Como é triste fazer graça

Então no meio desse turbilhão de mau humor, resolvi tomar um remédio. E como os sintomas dessa vez são bastante sérios, resolvi tomar uma dose cavalar: O Sentido da Vida, do Monty Python. E uma coisa esquisita aconteceu: A cada piada genial, eu começava a chorar. Porque se já é bem triste fazer o humor rasteiro que faço aqui, imagino o quão doloroso deve ser fazer aquele tipo de humor sofisticado.
Todo palhaço é triste, porque percebe a vida como ela é de verdade: Ridícula, mais nada.

A corporação do mau humor

Tenho em minha mesa um troféu que ganhei no final de 2000. Muito bonito, de acrílico, traz escrito em azul: “DESTAQUES 2000 – Marco Aurélio Gois dos Santos – Senso de Humor”. Naquele ano, fizeram uma eleição para escolher funcionários que se destacavam em vários aspectos, e meus colegas me escolheram pelo senso de humor. Pode-se achar isso uma coisa meio besta, prêmio de consolação para quem frustrou a própria vida, mas foi recebido por mim com muito carinho e ostentado com certo orgulho.
De uns tempos para cá, no entanto, uma profunda mudança foi operada e o bom humor foi abolido da empresa. Os funcionários devem cultivar a sisudez e exercitar uma mentalidade cinzenta. Que pena. Meu troféu tão querido irá para a gaveta, juntamente com meu outro troféu (de viado), os vários brinquedos, as fotos engraçadinhas.
Vou me esforçar para mudar, a começar pela decoração da minha área de trabalho. Talvez grudar os Dez Mandamentos na minha mesa, botar o Sagrado Coração de Jesus como fundo de tela. E minhas fotos são mesmo muito inadequadas: Tenho cara de palhaço, o que não condiz com o cenário. Preciso procurar alguma foto que melhor se adapte ao ambiente. Adolf Hitler, talvez.

Camisetas

Seguinte: Tem um monte de gente me pedindo camiseta e parece que eu estou enrolando e tal. Não é nada disso. Fiz duas camisetas para mim, e ficaram uma merda. Com esse negócio de transfer fica parecendo que pegaram um adesivo retangular com o logo do blog e colaram na camiseta. É sério, tá feio pra caralho. Então, enquanto eu não arrumar um jeito de fazer camisetas decentes, nada feito.
Aceito sugestões.

