Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas em

Obediência e bênçãos; desobediência e castigos (Levítico 26)

— B-bom, Ja-Javé. V-vamos co-continuar?
— Vamos sim, Moisés. Mas antes eu quero dar uns toques aí pra vocês. Só reforçando umas coisinhas. Seguinte: Não façam imagens para adorarem. Guardem o sábado e respeitem o lugar de adoração.
— Javé, cê não acha que já falou bastante isso aí?
— Eu falo quantas vezes eu achar necessário. Eu sou é DEUS, porra! Arão, prestenção no que eu tô falando e fica quieto. Humpf. Bom, continuando: Se vocês me obedecerem direitinho, vão ter uma vida boa bagarai. As colheitas de vocês serão boas demais, tão boas que ainda estarão colhendo cereais quando chegar o tempo das uvas, e colhendo uvas quando chegar o tempo de semear os campos. Vocês viverão em paz, dormirão sossegados. Ninguém vai incomodar vocês. Nada de inimigos nem de animais selvagens. E se alguém mexer com vocês, será derrotado facilmente.
— Q-que be-beleza, hein Ja-Javé?
— Bota beleza nisso! Olha, as colheitas vão ser tão grandes que vocês vão ter que jogar fora o trigo velho pra poder armazenar o novo. Eu vou ser camarada de vocês, amigão mesmo. Vamos assistir futebol juntos no fim-de-semana. Jogar dominó e truco. Tomar umas. Vai ser muito bom. Porém…
— Ai ai…
— Pois é. Porém, se vocês resolverem me desobedecer, tão fodidos. Vou mandar doenças pra vocês. Não vai adiantar nada plantar, porque seus inimigos é que vão comer os alimentos produzidos pela sua terra. Eu vou ficar de mal de vocês e farei com que os inimigos os derrotem. E se mesmo assim vocês continuarem me desobedecendo, mandarei um castigo sete vezes pior. Acabarei com a força de vocês, não vou mais mandar chuva e o chão vai ficar duro. Vocês vão trabalhar o quanto quiserem, porque o campo não vai produzir nada. Quem sabe assim vocês se arrependem. Mas se não se arrependerem, tudo bem.
— Tudo bem? Opa!
— Tudo bem pra mim, é claro. Porque pra vocês o bicho vai pegar. Vou mandar animais selvagens invadirem as cidades de vocês. Eles vão matar seus filhos, vão acabar com seu gado. E se vocês continuarem teimando, o negócio piora: Vou mandar seus inimigos atacarem vocês. E se vocês se juntarem nas cidades para escaparem deles, eu farei com que sejam atacados por doenças graves, e serão capturados de qualquer forma. Vocês vão ter bem pouca comida, a fome vai acabar com vocês. Mas se mesmo assim…
— P-peraí, Ja-Javé! Aí j-já é d-demais! Ni-ninguém a-agüenta tanto c-castigo.
— Quer apostar, Moisés? Eu sei do que tô falando, vocês são um povinho muito do sem-vergonha e cabeça dura. E continuo: Se mesmo assim vocês continuarem me desafiando, a fome será tanta que vocês vão acabar devorando seus próprios filhos. E eu vou destruir os ídolos que vocês tiverem construído, e jogarei seus corpos sobre eles. Destruirei suas cidades e templos, e não aceitarei os sacrifícios de vocês. Vou arrasar tanto a terra de vocês que quem vier ocupá-las depois ficará até assustado. A guerra vai acabar com tudo, e vocês serão espalhados pelas outras terras. A terra de vocês vai ficar abandonada.
— Porra, Javé, pega leve.
— Pega leve é o cacete, ainda não terminei. Mesmo os que sobreviverem em outras terras não terão paz: Viverão com medo, assustados com qualquer barulhinho. Vão fugir mesmo sem que ninguém os persiga. Vão morrer em terras estrangeiras e lá serão enterrados.
— P-putz… Q-que t-triste i-isso, Ja-Javé.
— Eu sei, eu sei. Mas não se desespere tanto assim! Porque os descendentes de vocês vão se arrepender e voltar a obedecer minhas leis. Aí eu vou me lembrar do acordo que fiz com Abraão, Isaque e Jacó, e de como tirei vocês do Egito.
— Opa, Javé. Eles vão se arrepender? Cadê a condicional??? Quer dizer que essa desgraceira toda vai acontecer mesmo? Nossos descendentes vão sofrer tudo isso?
— Er… Hum… Veja bem…
— Fala, porra!
— Nah. Só um erro de construção de frase. Tô cansado, sabe…
— Sei, sei…
— Vão por mim, vai dar tudo certo. A vida de vocês em Canaã vai ser muito boa. Uma beleza. Uma maravilha. Bacanérrima. Supimpíssima. Sensacional.
— M-menos, Ja-Javé.
— Tá, parei.

