Dia dos Pais

Só quando meu pai morreu descobri que esse era o hino preferido dele na Congregação Cristã no Brasil. Eu não sei se Deus existe, mas tenho certeza que Ele escolheu meu pai e que revelou a ele coisas de que a gente nem suspeita.

Dos senhores és Senhor, a Ti daremos, sem cessar,
Toda honra e louvor, de coração,
Pois quiseste aos pequenos Teus tesouros revelar,
Pelo Teu amor e imensa compaixão

Teus tesouros revelaste
Aos humildes que chamaste,
E por graça os adotaste
Filhos Teus, por Jesus Cristo, o Salvador.

Teus tesouros ocultaste para os sábios, ó Senhor,
Mas Te aprouve revelá-los para nós
E também a todo aquele que se achega ao Redentor,
Atendendo, humildemente, a Sua voz.

Anunciamos neste mundo que Jesus é o Salvador,
Que com graça O enviaste, ó bom Deus;
Mesmo que aqui sejamos odiados, ó Senhor
Nós teremos grande galardão nos céus

Entrevista do baú

Em maio de 2003, conforme esse post, eu dei uma entrevista ao Sr. Paulo Polzonoff Jr. A entrevista foi publicada e, como tudo o que o Polzonoff já publicou na internet, apagada depois. Hoje eu encontrei essa preciosidade e, não tendo onde enfiá-la, mostro aqui pra vocês. Ei-la:

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Paulo Polzonoff Jr.: Marco Aurélio, como surgiu a idéia de montar a Jesus Me Chicoteia Inc?

Marco Aurélio: Eu tive uma epifania. Estava no banheiro desfrutando as delícias do papel higiênico de pêfego quando ouvi uma voz vindo do alto. Olhei para cima, e era de dentro do chuveiro que vinha a voz, dizendo:

— MARCO AURÉLIO, MEU FILHO! PARE DE FAZER MERDA!

— Agora não dá, pô! — tentei argumentar, mas não adiantou. O dono da voz continuou:

— Eu sou é Deus, tá me ouvindo? DEUS!!! Vim até aqui chamá-lo para ser meu profeta

— Sei. De dentro do encanamento?

— Acabo com a tua raça, seu mequetrefe — o cara, fosse quem fosse, parecia deveras emputecido.

— Como? Jogando um jato de água quente e outro de água fria até eu morrer de choque térmico?

— ESCUTA AQUI Ô COISA RUIM! NÃO TENHO TEMPO A PERDER COM UM ZÉ MANÉ FEITO VOCÊ! VAI ME OUVIR OU NÃO?

— Vai falando, vai falando.

— Seguinte: Você vai reescrever a bíblia.

— Reescrever a bíblia?

— É. Para divulgar minha palavra na Internet.

— Divulgar sua palavra na Internet?

— PÁRA DE REPETIR O QUE EU FALO, PORRA!

— Ok, ok. Mas tem uma coisa aí, Jeová: eu sou ateu, tá sabendo?

— Sei. E não ligo. Trate logo de ir escrevendo.

— E se eu não quiser?

— Hum… Leia I Samuel 5

— I Samuel 5… Peraí, não é aquela história de quando Deus mandou uma praga de hemorróidas para a Filistia?

— …

— Tá, tá eu escrevo.

— Assim que eu gosto. Bom, vou nessa. Té mais.

Bom, foi isso. Criei o JMC para salvar meu rabo

 

PP: Como empreededor de sucesso, o que vc já conseguiu de bens materiais graças ao seu multimilionário blog?

MA: Hum… Hospedagem e comida grátis nas viagens que faço. Mas estou pensando numa maneira de lucrar com o JMC. Lavando dinheiro, talvez. Ou então cobrando dízimo dos fiéis, o que vem a dar na mesma.

 

PP: Todo mundo quer saber: é verdade que graças ao blog vc já comeu a Sônia Abrão?

MA:  Ainda não. AINDA! Mas está nos meus planos. Não posso deixar escapar uma mulher que, além de inteligente, gostosa e talentosa, ainda tem nome de patriarca no nome.

