Mãe 1

13133087_1009368595806989_2818833825650959679_nEu não sei como minha mãe fez.

A história dela não é fácil, não. Mas eu não vou contar aqui. Primeiro por que não estou aqui pra expor a véia. E segundo porque ela mesma não gosta de ficar falando. Sabe gente que vive falando do quanto sofreu, do quanto apanhou da vida? Minha mãe é o contrário disso aí. Dia desses, depois de muita insistência, ela me contou uma história da infância dela. Uma história que me fez entender melhor quem ela é, quem minha avó era, quem são meus tios. Perguntei por que nunca havia contado.

— Cada um tem sua história, Marco. Cada um sabe o que passou na vida. A gente não pode ficar jogando nossa história em cima dos outros.

Em 2013 eu tive outra surpresa dessas. Estávamos, eu e Ana Carlota, insistindo para que ela escolhesse um destino para viajar. Qualquer lugar! (que não fosse muito caro, porque também não estamos propriamente nadando em dinheiro). Ela só dizia que qualquer lugar estava bom, que não precisava nada disso, que “boa romaria faz quem em sua casa fica em paz” (um ditado que ela usa muito quando quer ser deixada quieta). Depois de muito enchermos o saco, ela cedeu:

— Sabe um sonho que eu sempre tive? Conhecer o Rio… Sempre vi nas novelas, parece tão lindo!

— Mãe… O Rio? O RIO??? Mas é aqui do lado! A gente vai quando quiser! Por que você nunca falou?

Ela só fez um gesto de “sei lá”. Fomos ao Rio, ela gostou muito. E eu, que já conhecia o Rio mas nunca tinha feito programa de turista, me diverti como nunca. Acho que a Ana também. Porque minha mãe é uma pessoa divertida, engraçada. Fala palavrão pra caralho, comenta maldades das pessoas que estão passando, fica comovida com bobagens. Minha mãe é o meu lado bom.

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Cada um tem sua história e escolhe o que fazer com ela. Você pode carregar sua história feito estandarte de procissão, pra todo mundo ver. “Olha como eu sofri”, “olha o que eu passei”, “eu não tenho culpa, minha vida foi muito dura”. Ou você pode usar sua história para aprender, ser uma pessoa melhor e ajudar os outros com sua experiência. Essa foi a escolha que minha mãe fez. Quem convive com ela tem muita sorte. Eu e meus irmãos temos mais ainda.

Te amo, mãe.

(tudo isso porque o aniversário da véia foi em abril, já dei presentes e hoje não vou dar porra nenhuma)

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Tá bom, vou expor um pouco a minha mãe.

Minha mãe tem uma coisa com Caetano Veloso. Caetano pode tudo. Homem que usa brinco? “Bicha.” Mas o Caetano usa brinco. “Caetano pode.” E saia? Caetano já saiu em público DE SAIA. “Caetano pode tudo.” Só adulto eu fui entender essa carta branca que o Caetano tem com ela. Ela me contou:

— Quando a gente veio pra São Paulo, baiano era tudo que havia de ruim. Tudo que não prestava era coisa de baiano, era baianada, era “tinha que ser baiano”. Se você era baiano, era como se você não existisse. Eu tinha vergonha de ser baiana. Aí apareceu o Caetano. Eu assistia ele na televisão, todo mundo prestando atenção naquele baiano ali. Teve aquela vez que vaiaram ele, eu fiquei tão brava! Era como se estivessem vaiando um irmão meu. Mas mesmo vaiando, ninguém ignorava Caetano. Todo mundo prestava atenção nele, todo mundo via ele. Que orgulho de ser baiana igual a ele!

Minha mãe adolescente era fã de Caetano. Quando ele gravou “Felicidade”, do Lupicínio Rodrigues, ela vivia cantando a música. Meu pai, que estava de olho nela, comprou um violão e aprendeu a tocar a música. Deu certo, e eu estou aqui graças a Caetano Veloso. Indiretamente. Por favor.

Uns anos atrás eu sonhei que estava num ponto de ônibus e no ponto do outro lado da avenida, recostado no banco, estava o Caetano com um violão, cantando “Trem das Cores”. Minha terapeuta na época, que já conhecia a história da minha mãe, falou que Caetano era para mim um símbolo de autoestima.

Então toma aí um pouco de Caetano, mãe. Essa música eu acho que ele fez depois que Dona Canô morreu. Tomara que você viva tanto quanto ela. Ô, véia que custou a morrer!

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Cês tão achando que eu sou um bom filho, né? Um bom filho da puta, se tanto. Dia desses eu tava insistindo pra minha mãe adotar um cachorro.

— Pra quê, Marco? Depois o bichinho morre e a gente fica sofrendo.

— Mãe, cachorro pequeno vive pelo menos 15 anos. Você tá com 65. Faz as contas. O cachorro que vai sofrer.

Visitei uma escola ocupada 5

Toda hora notícia de escola ocupada em São Paulo, que não sei quê de reorganização, que a polícia isso e aquilo, que governador suspendeu não sei quê, me enchi o saco de notícia.

