tudo comprou o diploma. E pagou barato. ARGH!
Então tenham paciência. Depois dessa mudança toda, vou me retirar para um spa mental, ver se consigo recuperar meus combalidos neurônios. Aí, quem sabe, isto aqui volte ao ritmo normal.

Ai ai…

Vocês viram Corinthians X São Paulo ontem?
Notaram a bandeirinha? Uma morena de coxas grossas e nariz atrevido?
Ana Paula Oliveira.
Estou apaixonado.

Ombudsman

Hoje é dia de Ombudsman Marcurélio no Clube da Lulu. Vão lá, porra!

Incapacidade

Eu sempre desconfiei, agora tenho certeza: Sou incapaz de aprender a dirigir. O primeiro dia foi uma beleza. Ontem foi um desastre. Não conseguia fazer o carro sair direito na ladeira. Talvez eu conseguisse, não fosse a desgraçada da instrutora (comemorei cedo demais) ficar me enchendo o saco. Filha da puta não tem paciência, apaporra.
É isso. Algumas pessoas não conseguem escrever nada que preste. E eu não consigo dirigir. A diferença é que tem muito nego por aí que mal consegue montar uma frase ganhando dinheiro como escritor. Eu jamais me atreveria a ser taxista ou motorista de caminhão. Merda de ética…

Direto ao ponto

Tudo muito bom, tudo muito bem. Todo mundo querendo ver Marcurélio feliz. Mas boquete que é bom ninguém me oferece. Assim não dá.

All the lonely people, where do they all belong?

Demorou, mas ela veio. Como um resfriado cuja chegada você adia com remédios, e quando chega vem com força redobrada, a tristeza que eu vinha evitando abateu-se sobre mim com todo seu furor estúpido.
Não sei o porquê. Nada de especial aconteceu hoje. Tive motivos fortíssimos para tristeza esta semana, e continuo muito triste com o que aconteceu. Mas esta é a outra tristeza. A que tem razão de ser: Algo ruim acontece, você fica triste. Causa e conseqüência. Algo com lógica.
A de agora é a velha tristeza, minha companheira desde sempre. Não tem razão de ser, apenas é parte das minhas características, tanto quanto a calvície, os dentes ruins ou o gosto pelas palavras. Às vezes eu mando nela, às vezes ela manda em mim. E hoje ela resolveu tomar as rédeas com toda a força.
E olha que eu tentei evitar. Mantive a mente ocupada o dia todo. Depois fui para a aula de volante (que foi uma lástima). Ainda sentindo o espreitar da melancolia, fui ao happy hour com o povo do Neurônio Descontrol. Muito bom, como de hábito. Mas nem encontrar esse pessoal espantou a tristeza. Mesmo a presença de Camila foi insuficiente.
Yadda yadda yadda, JMC virou diarinho, a avó do Panda de cueca.
Então vim no metrô ouvindo Aretha Franklin no meu discman. Quando desci na minha estação, Aretha começou a cantar Eleanor Rigby. E aí juntou tudo e eu comecei a chorar. Sim: Um gordo careca chorando numa estação do metrô. Não precisam me dizer nada, sei que é patético.
Comecei a pensar na minha solidão absoluta. Rob Fleming, personagem de Alta Fidelidade, diz que somente pessoas com uma determinada inclinação têm medo de ficar sozinhas pelo resto de suas vidas aos vinte e seis anos de idade. Eu sou, sem dúvida alguma, uma dessas pessoas. Sempre desconfiei que a solidão seria meu destino. Aos vinte e cinco anos, tive certeza. E às vésperas dos vinte e oito, o pouquinho de dúvida que eu tinha sumiu de vez. Hoje eu sei que vou morrer sozinho num apartamento barato no centro da cidade. E levará dias para alguém saber disso, só mesmo quando o cheiro do meu corpo em decomposição se tornar insuportável mesmo para minha vizinhança sórdida.

E a guerra, hein? Que coisa…

Nova saga

Aê, cambada. Vamos prestar atenção no fale com deus, que tá começando uma nova saga. E o jogo de poker entre deus, JC, José e Nietszche tá MUITO engraçado, com direito até aos poodles e vagabundas do Risadinha.