 

PP: Você pode nos fazer uma lista das celebridades nas quais vc já passou o rodo depois de se tornar também uma celebridade?

MA: “Passou o rodo”? Que porra de expressão é essa?

 

PP: Recentemente, em uma visita ao Rio de Janeiro, vc esteve com a governadora Rosinha. É verdade que ela lhe pediu para ser mais crente no JMC?

MA: É verdade. Aí eu respondi que o faria assim que ela começasse a governar o estado do Rio de Janeiro. Ela desconversou.

 

PP: Por falar nisso, vc recebe muitas cartas de crentes enfurecidos com suas blasfêmias? O que vc tem a dizer a eles?

MA: Recebo, recebo. O que dizer a essa gente? Vão rezar pela minha alma, ó caralho! Não são nada piedosos, esses fundamentalistas.

 

PP: Já comeu alguma crente?

MA: Já. Comidinha de primeira, e já vem abençoada.

 

PP: É verdade que vc está pensando em fundar uma seita religiosa?

MA: Ué, uma seita pode ser não-religiosa? Hum… Mas tenho pensado sim. Acho que é o melhor jeito de se ganhar dinheiro rápido hoje, depois de acertar os números da MegaSena. Isso sem contar que eu vou comer tudo quanto é vagabunda.

 

PP: Há quem o acuse de plágio em suas paródias da Bíblia. O que vc tem a dizer ao Autor das Escrituras?

MA: Ele que me processe. Quero ver ele ter a manha de ir buscar um advogado no inferno.

 

PP: Dizem que vc recebeu o maior cachê jamais pago para escrever a orelha do livro da Daniela Abade. É verdade? De quanto foi o cachê? Vc não tem pena dos escritores coitadinhos?

MA: Só falo na presença dos meus advogados. Mas foi um bom dinheiro. Digamos que deu pra comprar uma mariola e ainda voltar de ônibus pra casa. Quanto aos escritores, que se fodam. Como de hábito.

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PP: Vc já comeu a Daniela Abade?

MA:  Está entre os meus projetos futuros. Belos peitos.

 

PP: É verdade que a Avon o está contratando para uma nova campanha publicitária, por causa do seu rosto bonitinho e simpático?

MA:  Sim, é verdade. E também serei dublê de bunda para comerciais de produtos anti-celulite.

 

PP: Vc já usou pó da Avon? Dizem que vc foi viciado, mas Jesus te curou.

MA: Você está me confundindo com o Fernandinho Beiramar. Todos fazem isso.

 

PP: Vc já teve experiências homossexuais?

MA: Não.

 

PP: Vc é coprófilo? Tem cara…

MA: Te comi? Não, né? Portanto não sou coprófilo.

 

PP: Vc é bicha?

MA: Não.

 

PP: Vc é veado?

MA: Não.

 

PP: Vc dá a bunda?

MA: Só nas horas pares dos dias ímpares, exceto nos anos bissextos terminados em 8.

 

PP:  O que vc tem a dizer aos milhares de fãs idiotas do seu blog idiota?

MA: Continuem sendo idiotas nesse nível, por favor. Se ficarem mais idiotas que isso correm o risco de começarem a ler o Polzonoff.

Salto no escuro

“Deus proverá”, meu pai sempre dizia. Hoje eu resolvi testar.

Quase exatamente dez anos atrás, eu estava trabalhando num lugar que me fazia mal, acabando com a minha saúde e corroendo a alma dia a dia. Então decidi que não ia chegar aos 30 anos fazendo o que não gostava. Pedi demissão e foi a melhor decisão da minha vida: arrumei outro emprego em seguida para fazer algo agradável, esse emprego abriu outras portas, cheguei aqui, estava bem.

ESTAVA bem.

Comecei a sofrer de novo, minha saúde afetada, meu bom humor inexistente. Faltam duas semanas para eu chegar aos 40 anos. Então hoje eu pedi demissão.

Foram mais de 6 anos de CQC. Fiz amigos, aprendi muito. Acabou.

Estou morrendo de medo, mas feliz como não ficava há muito tempo. Acho que é a nova melhor decisão da minha vida.

