Jesus, me chicoteia!

Minha cupincha

Há dias tento escrever alguma coisa sobre minha sogra e não consigo. Começo, apago. Tudo soa insuficiente perto do que ela era para mim e do que sinto agora. Então digo só que sinto muito a falta dela. Ela era minha cupincha, minha camarada. Há meses eu vivia a expectativa de ser vizinho da minha sogra. Quando finalmente nos mudamos, há três semanas, ela estava no hospital se recuperando de uma cirurgia. Estava bem, até. Dias antes eu tinha ido ao hospital, fui ajudá-la a se ajeitar na cama. Enquanto fazia isso, disse: “nada mudou, hein Dona Vera? O preto aqui fazendo o trabalho pesado e a portuguesa deitadona aí, só na moleza”. Ela conseguiu rir disso. Acho que era isso que eu mais gostava nela: ela sempre conseguia rir das bobagens que eu falava.

Aí ela morreu e uma parte muito importante da minha vida não existe mais. Às vezes eu penso em fazer um comentário qualquer à mesa e desisto: era um comentário específico pra Dona Vera, algo que a faria rir, ou se escandalizar, ou — o mais freqüente — as duas coisas. Lembro da primeira vez que cantei “No Cume” para a família reunida. Primeiro ela fez aquela cara de “que horror!”, depois se levantou e começou a dançar. A música virou um clássico obrigatório sempre que um violão aparecia, e Dona Vera sempre dançava. Tenho isso em vídeo; ainda não criei coragem de assistir.

Todo canto daquela casa me lembra dela. Dona Vera era uma pessoa muito inteligente, culta. Falava muito bem, gostava de ouvi-la falar. Gosto de ouvir meu sogro também, passamos horas conversando. Ele tem muita história, passou por muita coisa nesses 73 anos. Só que agora as histórias dele são como todo o resto — a casa, os objetos, os filhos, ele próprio — porque tudo me faz pensar na minha cupincha que foi embora.

Estante e sofás à venda

Pois bem, nos mudamos. Depois eu conto da correria, do cansaço, da bagunça. Agora tenho algo mais urgente para tratar: esses móveis da antiga moradora, que ainda estão na casa:

Estante e sofás são de madeira maciça (Ana Cartola diz que empurrar a estante para o outro lado da sala foi como desencalhar uma jubarte). Estão em boas condições. Segundo a dona, são móveis em estilo colonial. Não me perguntem, não sei. Ela mandou um e-mail explicando tudo, ó:

1. Estante de madeira maciça, estilo colonial – cabe uma TV de 42 polegadas, tem espaço para guardar muitos DVDs, CDs, livros, jogos, etc. Armários com portas embaixo e nas laterais. Em bom estado de conservação, confira nas fotos!!
Medidas; 2,05m de largura; 2,10m de altura e 0,56m de profundidade.
Preço R$ 900,00

2. Conjunto de sofás de 3 e 2 lugares, em madeira maciça, estilo colonial – sofás muito confortáveis, com almofadas soltas e laváveis. Em bom estado de conservação, como você pode ver nas fotos!!
Medidas: 3 lugares: 1,80m por 0,90m de profundidade e 2 lugares: 1,25m por 0,90m de profundidade. Preço R$ 500,00

A forma de pagamento é negociável e o frete NÃO está incluso. Os móveis podem ser retirados próximo da estação Armênia do metrô, em São Paulo.

Quem tiver interesse, entre em contato que eu faço a conexão. O frete, como ela disse, não está incluso: quem comprar vai ter de retirar. Recomendo o serviço do Edson, o cara que fez minha mudança. Honesto, rápido, preço excelente.

Mudança

Após dois anos de alegrias, estamos de saída aqui da rua dos veados. Virou uma zona danada isto aqui: gente demais, as bichas fechando a rua. Vamos aqui para perto, no Bom Retiro. Alguém aí nos indica um carreto decente e não muito caro?

(Está tudo uma bagunça. Quando as coisas voltarem ao normal, volto aqui. _O/)

A ordem em Judá e a bagunça em Israel (versão alternativa)

Antes, uma explicação.