ALELUIA!!!

Jaime véve!

Marcurélio, o ás no volante (por favor, notem o trocadilho Tonônico)

Então, hoje fui dirigir no Bixiga. Para quem não sabe, Bixiga é um bairro aqui de São Paulo que se chama Bela Vista, onde temos cantinas italianas e a quadra da Vai-Vai. E não vuo explicar aqui por que chamam a Bela Vista de Bixiga.
Pois então, chegamos lá e a instrutora (sim! Uma mulher! Ainda bem!) foi logo me dizendo que as ruas por ali ficam movimentadas às quartas-feiras por causa das filmagens da Turma do Gueto. Hum. Ela só esqueceu de me avisar que uma das ruas pelas quais eu passaria dirigindo era de MÃO DUPLA, e que vários carros dirigidos por ASSASSINOS PSICOPATAS viriam tanto em sentido contrário quanto atrás de mim.
Mas tudo bem. Na minha primeira aula de violão não consegui tirar um mísero som do instrumento. Hoje consegui fazer o carro andar, dei três voltas no quarteirão e só deixei o bicho morrer uma vez.
Agora só faltam catorze aulas…

O Ano Sabático, o Jubileu e outras mumunhas (Levítico 25)

Ah, vocês já estavam achando que não tinha mais, né? Pois não se iludam, filisteus incrédulos! Depois de apedrejarem o cara lá, Moisés e Arão voltaram para o Tabernáculo para continuarem a conversa com deus.
— Aê, Ja-Javé. J-já ma-matamos o c-cara. V-vamos c-continuar? Ja-Javé? JA-JAVÉEEEEEEEEEEE!
— Te fresqueia, Moisés. O cara deixou um bilhete, olha aqui. Tá falando pra gente encontrar ele no Monte Sinai.
— N-no Si-Sinai? P-porra!
— Pois é. O feladaputa esquece que temos mais de oitenta anos, não temos mais pique pra ficar subindo montanha. Mas cê vai querer discutir com ele?
— E-eu n-não.
— Então vambora.
E os dois irmão partiram em direção ao monte. Chegaram ao topo quase mortos de cansaço.
— Ô, seus maricas! Não agüentam nem uma subidinha dessa?
— P-ra vo-você é f-fácil f-falar, Ja-Javé. V-vai pra o-onde q-quer q-quando q-quer. Co-como v-você f-faz isso?
— Ah, copiei de Star Wars. Aquele negócio lá de teletransporte que o Doutor Spock usa.
Javé mal acabara de falar quando um sujeito surgiu de trás de uma pedra. Cabelinho cuidadosamente penteado, roupinha engomada, óculos presos com um elástico na nuca.
— Aham… Perdoem-me interromper a conversa, mas tenho algumas correções a fazer. Primeiro, é Star Trek, não Star Wars. E é Senhor Spock, não Doutor Spock. Além do mais, o…
Ele não teve tempo de terminar: Foi reduzido a cinzas por um raio.
— Odeio trekkers. Ô raça. Mas onde é que a gente estava?
— Você eu não sei, Javé. A gente tava apedrejando um cara lá embaixo.
— Ah, é. Mas vamos continuar com as leis. Deixa eu ver aqui… Ah, o Ano Sabático. Seguinte: Lá em Canaã cês vão cultivar a terra normalmente por seis anos. Mas o sétimo ano será como um sábado para o solo: Vocês vão deixar a terra descansar. E será assim a cada sete anos: Nada de cultivo. E mesmo que cresça alguma coisa na terra por si só, vocês não vão poder colher.
— Péra, e a gente vai comer o quê? Maná?
— Mané maná! Chega da maná, dá um trampo danado fazer isso. Só de pensar que vou ter que mandar maná pra vocês por quarenta anos já me dá desgosto e…
— Q-QUÊ? Q-QUARENTA A-ANOS??? Cê t-tá di-dizendo que a-ainda v-vamos fi-ficar Q-QUARENTA A-ANOS va-vagando p-pelo de-deserto?
— Er… Aham… Claro que não Moisés, claro que não! Foi um erro de cálculos. Tenho que produzir maná por quarenta anos por razões contratuais, essas complicações legais, sabe?
— Hum.