Pitbulls

Uma vez minha cunhada achou um pitbull andando aqui na nossa rua. Eu fiquei só olhando pela janela. Nunca tinha chegado perto de um pitbull, só conhecia a reputação da raça. Eu tinha medo.

Minha cunhada é veterinária. Ela me disse que precisava sedar o cachorro para cuidar dele. Ele tinha sangue coagulado no pescoço e no peito. O pescoço tinha furos a intervalos regulares. “Arame farpado”, ela disse. Eu não entendi, então ela me explicou: os furos eram porque a pessoa excelente, imagem e semelhança de Deus que havia abandonado o cachorro, tinha esse costume de amarrar o bicho com arame farpado.

Ela deu sedativos enrolados em carne para o cachorro. Aumentava a dose e nada do bicho dormir. Então veio o que eu mais tinha medo: ela ia ter que dar uma injeção num pitbull, e precisava da minha ajuda.

Na primeira picada, ele arrebentou a focinheira. Em nenhum momento ele fez menção de nos morder, só tentou fugir pra dentro de casa.

Algumas tentativas depois, ela conseguiu botar o cachorro pra dormir. Eu ajudei a cuidar dele. Estava cheio de carrapatos, de berne e tinha uma bicheira em cada furo do pescoço (bicheira é um amontoado de larvas de mosca incrustado na carne, a única coisa que eu conheço que é mais nojenta do que berne).

Quando acordou, o cachorro já tinha um nome, dado pela minha outra cunhada: Brucutu. Ele passou um tempo lá. Um mês ou dois, sei lá. Eu passava por lá, dava um bifinho ou um coco (coco é o único brinquedo de morder capaz de resistir mais de cinco minutos com um pitbull).

Brucutu foi adotado por um rapaz simpático. Ele dorme na cama do dono e deita a cabeçorra no colo da mãe dele quando ela senta pra fazer tricô.

Eu nunca tinha ligado pra cachorro na minha vida. Nessa época, cheguei a pensar em adotar o Brucutu. Não deu, mas quando o Rondeli apareceu abandonado aqui na vizinhança, eu não deixei escapar. Foi a melhor decisão que tomei na vida.

Aprendi que cachorros precisam de companhia humana. Nós inventamos o cachorro pra isso. Depois de quatro anos com o Rondeli, aprendi também que a gente precisa de companhia canina.

Lendo esse artigo aqui, lembrei do Brucutu. Ele sofreu tanto nas mãos das pessoas, mas nunca pegou raiva da nossa espécie. Pitbulls não são monstros: são cachorros e precisam de companhia.

(e se você quer um cachorro, adote)

Bar Mitzvah

Hoje este blog chega aos 13 anos. Já não é nem sombra do que já foi, mas mantenho o bicho no ar só porque devo muito a ele. Parabéns pro JMC, parabéns para mim.

Monte Santo pelos olhos do meu pai

IMG_5753Em agosto de 2009, pouco mais de um ano antes de morrer, meu pai voltou a Monte Santo. Monte Santo é aquela cidade no sertão da Bahia onde aconteceu a história do capoeirista. Não foi a primeira vez que Seu Lindauro voltou à terra natal. Só que dessa vez teve um detalhe: ele levou uma câmera, uma Canon Powershot A710 emprestada pela Ana Carlota. Acho que ele nunca tinha usado uma câmera antes.

Hoje abri esse álbum de fotos e fiquei olhando cada uma devagar. Meu pai viajou com a irmã, e tem fotos que foram tiradas por ela. Gosto de imaginar que ele fez todas as fotos em que não aparece. Não sei bem quem são essas pessoas. Meu pai explicou na época, não guardei nada. Muitas dessas fotos parecem clichês de filme nacional de seca. Não ligo. Em cada rosto desses aí, de gente bruta, vejo traços dos meus avós, do meu pai e dos meus tios, meus, dos meus irmãos, dos meus primos, dos meus sobrinhos. Fico pensando que estou vendo Monte Santo, que nunca conheci, pelos olhos do meu pai, saudosos de infância. E que a existência dele, que foi tão curta aqui na Terra, se projeta no presente e no futuro, sobre nós que ficamos aqui miudinhos de saudade.