Escrevi essa versão antes daquela que foi publicada. Texto comprido, muita informação num capítulo só. Escrevi do jeito que deu, cheguei a salvar como rascunho no blog. Fui ler e achei uma merda. Aliás, eu não achei nada. Os encostos acharam.

Pois vejam: eu ando muito self conscious ultimamente, parece que tem sempre meia dúzia de zoião me observando enquanto escrevo. Aí fico vexado. Escrevo uma frase e o pessoal que tá espiando já começa a palpitar: olha a voz passiva, olha a concordância, olha a ambigüidade, que porra é esse trema, cadê as aspas quando a gente fala.

Malditos encostos.

Fora isso, meu cérebro é um vazio. Quando preciso de uma idéia, olho lá dentro da cabeçorra e é só um descampadão, o vento assobiando. Escrevo mesmo assim, e o resultado sempre me desagrada. Pior: não reconheço como texto meu. Imaginem uma cadela que passou por uma cesariana. Ela acorda da anestesia, vê aqueles filhotes ali do lado dela e não entende porra nenhuma. Se não tiver ninguém por perto para impedir, ela mata tudo. Eu estou que nem essa cadela. Uma cadela gorda e careca.

Ah, que imagem linda.

Esqueçam a cadela. Imaginem uma pessoa que perdeu o sentido do paladar. Estou feito esse infeliz aí, que bota um negócio na boca e não sabe se é sorvete de morango um um filhote de cachorro.

Mas eu dizia que escrevi esse texto de agora e os encostos reprovaram. Desisti, fui fazer outra coisa, aí me veio a idéia de contar a mesma história naquele formato de diálogo. Pareceu uma boa idéia na hora, mas antes da metade do texto eu já sabia que não estava legal. A idéia era besta, a execução era mais besta ainda. Acabou ficando um negócio basbaque, artificial. Mas é claro que tudo o que escrevo ultimamente me soa artificial.

Então foi isso que aconteceu: escrevi dois textos e ambos me parecem a mesma coisa. Só que deram trabalho igual, então nada mais justo do que publicar os dois. Os encostos discordam: acham que eu não devia publicar era nenhum e desistir logo desse negócio de escrever. Mas, pô, é a única coisa em que eu consigo ser ao menos medíocre; em todo o resto eu sou ruim pra caralho.

Ó:

A ordem em Judá e a bagunça em Israel

(II Reis 15)

Este capítulo mostra bem a diferença entre os reinos do Norte e do Sul, Israel e Judá. Em Israel, os reis preferiam a putaria das religiões pagãs. No começo da história de cada um desses reis, o autor diz que eles fizeram “o que era mau aos olhos do Senhor e não se apartaram dos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez pecar a Israel”. Esses “pecados de Jeroboão” eram o de sempre: idolatria, desrespeito pela religião oficial, perseguição aos profetas. Javé se emputecia e toda hora mandava uma desgraça qualquer para acabar com a raça do rei. Em Judá, vez em quando ainda aparecia um rei que andava na linha e não irritava Javé.

Foi o caso de Uzias, que sucedeu seu pai Amazias na época em que Jeroboão II (nenhum parentesco com o Jeroboão original) era rei de Israel. Uzias (que também atendia por Azarias) seguiu a religião direitinho, respeitou os profetas e coisa e tal. Em retribuição, o Senhor Misericordioso (louvado seja) sapecou-lhe uma lepra. Para não se desfazer aos olhos dos súditos, Uzias se mudou pra uma casinha separada do palácio, deixando seu filho Jotão como rei de fato. Se Uzias tentava meter o nariz em assuntos do reino, Jotão bronqueava e devolvia o nariz ao pai. Era uma merda.

Uzias reinou por 52 anos, boa parte deles isolado em seu barraco de leproso. Quando não estava louvando ao Senhor por tantas bênçãos recebidas, sua diversão era apostar com as visitas que conseguia coçar a orelha com o dedão do pé — o que não era tão difícil quanto parecia, e só espantava as visitas.

