Samaritanos de Facebook 2

Acabo de saber que além do povo que protesta pelo Twitter e acha que tá mudando o mundo (não sei pra que mudar o mundo, mas vá lá), existe gente muito pior, que “ajuda” bichos pelo Facebook. Nego vê um cachorro atropelado na rua e posta no Facebook. “Gentem, vi um cachorro atropelado, tá bem machucadinho, coitado. Será que alguém pode ajudar? Se ninguém ajudar, o pobrezinho vai morrer.” AJUDA VOCÊ, FILHO DA PUTA! VOCÊ VIU O BICHO SOFRENDO, NÃO FEZ PORRA NENHUMA E AINDA ACHA QUE É UMA BOA PESSOA PORQUE POSTOU ISSO NO FACEBOOK! MOSTRAR QUE É LEGAL É MAIS IMPORTANTE PRA VOCÊ DO QUE UM PRATICAR ATO ANÔNIMO DE BONDADE! VOCÊ É UM MONSTRO! MORRA COM UM TIRO NO CU!

Ai, gente. Eu fico TÃO nervosa…

Seleção natural

As idéias precisam encontrar outras idéias diferentes delas, de outra linhagem. Aí elas podem se conhecer e ter ideiazinhas filhotes. Só que o que mais se vê é gente que só convive com quem tem idéias iguais. Essas idéias da mesma linhagem ficam se reproduzindo.Essa reprodução consangüínea é que gera as ideiazinhas retardadas que a gente é obrigado a aturar todo dia.

Todo mundo conhece gente que votou no outro candidato. Vai lá, conversa, tenta entender. Tem coisas boas lá, garanto.

Carteira 5

Hoje eu perdi minha carteira.

Passei o dia tentando perder a carteira. Primeiro ia saindo de casa sem ela. Mais tarde, tirei ela do bolso e abri na frente de um craqueiro. Depois deixei o carro no estacionamento, saí, percebi que estava sem carteira, voltei, procurei e não achei. “Olhou no porta-luvas?”, perguntou o manobrista. Eu nunca boto a carteira no porta-luvas. Mas abri, e lá estava ela.

Fui trabalhar, saí para almoçar com a Lilla (na verdade eu fui almoçar, ela é peã e almoça às nove e meia da manhã ou algo assim, só tomou uma coca). Paguei a conta, depois paguei o estacionamento com dinheiro que tirei da carteira e voltei para o trabalho.

Depois disso não lembro mais. Na hora de sair do trabalho fui procurar a carteira e não achei. “Deve ter ficado no carro”, pensei. Entrei no carro, lembrei que precisa comprar umas coisas na Kalunga e esqueci de procurar a carteira. Saí de Perdizes e fui até a Rebouças. Já no estacionamento da Kalunga lembrei de procurar a carteira. Não estava no carro, não estava na mochila. Voltei para o trabalho: não estava na minha sala. Desci, o segurança havia trancado a porta que dá acesso à minha sala. Esmurrei a porta, saí xingando, bati a porta da produtora, en-lou-que-ci-da. Fui até o estacionamento da hora do almoço, não tinham achado carteira nenhuma. Voltei para a produtora, perguntei aos seguranças da rua, vasculhei o carro mais uma vez. Entrei na produtora, pedi desculpas ao segurança, subi de novo até minha sala, procurei de novo, nada. Procurei o telefone do prédio onde a Lilla trabalha, liguei, não sabiam de carteira nenhuma. Desci, pedi desculpas de novo ao segurança, vasculhei o carro mais uma vez.

Já cancelei os cartões, pedi segundas vias ao Detran e ao plano de saúde. Tinha algum dinheiro na carteira, paciência. O que me dói mesmo é a carteira. Passei anos procurando uma carteira de que gostasse, em que coubessem as poucas coisas que carrego. Encontrei há coisa de um mês. Aí hoje eu perdi minha carteira.

Idiota.