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Re: Re: Res: Re: Fwd: Re: A Bíblia Sacaneada

Mudei o blog pra outro servidor servidor e neguinho começou a reclamar que os links para os arquivos PDF estavam quebrados. Só vi os comentários hoje e tratei de consertar. Aqui estão eles.

 

Samaritanos de Facebook

Acabo de saber que além do povo que protesta pelo Twitter e acha que tá mudando o mundo (não sei pra que mudar o mundo, mas vá lá), existe gente muito pior, que “ajuda” bichos pelo Facebook. Nego vê um cachorro atropelado na rua e posta no Facebook. “Gentem, vi um cachorro atropelado, tá bem machucadinho, coitado. Será que alguém pode ajudar? Se ninguém ajudar, o pobrezinho vai morrer.” AJUDA VOCÊ, FILHO DA PUTA! VOCÊ VIU O BICHO SOFRENDO, NÃO FEZ PORRA NENHUMA E AINDA ACHA QUE É UMA BOA PESSOA PORQUE POSTOU ISSO NO FACEBOOK! MOSTRAR QUE É LEGAL É MAIS IMPORTANTE PRA VOCÊ DO QUE UM PRATICAR ATO ANÔNIMO DE BONDADE! VOCÊ É UM MONSTRO! MORRA COM UM TIRO NO CU!

Ai, gente. Eu fico TÃO nervosa…

Seleção natural

As idéias precisam encontrar outras idéias diferentes delas, de outra linhagem. Aí elas podem se conhecer e ter ideiazinhas filhotes. Só que o que mais se vê é gente que só convive com quem tem idéias iguais. Essas idéias da mesma linhagem ficam se reproduzindo.Essa reprodução consangüínea é que gera as ideiazinhas retardadas que a gente é obrigado a aturar todo dia.

Todo mundo conhece gente que votou no outro candidato. Vai lá, conversa, tenta entender. Tem coisas boas lá, garanto.

Carteira

Hoje eu perdi minha carteira.

Passei o dia tentando perder a carteira. Primeiro ia saindo de casa sem ela. Mais tarde, tirei ela do bolso e abri na frente de um craqueiro. Depois deixei o carro no estacionamento, saí, percebi que estava sem carteira, voltei, procurei e não achei. “Olhou no porta-luvas?”, perguntou o manobrista. Eu nunca boto a carteira no porta-luvas. Mas abri, e lá estava ela.

Fui trabalhar, saí para almoçar com a Lilla (na verdade eu fui almoçar, ela é peã e almoça às nove e meia da manhã ou algo assim, só tomou uma coca). Paguei a conta, depois paguei o estacionamento com dinheiro que tirei da carteira e voltei para o trabalho.

Depois disso não lembro mais. Na hora de sair do trabalho fui procurar a carteira e não achei. “Deve ter ficado no carro”, pensei. Entrei no carro, lembrei que precisa comprar umas coisas na Kalunga e esqueci de procurar a carteira. Saí de Perdizes e fui até a Rebouças. Já no estacionamento da Kalunga lembrei de procurar a carteira. Não estava no carro, não estava na mochila. Voltei para o trabalho: não estava na minha sala. Desci, o segurança havia trancado a porta que dá acesso à minha sala. Esmurrei a porta, saí xingando, bati a porta da produtora, en-lou-que-ci-da. Fui até o estacionamento da hora do almoço, não tinham achado carteira nenhuma. Voltei para a produtora, perguntei aos seguranças da rua, vasculhei o carro mais uma vez. Entrei na produtora, pedi desculpas ao segurança, subi de novo até minha sala, procurei de novo, nada. Procurei o telefone do prédio onde a Lilla trabalha, liguei, não sabiam de carteira nenhuma. Desci, pedi desculpas de novo ao segurança, vasculhei o carro mais uma vez.

Já cancelei os cartões, pedi segundas vias ao Detran e ao plano de saúde. Tinha algum dinheiro na carteira, paciência. O que me dói mesmo é a carteira. Passei anos procurando uma carteira de que gostasse, em que coubessem as poucas coisas que carrego. Encontrei há coisa de um mês. Aí hoje eu perdi minha carteira.

Idiota.