Jesus, me chicoteia!

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As Festas Religiosas (Levítico 23)

— Muito bem, muito bem. Chega de leis. Vamos falar de festas agora.
— Fe-festas?
— Sim, Moisés. Fe-festas. Vocês acham que meu negócio é só trabalho, trabalho? Claro que não! Todo mundo precisa se divertir também. Então anotem aí as festas. A primeira, que vocês já conhecem bem, é o sábado: No sétimo dia da semana vocês não vão trabalhar.
— E isso lá é festa, Javé?
— Claro que é! Ou você prefere trabalhar direto, sem nenhum dia de folga? Oras! Cala a boca e vai anotando. Bom, outra festa é a Páscoa, no dia catorze do primeiro mês. Pra comemorar a saída do Egito, aquele negócio todo. No dia seguinte começa a Festa dos Pães Ázimos.
— P-pães o q-quê???
— Pães Ázimos. Pães sem fermento, seu ignorante. Então. Essa festa dura sete dias, durante os quais vocês comerão pão sem fermento. No primeiro dia da festa ninguém trabalha: Vão todos se reunir para dizer que eu sou bom, que eu sou demais, que eu faço e aconteço, que eu domino, que eu sou lindo, tesão, bonito e gostosão. Nos outros dias o povo trará ofertas de alimento aqui pro Tabernáculo. E no último dia farão outra reunião para me puxarem o saco.
— T-tá. E a fe-festa, é q-quando?
— A festa é isso aí, oras!
— Co-comer p-pão m-murcho e fi-ficar be-beijando seu ra-rabo?
— Cê prefere que eu te mate agora pra você ir beijar o rabo do capeta?
— …
— Ah, bom. Vamos em frente. A Festa das Primícias. Quando vocês já estiverem estabelecidos em Canaã e fizerem a primeira colheita, levarão um feixe do trigo colhido ao sacerdote. Ele apresentará esse feixe a mim.
— Como assim? “Feixe de trigo, esse é o Javé. É uma divindade cruel e despótica. Javé, esse é o feixe de trigo. É um… Bom, um feixe de trigo”. É isso?
— Arão, como você é abusado! Cáspita! É só pra trazer o feixe de trigo aqui, em sinal de agradecimento pela colheita.
— A-agradecimento? Cê v-vai pe-pegar no a-arado c-com a ge-gente?
— Mané pegar no arado! Vê se eu sou deus de pegar em arado… Eu vou é tornar a terra fértil para vocês.
— Ah… C-como? Va-vai ca-carregar e-esterco pra ge-gente?
— Tá me achando com cara de rola-bosta, Moisés? Negócio seguinte: Se eu quiser, vocês não colhem é porra nenhuma naquela terra! Sem mim fica tudo seco por lá!
— Ué… O povo de Canaã tem boas colheitas todos os anos, e nem te conhecem.
— É que… É que a colheita do… Do… Olha, vamos em frente com o negócio das festas que é melhor. Então. No mesmo dia em que trouxerem o feixe de trigo, vocês vão me trazer um carneirinho de um ano para ser completamente queimado. E apresentarão como oferta de alimento dois quilos de farinha com azeite e um litro de vinho. Não comam derivados do trigo enquanto não apresentarem essa oferta.
— Ah! Então a gente trabalha, ara a terra, semeia, aduba, irriga, combate as pragas, faz a colheita e o bonitão aí é o primeiro a comer? Não é justo!
— Porra, cês não eram assim! Lá no Egito os dois me obedeciam, faziam as coisas do jeito que eu mandava. Agora é toda hora esse negócio de querer bater de frente comigo. Tô ficando mole… Melhor cês pararem com isso. Pra mim não custa nada acabar com a raça de vocês e pegar outros dois zés-manés para serem líderes do povo. Entenderam?
— …
— Muito bem. Próxima: Festa da Colheita.
— ÔBA!
— “Ôba”?
— É, ué. Ôba.
— Por que “oba”, Arão?
— Hum… Eu ouvi dizer que lá em Canaã os caras têm uma festa da colheita. Tem bebida e comida à vontade, orgias, jogos, uma beleza!
— Mas que maravilha, hein, Arão!
— Pois é!
— A gente bem que podia fazer um negócio parecido, né?
— É!!!
— É O CARALHO! Quantas vezes eu vou ter que dizer que não quero que vocês sejam iguais aos caras de Canaã? Porra!
— Então não vai ter comida e bebida?
— Não.
— Jogos, orgia?
— Claro que não!
— Porra, Javé! Pelo menos um bolinho! Brigadeiro, cajuzinho, beijinho, essas coisas. Custa nada!
— Custa minha reputação, oras. Nada disso! A festa vai ser assim: Cinqüenta dias depois da Festa das Primícias, vocês apresentarão outra oferta de cereais. Cada família vai trazer dois pães de dois quilos cada, feitos com a melhor farinha e com fermento. Junto com os pães, ofereçam sete carneirinhos de um ano, um bezerro e dois carneiros adultos. Esses animais serão completamente queimados, juntamente com as ofertas de alimento. Além disso, oferecerão um bode para tirar pecados e dois carneirinhos como oferta de paz. O sacerdote oferecerá esses dois carneirinhos junto com os pães como uma oferta especial. Essa é uma oferta sagrada que pertence aos sacerdotes.
— Bom, pelo menos nessa festa eu como alguma coisa…
— Calaboca. O importante é que nesse dia vocês também vão se reunir pra me lamberem as bolas. E vamos em frente. Festa do Ano Novo. O primeiro dia do sétimo mês é um dia sagrado, festejado com trombetas.
— Pelo menos essa tem música…
— Pois é. E, claro: Vocês vão se reunir para lembrar o quanto eu sou bom e maravilhoso e coisa e tal. Não vão trabalhar, e apresentarão ofertas de alimento. Aí no dia dez desse mesmo mês é o Dia do Perdão, sobre o qual já falamos. Alguma dúvida quanto ao Dia do Perdão?
— Ne-nenhuma.
— Muito bem, vamos em frente então. No dia quinze do sétimo mês começa a Festa das Barracas.
— Barracas? Vai ser tipo uma quermesse?
— Que quermesse o quê! Prestenção. Haverá uma reunião sagrada no primeiro dia, ninguém trabalha. Vocês vão colher frutas das melhores árvores, e ramos de palmeiras e galhos de árvores. Aí em cada um dos sete dias vocês apresentarão ofertas de alimento. E no oitavo dia se reunirão novamente, e dirão que eu sou o melhor, que eu detono, que eu sou foda.
— T-tá. M-mas por quê Fe-Festa das B-Barracas?
— Ah, é. Sabe os ramos de palmeiras e galhos de árvores que vocês colheram? Então, vocês vão montar cabanas com eles. Durante os sete dias da festa, todos os israelitas morarão em cabanas, que é para se lembrarem para sempre do tempo em que moraram em barracas no deserto, logo depois de saírem do Egito. Entenderam?
— Sim. Mas tem uma coisa, Javé. Essas festas aí…
— Que que tem as festas?
— Bom. Com todo respeito, viu? Essas festas não parecem muito alegres não. É só comer pão sem fermento, morar em cabana de pau, oferecer sacrifícios… Onde é que fica a parte da festa propriamente dita?
— Comigo, oras! Vou comer do bom e do melhor, tomar vinho, ser bajulado por todo mundo. Vai ser uma beleza!
— Filho da puta…
— Hehehe…