Londres – Museu da Guerra 6

Nosso plano ontem era visitar o Museu da Guerra e mais alguma coisa. Não deu tempo: mesmo com as exposições das duas Grandes Guerras fechadas, a visita levou 4 horas. Há uma exposição sobre a vida de uma família em Londres durante os bombardeios alemães da II Guerra. E depois disso, a exposição sobre o Holocausto. Lembram que eu falei da capacidade humana de produzir arte depois de ver Billy Elliot (o musical)? Então: a gente tem essa outra capacidade também. Eu resisti bravamente até quase o final da exposição. Só que aí veio o modelo em escala de Auschwitz. Ao lado da maquete, uma pilha imensa de sapatos atrás de uma vitrine. Antes de entrar nas câmaras de gás, os prisioneiros tinham que tirar os sapatos. Eram muitos, muitos pares de sapato. Cada par pertenceu a uma pessoa cujas cinzas foram usadas para fertilizar o solo alemão. Quando a gente chega a um lugar em que tem que tirar os sapatos — um restaurante japonês, a casa de uma pessoa com TOC — a gente sabe que na volta vai se calçar de novo e voltar pra casa. Em Auschwitz, não.

Londres – primeiros dias 1

Não sei se vocês sabem, mas eu e Ana Cartola estamos em Londres. Chegamos na quinta-feira, para dormir. Ontem, sexta, tentamos ir ao London Eye mas estava ventando muito e o bichão estava fechado. Então ficamos bundando por ali. Fomos até o Big Ben, passamos em frente à Abadia de Westminster (estava fora do horário de visitas) e descobrimos ali perto um lugar que serve o típico chá da tarde inglês. Pedimos o típico chá da tarde com capuccino e chocolate quente, porque chá é coisa de fresco. Empanturrados de bolinhos, pãezinhos e outros bagulhinhos fomos caminhando até o Palácio de Buckingham. Depois andamos mais ainda até Trafalgar Square, entramos na National Gallery. Faltavam duas horas para fechar e não deu pra ver nem um quarto do que tem lá; vamos voltar um desses dias.

Hoje amanheceu um diazinho tão safado que achamos que íamos dar novamente com a cara na porta do London Eye. Para nossa surpresa, estava funcionando. É bonito lá de cima, o funcionamento e as dimensões da roda gigante são impressionantes mesmo, mas sou mais o Corcovado.

Depois disso, nada saiu como o planejado. A idéia era visitar dois museus (o de História Natural e o de Ciência). Descobrimos que toda a população da cidade tira os finais de semana para visitar museu. Filas enormes, deixamos para outro dia, decidimos ir aos parques (Kensington e Hyde). Começou a chover forte, os parques cheios de poças, atomanocu, vamos pra um caralho qualquer.

Lembrei do Borough Market, dica do meu irmão. Fomos andando para a estação em Kensington até que encontramos a igreja St. Mary Abbot. Lindíssima, meio sombria. Demos a volta, saiu um negão pela porta lateral. Uma negona. Outro negão. Porra, vamo entrar aí.

Entramos na igreja. Lá dentro, aqueles pretos chiques, sabe? Homens de terno muito bem cortado, Mulheres de chapéu. Tinha uma com um vestido branco cheio de brilhos e uma bunda que devia ser deixada para sempre no altar como prova da existência de Deus.

Não contem pra Ana Carlota que eu reparei na bunda da moça dentro da igreja, ok? Tenho certeza que ela nem notou, porque eu sou muito discreto.

Era um casamento. O vigário (é assim que a gente chama padre de igreja anglicana?) desceu até os bancos, conversou com os convidados, entrou e voltou todo paramentado. Som de órgão, mais convidados chegando. O padreco subiu ao púlpito, disse que estava tudo pronto, só estavam esperando a noiva — “que é um item meio que importante para a ocasião”, disse o vigário.

(Todo mundo é witty nessa terra. Mais tarde pegamos o metrô e o condutor desejou a todos uma boa tarde, um feliz ano novo. “E não impeção o fechamento” — fecha porta, abre porta, fecha porta, abre porta, fecha porta, abre porta — “das portas”. Timing perfeito.)

O casamento estava para começar, então não íamos ficar lá dentro. Saímos pela porta lateral, encontramos a noiva já pronta para entrar pela porta de trás (e o noivo se preparando pra entrar pela porta de trás da noiva, que eu não sou inglês, sou brasileiro, porra!)

Saímos, bebemos e comemos num pub, fomos ao teatro ver o musical Billy Elliot. Eu ainda não estou preparado para escrever sobre Billy Elliot. Só digo que eu não sabia que a humanidade ainda conseguia, nesta nossa época, produzir tanta beleza.

 

E agora vou ali chupar uns soldados, que marinheiro é salgado e preciso controlar a pressão.