Este capítulo também mostra muito bem como é difícil acompanhar a sucessão de nomes esquisitos e dinastias na Bíblia. Uzias-Azarias era da dinastia de Davi, que reinava ininterruptamente havia mais de 230 anos. O mesmo não acontecia em Israel. Quando o reinado de Uzias ia ainda pelo trigésimo-oitavo ano (ele já caindo aos pedaços), o rei de Israel Jeroboão II morreu, e seu filho Zacarias subiu ao trono. O reinado de Zacarias durou só seis meses. Um tal Salum juntou meia dúzia de descontentes, derrubou Zacarias e assumiu o trono. Zacarias foi o quarto e último descendente de Jeú a reinar em Israel. Terminava a quinta e mais longa dinastia israelita após a divisão do reino.

O reinado de Salum foi um sucesso: durou um mês. Um certo Menaém, morador da cidade de Tirza, não aceitou o novo rei. Ele não suportava usurpadores, e por isso foi até Samaria, matou o rei e assumiu o trono. Menaém era uma dessas pessoas de bom coração. Vejam só: os moradores da cidade de Tifsa se recusavam a reconhecê-lo como rei. Então ele invadiu a cidade, matou os moradores de toda a região e rasgou a barriga de todas as mulheres grávidas. Um docinho de pessoa.

Menaém, o Virtuoso, foi rei durante dez anos. Javé não ia com a cara dele, mas também não fez nada para derrubá-lo. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, até tentou. Invadiu Israel e quase anexou o reino. Mas Menaém foi esperto: entregou trinta e quatro toneladas de prata à Assíria para que o império o ajudasse a firmar-se no poder. Tiglate-Pileser (que tinha o simpático apelido de Pul) aceitou a oferta e voltou para casa com seu exército. Menaém morreu de causas naturais, e seu filho Pecaías ficou em seu lugar, reinando por dois anos.

Agora, se rei israelita já pecava pra dedéu, imaginem um cara chamado Pecaías. Pior do que ele, só um outro cara chamado Peca, oficial do exército. Peca reuniu cinqüenta homens em Gileade e matou o rei quando ele ainda estava se acostumando ao trono. Peca foi o cabeça de Israel por vinte anos, só fazendo o que Javé não gostava — e bem nas fuças dEle. É que Javé tinha entrado numas de ser paciente: em vez de matar o cara logo de uma vez, dizia “tua batata tá assando” e deixava. Foi durante o reinado de Peca que o império Assírio voltou a botar as manguinhas de fora. Tiglate-Pileser, o Pul, anexou as regiões de Gileade, Galiléia e Naftáli, junto com outras quatro cidades, e levou seus moradores para a Assíria como prisioneiros.

Enquanto tudo isso acontecia, o leproso Uzias-Azarias seguia firme como rei de Judá. Quando ele finalmente morreu, seu filho Jotão tornou-se rei de verdade e reinou por dezesseis anos. Foi durante o reinado de Jotão que Peca, rei de Israel, e Rezim, reizim da Síria, atacaram Judá pela primeira vez. Era a nova política da vingança sem pressa de Javé, que já preparava o cenário para a entrada em cena de Acaz, filho de Jotão. Acaz seria provavelmente o pior dos reis de Judá, pior do que os piores de Israel.

Jotão ainda vivia quando uma última conspiração em Israel derrubou o rei Peca. Oséias, líder dos revoltosos, tornou-se rei. Se ele soubesse o que o esperava, teria aproveitado melhor a vida de rei. Comprado uns carros, umas odaliscas, sei lá. Ele não tinha como saber, é óbvio, mas seria o último dos reis de Israel.

Minha camisa de Magal

Como eu disse, eu tinha uma camisa de Sidney Magal quando criança. Ei-la:

A melhor irmã do mundo e eu

Essa foto é de 1979 ou 80, não lembro bem. Lembro que eu queria usar essa camisa todo dia, se pudesse. Porque era “do Sidney Magal”, claro. Mas acho que a gola das camisetas não passava pela minha moringa, também.

A ordem em Judá e a bagunça em Israel

(II Reis 15)

— … é que nóis é fiote!

[risos na platéia]

— Boa piada, muito boa… Bom, mas vamos ao nosso primeiro convidado de hoje. Ele é Criador do Universo, Deus Triúno e diz que foi um bom Ponta-Direita quando jovem. Boa noite, Javé.