— Então. Mas respondendo à primeira pergunta: No ano anterior ao Ano Sabático, a terra produzirá o suficiente para alimentar vocês no ano seguinte.
— É? E se não produzir?
— Porra, Arão, vai por mim. Eu sou é deus, tá me ouvindo? DEUS! Se eu tô dizendo que cês vão ter boas colheitas antes do Ano Sabático, é porque vão ter. Oras! E vamos em frente. Bom, cês vão contar, também a partir de quando chegarem a Canaã, sete semanas de anos.
— Se-semanas de a-anos?
— É, Moisés. Porra, não é difícil de entender. Quantos dias tem uma semana?
— Se-sete.
— Então! Uma semana de anos tem sete anos. E quantos anos são sete semanas de anos?
— …
— Sete vezes sete, Moisés!
— …
— ARGH! Arão, fala pra ele.
— Fácil! Sete vezes sete dá quarenta e sete.
— QUARENTA E NOVE!
— Bah, foi por pouco.
— Pfff… Bom. Então, quarenta e nove anos. No ano seguinte será o Jubileu.
— Po-porra, Ja-Javé, e-então p-por que não fa-fala l-logo a ca-cada ci-cinqüenta a-anos?
— Ah, quarenta e nove mais um você sabe fazer, né? Ignorante… Tá, a cada cinquüenta anos vocês terão o Jubileu. No Dia do Perdão do ano do Jubileu vocês vão mandar um homem tocar trombeta por todo o país. Vai ser uma turnê legal pro cara, e vai servir para anunciar o Jubileu. Esse será o ano da libertação: Todos os que tiverem sido vendidos como escravos voltarão para suas famílias, e todas as terras voltarão a pertencer a seus donos originais. Olha que beleza!
— Ah, uma beleza mesmo! Imagina, o cara é vendido e pensa: “Mas tudo bem, daqui a cinqüenta anos eu tô livre”…
— Má vontade sua, Arão. Se o cara foi vendido um ano antes do Jubileu, será libertado no ano seguinte.
— É, aí já é negócio.
— Tô falando, esse Jubileu é um puta negócio legal.
— É, mas tem um furo aí. Suponha que eu venda uma terra minha para o Moisés um ano antes do Jubileu. No Jubileu ele terá que me devolver a terra, certo?
— Certo.
— Puta prejuízo pro cara!
— É nada, já pensei nisso. O preço das terras será calculado com base nos anos que faltam para o próximo Jubileu. Quanto mais perto o Jubileu estiver, menor será o valor da terra.
— Boa…
— É, eu sou foda. E vamos em frente. Deixa eu ver aqui… Ah, leis a respeito de propriedades. Seguinte: Quando um terreno for vendido, seu antigo dono será o primeiro a ter o direito de comprá-lo. Se alguém ficar pobre e precisar vender parte de suas terras, um parente próximo deverá comprar de volta o que ele vendeu. Mas se ele não tiver parentes, e um dia voltar a ter dinheiro, terá prioridade na compra de suas antigas terras. E mesmo que ele permaneça na pindaíba, o terreno será devolvido a ele no ano do Jubileu.
— Q-que be-beleza! De-depois de a-apenas ci-cinqüenta a-anos!
— Não torra, Moisés, ou eu torro você.
— …
— HUMPF. Deixa eu continuar. Ah, essas leis não valem para casas que ficam em cidades muradas. Nesse caso, o antigo dono só tera prioridade de compra no primeiro ano, depois disso, bau-bau. Nem no Jubileu ele tem a casa de volta. A não ser que seja um levita, levitas têm privilégios, vocês sabem. Mas casas que fiquem em cidades sem muralhas são como terrenos, valem para elas as mesmas leis do Jubileu e coisa e tal. E é isso.
— Ah, foi rápido.
— É. Tem mais uns troços aqui, coisas sobre ajudar os pobres, não emprestar dinheiro a juros, tratar bem os escravos. Mas é tudo bobagem, passo pra vocês por email. Beleza?
— Be-beleza.
— Então vamos em frente, que falta pouco pra terminar o Levítico.

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