Piscinas 3

Fiquei sócio do clube aqui perto de casa. Assim, bem perto. Vou a pé. É na minha porta. É ali na cozinha.

Mentira.

É aqui na sala.

Mentira. É a Associação Atlética São Paulo. Tem quadras de tênis, aparelhos de ginástica, campos de futebol society. Eu não pretendo usar nada disso. Tem uma piscina olímpica também, e essa eu uso. Uso pra dar um tchibum e depois boiar um pouco. O ruim disso: eu, uma grande massa marrom, pulo na água e fico lá boiandão. Quando você for ao banheiro, pode anunciar: “Licença, galera, vou levar o Marco Aurélio no clube”.

Esqueça isso, por favor.

O negócio é que eu aprendi a nadar numa piscina de 2,5 por 4 metros. Dois metros e meio de circunferência, quatro de profundidade. Mentira,  ok? 2,5 x 4,0 x 1,2. Essa foi a piscina GRANDE que meu pai fez quando éramos crianças. Antes dela, meu pai e Seu Édson, o pedreiro faz-tudo da família, bolaram uma coisa bem menor. Era um buraco retangular cimentado tão pequeno que meu pai não chamava de piscina, mas de POÇO RECREATIVO. E eu acho que ele e Seu Édson se esqueceram de alguns detalhes, como colocar um ralo, por exemplo. A gente enchia aquela piscina com a mangueira (e nem enchia muito, meu irmão era muito pequeno, podia se afogar e blablablá), brincava ali um dia ou dois. Depois disso a água começava a ficar turva, depois suja, depois podre. Aí era hora das crianças entraram na água com baldes na mão para esvaziar a piscina. Às vezes chamávamos os vizinhos para brincar só pra depois ter mais braços no trabalho de esvaziamento. A gente ficava naquilo a manhã inteira, como náufragos num bote salva-vidas furado. Quando faltava bem pouquinha água, já não dava pra apanhar com o balde, aí vinha a pior parte: a gente ia pegando água com uma pazinha de lixo e jogando num balde. Enche a pá, enche o balde, joga água pela borda da piscina. Enche a pá, enche o balde, joga água pela borda da piscina. Enche a pá, enche o balde, enche o saco, morre. Acho que o POÇO RECREATIVO não era para a gente se divertir nadando: era para nossos pais se divertirem vendo a gente esvaziando aquela desgraça. Acho até que minha mãe fazia pipoca nessas ocasiões, mas pode ser uma memória falsa.

Mas eu dizia que meu pai me ensinou a nadar. Seu Lindauro era do sertão da Bahia, de uma região mais seca que a Dilma Rousseff. Água era coisa muito rara por lá, mas existiam açudes sazonais. Quando o açude estava cheio, meu avô aproveitava para ensinar os filhos a nadar. Na vez do meu pai, foi assim: Seu Júlio, meu avô, colocou meu pai na cacunda e atravessou o açude nadando. Aí voltou, tornou a atravessar. Na quarta travessia, chegou no meio, jogou meu pai lá longe e gritou: “agora sai nadando!”. Meu pai aprendeu que foi uma beleza. Nadava em qualquer lugar, sem medo. Íamos à praia, ele já corria pro mar, ia nadando, nadando, até a gente ver só aquela cabecinha lá longe — longe a ponto de eu poder me referir à cabeça de alguém da família no diminutivo.

Quando meu pai me ensinou a nadar, não foi nada tão dramático. Ficávamos lá na piscina (a piscina GRANDE), ele estendia o braço. Aí era só apoiar o abdome na mão dele e bater as mãos e os pés. Pronto, já sabe nadar. Próximo!

Então é assim: eu entro na água, consigo me deslocar, mas não sei nadar. Eu atravessei a piscina olímpica no sábado e saí direto pro INSS pra pedir aposentadoria por invalidez. Estou pensando em contratar um instrutor de natação particular, porque o clube não tem essas coisas. Gosto de ficar na água, me sinto bem. E um dia quero ensinar meus filhos a nadar do jeito certo, porque o jeito da minha família é zoado.

Center Norte, alegria. ¬¬ 5

Existe um shopping center em São Paulo chamado Center Norte. Eu odeio shoppings, mas odeio muito mais o Center Norte. Está sempre cheio, estacionar é quase impossível. As lojas ficam todas num piso só, é tudo muito confuso, sempre me perco. Odeio.