— Olá, boa noite.

— Obrigado por aceitar nosso convite. Eu queria começar falando de Israel…

— Putz.

— Pois é, rapaz… Que que tá acontecendo lá, hein?

— Sabe que nem eu sei direito? Aquele lugar é o diabo. Tô pensando em acabar com aquilo tudo. Pra começar, Israel nunca teve um rei que prestasse. Bom, teve o Jeú.

— O Jeú? Não foi ele que mandou matar quarenta crianças e depois empilhou as cabeças na porta de uma cidade lá?

— Foi, foi. Mas eram crianças pagãs. Gostei daquele negócio, sacumé. Então cheguei e falei pra ele assim: “Jeú, mano velho. Quando você morrer, seu filho vai ser rei no seu lugar. E seu neto depois dele. E vai assim, até a quarta geração”.

— A quarta geração é o tataraneto dele, certo? O… Zacarias?

— Ele mesmo, aquele bosta. Esse Zacarias seguiu a mesma linha dos outros reis de Israel. Me traíram, os arrombados, todos eles. Eu tinha prometido ao tataravô dele esse negócio da quarta geração, então deixei esse corno ser rei. Mas só por um tempinho, também. Ele era rei fazia uns seis meses quando aquele tal de Salum fez a conspiração pra matar ele.

— O Salum não durou muito também, né?

— Um mês! Hahahaha. Veio aquele Menaém lá de Tirza, matou o cara e assumiu o trono. Cara legal, o Menaém.

— Peraí. O Menaém não foi aquele que matou todo mundo em uma cidade que não reconheceu ele como rei? E depois cortou a barriga de todas as grávidas?

— Ah, ele se empolgou um pouco. A juventude, sei lá. E fez pelos motivos errados; se fizesse em meu nome, o reinado dele era capaz de durar mais.

— Mas até que durou bastante, dez anos. E ele foi esperto quando os assírios tentaram invadir.

— Foi sim, muito esperto. Entregou lá umas toneladas de prata pro rei da Assíria, como era o nome dele?

— Tiglate-Pileser.

— Ele. Tina um apelido engraçado. Pul, Pus, sei lá. O Menaém entregou aquela caralhada de prata pro Pul, e ele voltou pra casa contente.

— Mas aí o Menaém morreu e o filho dele, Pecaías, se tornou rei.

— Pecaías. Se todo mundo já pecava pra dedéu, imagina um cara chamado Pecaías. HAHAHAHAHA. Pescou? PECAÍAS! RÁ!

— …

— Aí depois de dois anos veio um oficial do exército, matou o Pecaías e assumiu o trono. E cê lembra o nome do cara?

— Peca. Certo?

— PECA! O nome do cara era PECA! Vai pecar assim no inferno! HAHAHAHA!

— Bom. Mas eu ainda não entendi o porquê desse monte de conspiraçãoes…

— É que eu nunca fui com a cara de Israel, entendeu? Judá era legal, toda hora aparecia um rei pra me puxar o saco. Em Israel, era um pior que o outro, tudo feladaputa.

— Sim, eu sei. Mas por que você não acabou logo com a raça de todo mundo?

— Ah, é que eu resolvi adotar outra política. Os negos não tavam ligando mais pra doença, praga, fogo do céu, nada. Então eu olhava pro caboclo que dava mancada, mandava um “tua batata tá assando” e ia levando. Foi o que eu fiz com o Peca. Deixei ele lá… pfff… pecando. E aí mandei uma idéia errada pra cabeça do Pul e a Assíria invadiu aquela região grandona lá e levou todo mundo como prisioneiro.

— Pra quem não se lembra, o imperador Tiglate-Pileser…

— Pul, porra.

— … o imperador Pul anexou as cidades de Ijom, Abel-Bete-Maaca, Janoa, Quedes, Azor, e as regiões de Gileade, Galiléia e Naftáli.

— Só faltou Dudinka na lista do cara, diz aí. Mas então. Aí veio outra revolta, e foi assim que o atual rei chegou aonde chegou.

— O rei Oséias.

— Ele mesmo. Bom. Rei por enquanto, né?