Os israelitas ao pé do monte Sinai

Três meses depois da saída do Egito, os hebreus chegaram ao deserto do Sinai. Três meses andando de lá pra cá e nada de Terra Prometida. Moisés e Arão lideravam um povo impaciente. Vendo aquilo, deus resolveu interferir ligando para Moisés.
— Moisés, tenho duas coisas pra te falar.
— D-diz a-aí.
— Primeira: Muda o toque dessa porra de celular, que “I will survive” te compromete…
— T-tá b-bom.
— Segunda: Sobe o monte Sinai que eu vou te econtrar lá. Precisamos conversar a respeito desse povinho bunda aí.
Moisés mudou o toque do celular para o Nokia tune. Depois disso, pegou uns suprimentos e subiu o monte para falar com deus.
— Moisés, negócio seguinte: Cê vai falar praquele povo que eles viram muito bem o que eu fiz por eles. As pragas, a travessia do Mar Vermelho, a água saindo da rocha, o maná, as codornas, o…
— P-peraí. C-cê não v-vai co-colocar os li-links?
— Nah, mó preguiça… Mas eu dizia: Eles viram a presepada toda. Então. Se eles forem bonzinhos e me obedecerem, serão o meu povo escolhido.
— U-ué. M-mas vo-você já n-não é d-dono de to-todas as co-coisas?
— Hum. Er… Sou, claro que sou, sou! Eu sou é deus, não sou? SOU! Então. Mas Israel vai ser o meu povo, entende? O predileto do papai aqui, o protegido, o que vai ganhar os melhores presentes, o que vai fazer natação e judô, o que vai estudar em escola particular, o que vai…
— T-tá, já e-eeeentendi.
— Certo. Então eu vou conceder uma coletiva para os israelitas depois de amanhã, aqui mesmo no Sinai.
— L-legal! Pe-perguntas p-por e-escrito?
— Que perguntas? Não vai ter pergunta nenhuma não! Eu falo, vocês escutam. Perguntas! Era o que me faltava…
— U-ué, p-por que n-não?
— Porque sempre vai ter um babaca pra fazer aquelas perguntas de sempre: “Se deus é tão bom, porque existe tanta maldade no mundo?”. Ou: “Por que nascem tantas crianças defeituosas?”. Ou então: “Se é pra ser feita a vontade de deus de qualquer forma, de que adianta rezar”. Ou ainda: “Deus, nesse calor do deserto até elefante na bunda sua?”, “E quando o Nilo seca, crocodilo no seco anda?”, “No meio do deserto não seria bom para o senhor uma chuvinha em cima?”, ARGH! Fico puto com essas perguntinhas, sempre as mesmas. Portanto vai ser assim: Eu vou falar, falar, falar. Vocês vão escutar, escutar, escutar. E aplaudir no final. Beleza?
— B-beleza.
— Ah, Moisés, só mais uma coisinha: Esse povo tá aí vagando pelo deserto há três meses, sem tomar banho direito. Às vezes lá de cima eu sinto a catinga. Fala pra eles tomarem banho e lavarem as roupas antes da entrevista. Ah, e pra garantir, eles só vão poder ficar ali no sopé. Quem encostar no monte será condenado à morte.
— Q-que e-exagero!
— Exagero porra nenhuma! Sou um deus limpinho, não suporto gente suja e maltrapilha. Agora vai e prepara tudo. Avisa pra eles só chegarem perto quando ouvirem meu saxofone.
— S-sa-saxofone?
— É, tô fazendo aula, mó barato. Cê vai ver. Por enquanto, vai lá e avisa os caras.
Moisés desceu o monte e tratou logo de mandar um e-mail para israelitas@exodo.org avisando sobre a entrevista coletiva e os preparativos necessários.
Dois dias depois, uma nuvem escura desceu sobre o Sinai. Trovões, relâmpagos. De repente, um som de saxofone muito mal tocado saiu de dentro da nuvem. Uma coisa remotamente parecida com Kenny G, que já é suficientemente ruim quando bem tocado. Todos os israelitas ficaram com medo de chegar perto do monte e ficarem surdos. Mas Moisés tanto insistiu que eles acabaram se aproximando. O Sinai estava soltando fumaça e o som do saxofone ficava cada vez mais alto e distorcido. Querendo acabar logo com aquela tortura, Moisés ligou para deus:
— J-J-Ja-Javé, e-estamos aqui n-no pé d-do mo-monte. P-pode pa-parar de t-tocar.
— Ôpa, legal. Sobe aqui Moisés. Só você, hein? Se mais alguém subir, morre.
Moisés começou a subir o monte. Oitenta anos de idade, aquela subida escarpada, chegou lá em cima com a língua pra fora.
— Já chegou Moisés? Legal. Agora desce lá e chama o Arão, que eu quero falar com ele também.
— N-não p-preciso de-descer. Eu l-ligo p-pra ele…
— Não! Eu quero que você desça e chame o cara.
— M-mas p-por quê???
— Porque eu me divirto com isso, Moisés. Vai lá.
“Filho da puta”, pensou Moisés, e começou a descer novamente.
— Moisés?
— F-fala.
— Ouvi o que você pensou. Melhor não abusar, viu?
— B-bah!
Quando Moisés já estava lá embaixo procurando Arão, deus falou com o povo. O que ele disse? Ah, um negócio tão legal que merece um capítulo próprio. Fica pra depois.