Então eu estava precisando comprar bermudas e para onde eu fui? Pois é. Numa sexta-feira à noite. Perto do Natal. Black Friday. Eu não sou muito inteligente.

Cheguei e fiquei dando voltas no estacionamento. Muitas voltas. Sabe aquele disco Gita, do Raul Seixas? Tocou mais da metade e ainda chegou na segunda música do disco seguinte, o Novo Aeon (a segunda música, muito adequada à ocasião, é o Rock do Diabo). Raul Seixas lá pedindo um porco vivo pra encher a pança (mais dois quilos de alcatra com moqueca de esperança), quando me aparece a vaga perfeita. Perto da porta, com marquise em frente para proteger da chuva que estava naquele vai-não-vai. Uma senhora entrou no Corolla que ocupava a vaga, ligou o carro. Eu mantive uma distância respeitosa e dei seta. Outro carro embicou. Eu avancei um pouco, o cara abriu o vidro para explicar: não queria a vaga, só queria passar pra deixar as filhas no shopping. Muita gentileza dele me avisar, dei passagem. Ele passou, continuei lá. A senhora não tinha muita noção de espaço, como eu também não tenho, então fui um pouco mais pra trás. Ela saiu da vaga, eu dando seta. Ela ajeitou o carro, eu dando seta. Ela partiu, eu dando seta, o Raul Seixas dizendo que foi o Diabo mesmo quem lhe deu o toque, e um corno filho de uma puta remelenta que estava atrás de mim (o corno, não a puta da mãe dele) acelerou para pegar a vaga.

Eu achava que isso só acontecesse em seriado americano. Uma pessoa está sinalizando para entrar numa vaga esperando que o ocupante anterior saia, aí vem um folgado e entra na frente. Esse cara tinha um jipão branco. Um Farmer XL Gold 2013. Sei lá, entendo nada de carro. Era um desses carros de luxo. Nêgo agora tá com essa mania de comprar carrão com cor de táxi, vai entender. O cara acelerou o jipe dele. Quanto custa uma porra dessas? Uns 200 mil, por aí? Eu dirijo um Civic 2001, na última vez que eu tive curiosidade de olhar o valor de tabela era 17 mil. Se meu carro amassa, eu deixo amassado, foda-se. Um sujeito com aquele carro tão chique, tão grande, não vai querer sair por aí com o carro amassado. O carrão compensa o pinto pequeno, seria como se um de nós andasse por aí com o pinto amassado na lateral da chapeleta.

Acelerei também. O rapaz do pinto pequeno ficou brabo, uma mão enfiada na buzina e a outra no rabo, rasgando de raiva. Nem liguei. Entrei na MINHA vaga. O moço saiu cantando pneu. Raul Seixas já estava cantando Eu Sou Egoísta. Muito adequado, Raul. Desliguei o carro e saí assoviando.

A casa no Butantã 10

Agora que os mensaleiros foram julgados e presos, a onda é tentar desviar a atenção do público para fatos acessórios que nada têm a ver com o caso. Um deles é o sobradinho do José Genoíno no Butantã. A massa difusa de militantes petistas nas redes sociais começou a compartilhar as fotos do sobrado com o título irônico de “A mansão de Genoíno”. O argumento: se Genoíno roubou como estão dizendo, por que continuava morando nessa casinha de merda?

GenoinoEsse pessoal acha que a gente é retardado.

O negócio do Mensalão não era pagar uma mesada a parlamentares de OUTROS PARTIDOS para que votassem com o governo? Não era um esquema do PT para ganhar força e apoio político? Então por que caralhos essa gente compartilha no Facebook a foto do sobradinho do Genoíno? Genoíno não foi condenado por enriquecimento ilícito. Foi condenado por formação de quadrilha e corrupção ativa (por oferecer vantagem indevida a outras pessoas).

Isso não é uma exceção. O PT funciona assim: seus quadros entram em esquemas de corrupção assim que sobem ao poder. Não para enriquecer, mas para enriquecer o partido. De orelhada, lembro do esquema de coleta de lixo em Ribeirão Preto e do outro em Santo André, que acabou na morte esquisita do Celso Daniel.

Políticos comuns roubam para enriquecer. O PT rouba para comprar voto e passar as leis que estão na agenda do partido.

Genoíno está velho, doente e com depressão. É triste, só um monstro não sentiria compaixão. Mas o que a história da casa dele não é compaixão: é a tentativa de criar um mártir. Querem plantar na mente do público a idéia de que a justiça condenou um inocente.