— Por quê?

— A batata dele tá assando. Depois te falo.

— Tudo bem. E enquanto isso tudo acontecia em Israel, continuava tudo bem em Judá. Por quê?

— Ah, Judá é uma belezinha. Você veja que todos os reis até hoje são descendentes de Davi. E por que isso? Porque Davi era meu brother, cara. Eu mandava matar, ele ia lá e matava. Não tinha tempo ruim. Você veja o velho Uzias, por exemplo. Quando ele chegou ao trono, Zacarias nem sonhava em ser rei de Israel ainda. Pois o Uzias foi rei durante 52 anos! Ele ficou firme lá, enquanto em Israel vieram… me ajuda aí: Jeroboão II, o corno do Zacarias, Salum, Menaém, Pecaías, Peca e Oséias. Um time de society, cara!

— Muita gente.

— Pois é o que eu tô te falando! Em Judá os cara são ponta firme, então o cara chega no trono e vinga. O Uzias era um cara bom pra caralho!

— Mas teve lepra, coitado.

— É. Pô… É que eu gosto de lepra, sabe? Me divirto. Fico vendo o cara lá paradinho, com medo de se mexer muito e perder uma orelha. Pô, é divertido pra caralho!

— Cada um se diverte como pode, né… O rei Uzias passou boa parte da vida numa casinha separada, e o filho dele, Jotão, é que reinava de verdade.

— E o Uzias não se intrometia! Se ele inventava de meter o nariz nos assuntos do reino, o filho ficava bravo, reclamava e devolvia o nariz pra ele.

— …

— RÁ! Aí ele ficava lá no barraco dele, coçando a orelha com o dedão do pé.

— Puxa, como ele fazia iss… Humpf!

— RÁ!

— Bom, mas o rei Uzias também morreu e agora o rei lá é justamente o filho dele.

— O Jotão, sim. Gosto dele. Gente boa. Não sei se você viu a porta nova que ele mandou fazer no templo de Jerusalém. Coisa linda. Eu entro lá no Santo dos Santos, sento na Arca, acendo meu baseado e fico olhando aquela beleza. Coisa fina.

— Então o Jotão, pelo menos, pode ficar tranqüilo.

— Mais ou menos, né? Israel e a Síria já tão se armando pra atacar Judá.

— Mas o que o Jotão fez?

— Nada, nada! Mas aquele filho dele, Acaz… Sei não. Não vou com a cara do moleque. Vou botar a batata dele no forno desde já, que é pra não perder tempo.

— Bom, depois do intervalo o Javé aqui vai contar direito essa história do Acaz e aquela outra, do Oséias. E vai explicar também como é esse negócio de ser um só, mas ao mesmo tempo ser três…

— Não me pede pra explicar isso, cara!

— Javé, senhoras e senhores! A gente volta já.

Magal

Dizem que as lembranças mais antigas que a gente tem não são de verdade: são memórias falsas, criadas a partir de histórias que os pais contam sobre nossa infância e que a gente acaba incorporando. Acho que é isso mesmo; até porque tenho uma tendência besta a incorporar histórias alheias. Alguém me conta um negócio que lhe aconteceu; tempos depois eu lembro com detalhes da história acontecendo comigo. Doença. Mas eu acredito que uma das minhas lembranças mais antigas seja de verdade. E por um motivo simples: não tinha ninguém da família presente para me contar o que aconteceu.

Foi há 32 anos. Vocês nem eram nascidos, provavelmente. Eu tinha três anos de idade e fui internado por conta de uma crise de gastrite e…

Merda. Escrevi um puta texto enorme aqui, só pra descobrir que já tinha contado essa história:

Não perguntem, não sei como eu fui ter gastrite aos três anos. Mas me lembro perfeitamente dos quatro dias que passei no hospital. Lembro de um médico que me impressionou por ser preto e por ter um cabelão black power (era 1978, a lama do Dilúvio ainda não havia secado). Lembro de ficar importunando as enfermeiras para me levarem pra casa, de argumentar com uma enfermeira que veio botar fraldas em mim na primeira noite (“Fralda? Eu não uso fralda. Quem usa fralda é criança”), e do constrangimento que foi me ver de fraldas minutos depois.
E lembro da hora do banho.
Ah, o banho! Eu ficava em pé na banheira e começava a dançar e cantar músicas do Sidney Magal, meu ídolo máximo então. Engrossava a voz e mandava:

Tenho
um mundo que é cor-de-rosa
de coisas maravilhosas
que tanto sonhavas ter.