Como criticar propriamente

Cansado de tantas críticas e ataques sem fundamento, pedi ao Walter, meu único crítico confiável, que elaborasse um Guia Para o Crítico Moderno. Ele prontamente atendeu à minha solicitação. Leiam com bastante atenção, e não se esqueçam de consultar o guia da próxima vez em que forem criticar alguém:

1. Faça uma coletânea de citações literário-filosóficas pseudo-intelectualóide-orgânicas para ilustrar sua crítica com metáforas eruditas, descoladas e inteligentes. O Google pode ser utilizado.

2. Estabeleça uma analogia entre o objeto da crítica e alguma cena de um filme cult europeu (de preferência, alemão) de 2 anos atrás que ninguém viu (e as 3 pessoas que estavam no cinema quando você foi assistir não lembram); melhor ainda se for uma cena boa, que só você achou ruim (“é a fotografia… não deviam ter utilizado Super 8 nessa cena” – claro, o jargão é fundamental!).

3. Situe o objeto de crítica no macro-contexto sócio-político-econômico nacional e internacional. Se você for de direita, diga que faz parte da perda dos grandes referenciais no contexto pós-ideológico por que passamos desde a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, representando uma tentativa de resgate dos valores humanistas abandonados com a despolarização global; se você for de esquerda, diga que faz parte da orquestração comandada pelo capital financeiro internacional, em conluio com o FMI e os Estados Unidos, em prol da subjugação dos movimentos populares questionadores do “status quo” nos países periféricos.

4. Nunca, mas nunca, em hipótese alguma, abra mão do Dicionário de Sinônimos.

5. Compare o objeto da crítica com alguma coisa que só você conhece. Além de ser cult, dá a vantagem de não poderem te questionar (pode ser uma cidade, um livro, a textura dos pêlos do seu Boxer… Qualquer coisa. O Diogo Mainardi, por exemplo, adora comparar tudo com Veneza).

6. Desqualifique pessoalmente o autor do objeto a ser criticado; nessa hora, vale tudo: dizer que ele é feio, gordo, bobo, narigudo, não pega ninguém, usa uma gravata muito feia, fede, tem mau hálito, usa um cabelo ridículo (ou não o tem), não consegue pronunciar os “S”, fala sempre uma determinada expressão, nunca faz a concordância, mora longe, come com as mãos (ou com talheres de prata, tanto faz), enfim, o importante é desqualificar o autor. Costumam ser particularmente eficazes trocadilhos com o nome (Ex.: Nicolalau, Malocci, Beto Bicha, Marta Suplício, etc.) e análises psicanalíticas da intenção subconsciente do autor (Ex.: “esse seu artigo revela uma agressividade oculta que é conseqüência de uma ausência de castração, o que causou uma fixação na fase anal e uma correspondente má-formação do superego. Em decorrência disso, percebe-se a sua permanência no estado narcísico primário e a sua dificuldade de auto-afirmação enquanto ego, enquanto sujeito, e mesmo enquanto homem, o que é reprimido e ao mesmo tempo libertado [sim, paradoxos incompreensíveis são sempre bem-vindos] por meio de ironias subliminares e sarcasmos não-intencionais).

7. Conclua com um: “Em suma…”

8. Agora é só rechear com o “isso daí tá tudo uma bosta!”, que você já estava com vontade de falar desde o começo.

Pronto! Agora você já sabe como fazer sua crítica com a graça e elegância da/do mulher/homem moderna/moderno!

A volta dos que não foram

Com a reforma do andar, o fumódromo passou a ser do lado oposto do prédio. Fui para lá, acendi meu cigarro e fiquei olhando pela janela. Instantes depois ele veio descendo em seu vôo circular.
— Ô mané! Andou sumido!
— É, as coisas mudaram por aqui. E tenho trabalhado muito.
— Sei. Pô, agora não tem mais como você ficar olhando o rio esperando ver suas queridas capivaras, né?
— Não ligo. Daqui eu vejo a Hípica, o mar de prédios, até a Paulista.
— Bah, essa sua cidade é horrível. Vista do alto parece um câncer que vai corroendo aos poucos o verde que há em volta.
— É, já vi São Paulo de cima. É feia mesmo.
— Pois é. Por falar em câncer, quando é que cê vai parar com esse vício?
— Quando passar a tristeza.
— Xi, tá ferrado… Bom, você já esteve numa sala de espera de quimioterapia, sabe como é. Não falo mais nada.
— Como você sabe disso?
— Cê é muito burro, hein? Eu sei o que você sabe. Já disse isso.
— É verdade. Mas ainda não entendi.
— Oh, que surpresa… Bom, mané, vou embora.
— Não vai querer um cigarro?
— Não estou a fim de morrer. Além do mais, odeio Lucky Strike. Tchau.
E saiu voando na direção do rio.

Atenção

Hoje é dia de artigo da minha genial cúmplice no Clube da Lulu. Não percam. Ela conseguiu se superar mais uma vez. *INVEJA CORROENDO*