Genoíno não é inocente. Era presidente de um partido que comprava voto de parlamentares. Como presidente do partido, participou do esquema, assinou papéis. A casa do Butantã não entra nessa conta.

Frutas 2

Você passa a vida inteira sem falar o que você pensa, o que você sente, o que você deseja. Nada te impede de falar, mas você não fala mesmo assim. Pode magoar alguém. Pode dar problema. Pode foder toda a sua vida.

Então você vai guardando, guardando, e essas coisas toda que você não fala vão se acumulando lá dentro. Vão se empilhando, crescendo, e viram lindas frutas.

“É do tamanho de uma cereja.” “É do tamanho de uma laranja.” “É uma ameixa seca e está num lugar onde não conseguimos chegar. É inoperável. Sinto muito.”

Deve ser horrível receber um diagnóstico de câncer quando você está com fome.

Um dia você descobre que virou a Carmen Miranda do avesso, com todas as frutas dentro de você. Uma manga no estômago, uvas no intestino grosso, nêsperas no cérebro. E aí você percebe que se fodeu, se fodeu grandão, um pepinão no seu rabo.

Guarde não. Melhor falar.

Barba 7

Meu pai nunca deixou a barba crescer. Ele fazia a barba todo dia? Não sei. Um daqueles detalhes que a gente não nota. Pequeno demais, cotidiano demais.

Acho que ele fazia a barba todo dia. Devia ficar um dia sem fazer no final de semana. Sábado, provavelmente, já que domingo era dia de igreja: melhor terno, melhor sapato, cheiro de colônia pós-barba. No final do dia, a barba dele já estava áspera. “Pinicando”, eu dizia. Ele chegava do trabalho, eu ia abraçá-lo e sentia o cheiro bom dele e a barba pinicando.

(Eu confio em qualquer homem que tiver o cheiro que meu pai tinha quando chegava do trabalho. Nunca encontrei nenhum.)

Às vezes, quando a barba estava mais pinicante, ele corria atrás da gente pra passar a barba na nossa cara. Era divertido. Eu olhava e queria ter barba, queria ter o ritual de fazer a barba.

Eram esses os dois modos do rosto do meu pai: liso e pinicante.

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Na adolescência, perdi o costume de abraçar e beijar meu pai quando ele chegava do trabalho. Também perdi o costume de abraçar e beijar minha mãe quando eu chegava em casa. Sou bruto, demonstrações de afeto não são meu forte. Depois que minha irmã casou, ela nos abraçava e beijava quando vinha visitar. Meu irmão casou, mesma coisa.

Quando eu me casei, pude voltar a abraçar e beijar meus pais. Há quanto tempo não nos vemos, como vai, dê cá um abraço. Bobagem. Eu tinha dois anos de casado quando meu pai morreu. Nem deu pra aproveitar.

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Noite passada eu sonhei com meu pai. Estávamos frente a um palco, assistindo alguma coisa. Um show, um programa de TV, não sei. Ele estava bem jovem, a barba por fazer não tinha nenhum fio branco. Eu sabia que não era de verdade, meu pai está morto, mas mesmo assim conversava com ele. Era um avatar, um holograma, uma simulação; mas parecia real e isso me bastava.

— Pai — eu disse — existe vida após a morte?

E ele respondeu:

— Eu tenho certeza… que às vezes eu acho que sim, às vezes eu acho que não.

No sonho, não era só uma resposta sem sentido: era uma piada, e eu ria. Rindo, abracei meu pai.

Abracei meu pai e senti a barba dele no meu rosto. Áspera. Pinicando.

Comecei a chorar. Não o choro composto de um homem de minha idade. Não a lágrima descendo devagarinho, lagarta de vidro, a boca se torcendo pra baixo. Não: um “ãããããããããããã” prolongado, como choro de criança. Como o choro que chorei todos os dias (no banho, no carro indo pro trabalho) por muito tempo depois que ele morreu.

Chorei tão alto no sonho que acordei assustado e chorando — de verdade e de maneira aceitável. Peguei no sono chorando e pensando no meu pai, no abraço dele, na barba dele pinicando. Quando eu morrer vai ser igual quando eu casei? Vou poder abraçar e beijar meu pai de novo?

Eu tenho certeza que às vezes eu acho que sim, às vezes eu acho que não.