Ele outra vez

Estava lá no fumódromo. Cantarolando Sonhos Sonhos São, e pensando nas coisas que escrevi, quase nem me lembrava da existência dele. Mas não durou muito: Logo ele apareceu, vindo das bandas de Santo Amaro, descendo em círculos preguiçosos até a altura do décimo-quinto andar.
— E aí, mané?
— Vai entrar?
— Depende. Que que cê tem aí?
— Marlboro.
— Ah, muito bom! Aquele Lucky Strike me embrulhou o estômago. E olha que meu estômago é forte. Dá um cigarro aí.
Empoleirou-se no friso da janela e ficou dando suas baforadas. Constrangido pelo silêncio, voltei a cantar.
— Que música é essa, mané?
Sonhos Sonhos São. Chico Buarque.
— Você canta mal, hein? Consegue deixar a música irreconhecível.
— Você conhece?
— Conheço tudo o que você conhece.
— Como?
— Um dia você vai entender. Por enquanto, não faça mais perguntas. Isso irrita. Basta a você saber que eu conheço a música. E que sei que você fica aí cantando e pensando naquela garota.
— Você a conhece também?
— Claro, oras. Ela mora aqui perto.
— É verdade. E vocês conversam?
— Não. Só pessoas de alma sombria conversam com os urubus.
— Ah.
— Mas e aí? Vai continuar pensando nela até quando? Não percebe que é inútil?
— Percebo. E se fosse fácil, já teria parado de pensar.
— É, tô sabendo. Mas você tem que decidir. Veja só, esse sentimento que você tanto alimentou enquanto estava em gestação acabou por nascer morto. E agora suas opções não são nada agradáveis: Pode enterrá-lo, e ficar dolorosamente cônscio de sua presença lá no fundo da mente; ou abandoná-lo ao relento, como pasto fácil para aves necrófagas. Você só não pode ficar acalentando essa criança morta. É doentio.
— Suas metáforas são sempre macabras assim?
— A morte é minha realidade.
— Faz sentido.
— Sempre faz sentido. Eu penso para falar, sabe? Ao contrário de você, que tem preguiça de botar seu cérebro supostamente evoluído para trabalhar.
— Vou ignorar a provocação. E pensar no que você disse antes.
— Pense, mané. Eu vou nessa.
E saiu voando seu vôo circular, ainda com o cigarro no bico.

Ei!

Calma, meninas. Estou de volta.