As enfermeiras se acotovelavam na porta do banheiro, todas com cara de óun! Eu tinha meu charme.

Bom.

Anos depois, aporrinhei minha mãe para fazer uma camisa igual às do Sidney Magal. Era impossível, claro: a bicha usava umas mangas bufantes na época, umas coisas meio de cetim, abertas no peito. Minha mãe fez uma camisa social de seda e me falou que era igual a uma camisa do Magal. Eu acreditei, fiquei feliz da vida.

Hoje fui ver o Sidney Magal na Virada Cultural como presente de aniversário parar mim mesmo. Nada de mais: foi só sair do prédio; o show foi no fim da rua. Eu não costumo dançar nem nada em shows, fico quieto, parado. Mas arrisquei uns passos no show do Magal. Ele estava com um paletó todo brilhoso, coisa de Cauby Peixoto. Vou pedir pra minha mãe fazer um igual.

Nome-trem

Depois de 35 anos de vida (que completo hoje [os 35 anos, não a vida]), resolvi tratar de um dilema antigo. Eu preciso de um nome menor. Esse Marco Aurélio Gois dos Santos aí ocupa um espaço danado, parece um trem (isso sem falar nesse Gois errado, sem acento). Nas revistas em que trabalhei, só eu ocupava duas linhas do expediente. E agora meu nome leva horas para passar nos créditos finais do CQC: é como se fosse eu mesmo passando, largo e pesadão. Tem vinhetas no meio do programa que são mais rápidas do que a passagem do meu nomão. Marco Aurélio Gois dos Santos. Dava pra tatuar esse nome em volta da minha cabeça, de tão grande que é.

O nome comprido sempre foi um problema. Quando eu trabalhava com coisas de informática, o pessoal que mandava fazer os cartões de visita não tinha dó: sapecava lá um Marco Santos ou Marco Aurélio Gois, e pronto. Adotei o Marco Aurélio dos Santos por muito tempo. Aqui dentro da minha cabeça, era uma questão de justiça. Meus dois irmãos sempre usaram só o Gois. Eu achava isso uma injustiça, então adotei o sobrenome paterno . E estava muito feliz com isso, até inventar de ir a Estância, terra de minha avó materna, e conhecer todos os Gois e Góes de lá (a família não decidiu até hoje a grafia do nome). Por questão de identidade com aquele povo todo, reincorporei o sobrenome materno.

Foi difícil convencer os chefes a botar meu nome completo no expediente e nas matérias que eu escrevia. Então inventei uma desculpa metida a engraçadinha: dizia aos chefes de redação que eu queria ser o maior nome do jornalismo de TI do Brasil. Eles achavam graça e deixavam. Tentei aplicar essa piadinha manjada na produtora quando entrei lá — “É que eu quero ser o maior nome da televisão brasileira” — e fui brindado com olhares de gelado desprezo. Devem ter pensado que era sério, sei lá.

Então, como já disse, eu precisava de um nome menor. Mas como? Essa “questão de justiça” com os dois sobrenomes pode ser só sintoma de TOC (quem convive comigo diz que eu tenho isso aí), mas e daí? Eu continuo precisando dos nomes todos. Às vezes eu penso em espremer tudo em um pseudônimo metido a besta, e invento monstruosidades como Maurélio Gossan, que soa meio armênio, ou Aurélio Goissanti, que tem um jeitão de italiano meio bicha.

E eu sei lá por que estou escrevendo isto. Fiquem aí com minha foto do braço quebrado:

Tamãe da moringa...

Tchau.

Hiato

Ah...

Jesus Cristo.

Hoje eu fui ao Masp

Há quem pense que eu não ligo pra cultura. Nada mais longe da verdade. Como prova disso, fui ao Masp hoje. O prédio do Museu de Arte Moderna de São Paulo foi inaugurado em 1947 na Avenida Paulista. É famoso por seu vão livre de 74 metros. Nos fins-de-semana, dezenas de pessoas saem de todos os cantos da cidade para se reunir nesse vão livre e praticar uma atividade cultural da maior importância: a troca de figurinhas da Copa do Mundo. Dizem que dentro daquele bloco de concreto que fica em cima do vão tem uns negócio de arte também, mas não sei. Eu fui lá pra trocar figurinha mesmo.

Saí de casa com a missão de encontrar as 76 figurinhas que me faltavam e reduzir o bolo de 130 repetidas. Marquei com uma amiga japonesa (amigas japonesas são indispensáveis nessas ocasiões) e fui para lá meio avexado: não queria parecer muito nerd. Cheguei ao vão do Masp, encontrei a japa e uma multidão. Sentada no chão, a japa já trocava suas figurinhas com uma dupla de rapazes. Logo uma moça juntou-se ao grupo. Depois de cinco minutos sentado no chão, parei de sentir o pé direito. Mas pelo menos não estava mais constrangido, e mais ainda ao ver um outro grupo que tinha ido lá para brincar com espadas de isopor e papelão. Eram adolescentes e levavam muito a sério seus duelos. Olhando para eles, vi que eu não era nada nerd.

(Só depois pensei que eles devem ter olhado para mim, um gordo careca de 35 anos trocando figurinhas numa tarde de sábado, e pensado a mesma coisa.)

A japonesa precisou ir embora logo, então fiquei entregue à minha própria sorte. Me levantei e fui até a mureta para sentar direito e marcar as figurinhas que já tinha trocado. Depois disso, percebi que nem precisava procurar muito. Era só segurar o bolinho de figurinhas na mão, olhar em volta e esperar. Logo alguém vinha, “Tem figurinha pra trocar?”, e começava mais uma negociação. Vi todo tipo de gente. Um garoto de seus 4 ou 5 anos pegou com o pai a pilha com umas 300 figurinhas repetidas e começou a me mostrar uma por uma.

— Cê tem essa? — e me mostrava a foto do jogador.

— Sei lá! Deixa eu ver o número… Hum… Já tenho.

— E essa?

— Xeu ver… Já tenho

E ficamos nisso por um bom tempo, até ele me mostrar uma que eu não tinha. O pai, muito jovem, se desesperava ao ver o moleque tirar as figurinhas da ordem numérica. No final, pai e filho ficaram com quatro figurinhas minhas e eu peguei quatro deles. Antes de terminar, outros já esperavam do lado para negociar também. Um senhor de uns 65 a 70 anos de idade veio com a esposa e dois bolinhos de figurinhas. Um era do neto, eu acho. O outro era do casal. “Essa aí é do nosso ou do fulano?” Vi um rapaz magrinho sentado num canto e fui ver o que ele tinha. Era muito arredio, não me deixou tocar nas figurinhas dele: em vez disso, me pediu para ler os números que ainda não tinha. Ele tinha quatro figurinhas de que eu precisava. Agradeci e estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele estranhou, eu acho.

Conforme fui trocando as figurinhas, foi ficando mais difícil achar as que faltavam. Começou a chover, e um pessoal chegou para montar as barracas da feirinha do Masp. Saí, fui jantar, depois vim pra casa. Agora só me faltam seis figurinhas. Aliás, se alguém as tiver e quiser trocar com alguma das minhas repetidas, dê uma olhada e me avise. As que me faltam:

85 – 144 – 201 – 315 – 403 – 583

Vou ver se no próximo sábado eu vou a outro encontro de troca de figurinhas. Talvez não no Masp. Estou muito velho para ficar horas sentado no chão, em muretas e outros lugares desconfortáveis. Há quem diga que eu estou muito velho pra colecionar figurinha também, mas eu quero é que se foda.

*   *   *

No meio dessa zona toda, encontrei um leitor do blog, Emanuel. Disse que lia o JMC desde o tempo em que ele era preto e vermelho amarelo (o blog, não o Emanuel). Os leitores deste blog freqüentam os piores lugares, credo.

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