Na quarta-feira, dia 9, estava passeando com o cachorro e descobri que a escola aqui perto de casa, a Escola Estadual Barão Homem de Mello, estava ocupada. Olhei pelo buraco do portão, tinha um garoto passando lá dentro. Estavam ouvindo funk em volume baixo, novidade para mim. O garoto acenou, veio falar comigo. Ele e outro conversaram pelo buraco do portão. Disseram que estavam limpando a escola, por isso eu não podia entrar. Estavam mesmo: lá dentro, alguém passava um rodo pelo piso de granito. Me convidaram para ir visitar outro dia. Fui agora.

Passei por lá e tinha um carro de polícia na porta da escola. Um policial estava dentro do carro, o outro estava postado ao lado do portão. Fui até a esquina, parei um pouco, mexi no celular, voltei. Estavam os dois fora do carro, um deles falava com alguém lá dentro pelo buraco do portão. Fui até a outra ponta da rua, voltei, a polícia tinha ido embora. Bati no portão, ninguém veio. Chegou um grupo pela calçada, de bicicleta e skate. “Tio, bate aí no portão pra eles abrirem?” Bati de novo. “Não, tio. Tem que ser com força.” Só um deles falava comigo, os outros olhavam desconfiados. Expliquei que tinha conversado com dois deles na quarta (a cada um eu perguntava “foi com você que eu falei?”; a merda de ficar velho é que os jovens vão ficando todos iguais). Os que estavam lá dentro vieram abrir, eu dei um passo para o lado. Os recém-chegados entraram, outros saíram. Todos olhavam para mim com desconfiança. Eu, feito um songamonga, perguntava a cada um: “foi com você que eu falei?”, até que um deles respondeu que sim, que lembrava de mim etc.

Perguntei dos policiais que tinham acabado de sair. “Vixe, eles vêm direto”, um deles me explicou. A polícia vai, pergunta em quantos eles são, se está tudo bem, se precisa de alguma coisa, quem está na liderança do movimento. “Mas a gente não entrega nada.”

Expliquei que eu era vizinho da escola e roteirista do Papo de Segunda. Eles assistem ao programa, gostam, são fãs do Tas. Perguntei como eles tinham entrado nesse negócio de ocupar escola. “Eu sempre escutei que a gente era uma geração perdida”, disse um deles, de 17 anos. “Aí eu ficava puto, porque eu não queria ser isso aí. Quando apareceu aqui a eleição do grêmio da escola eu entrei na chapa junto com ele, ganhamos de lavada. Aí logo depois veio a ocupação e a gente ajudou a organizar. Quanto mais falam que a gente é geração perdida, mais eu quero mostrar que não.”

Enquanto conversávamos passou um cara falando no celular. Passou de novo. Um dos meninos cutucou o outro, apontou pro cara. Então me explicou: “Tô estranhando o movimento desse aí. Toda hora ele passa, puxa as faixas, bate no portão, fica olhando. À noite às vezes vem gente aí bater no portão, já tentaram pular o muro.” Eles não sabem quem são. “Talvez o pessoal que apóia o PSDB, sei lá”, disse o outro. Perguntei se eles eram de algum partido. “Não, nada a ver. A gente tem alguns apoios, aceita ajuda de quem quiser ajudar, mas o movimento é nosso. Falam tanto do PT, mas não vem ninguém do PT aqui também.”

“Só para deixar claro”, eu disse a eles. “Eu odeio o PT. Sou de direita. Fui em protesto contra a Dilma.” Achei que eles iam me tratar como se eu fosse o demônio. Qual o quê! “Ah, é? Então, mano, tem que protestar mesmo.” Porra.

Hoje teve um conflito em outra escola aqui da região, no Parque da Juventude (um parque lindo que fica onde antes ficava o presídio do Carandiru). É uma escola técnica, que nem entra na reorganização. Os alunos ocuparam em solidariedade aos outros e porque têm reivindicações próprias. Um grupo de pais foi até lá tentar desocupar a escola à força. Eles, os meninos que estavam falando comigo, foram lá ajudar a proteger os colegas. Fizeram um cordão de isolamento em volta da escola. Um dos pais partiu para cima do moleque de 15 anos. “O cara grandão me agrediu”. O outro completa: “Apertou ele, mano. No… Naquele lugar”. “No saco?!”, eu pergunto, e eles dão risada. “É, mano. Quase que fica aleijado.” O adulto que agrediu o menino é advogado.

Enquanto eu falava com eles, saiu um barbudo lá de dentro. Barba ruiva, olhos azuis. Perguntei se era aluno. Não: era professor, estava lá apoiando os meninos. Disse que o que aconteceu no Parque da Juventude hoje era fruto de grupos que estão querendo jogar alunos uns contra os outros, e que entre os que tentavam invadir a escola havia pais e alunos. Perguntei quem eram esses grupos, ele se enrolou. Falou umas palavras prontas lá. Ainda bem que ele já estava de saída, porque adulto é muito chato.

Preocupado em estar machucando mais ainda o saco do menino com minha conversa mole, disse que ia embora e que podiam me chamar se precisassem de alguma coisa. Eles me convidaram para entrar na escola. Estava limpa, com cheiro bom. Acho bonito o que eles estão fazendo. Semana que vem volto lá para explicar a eles as vantagens do livre mercado, da propriedade privada, da liberdade individual…

Carequito 3

471860_399551686788686_679579768_oHoje é aniversário desse careca aí. O careca branco de óculos. O Marcelo Tas, caralho.

Nos longínquos anos 80, eu era o único moleque do bairro que assistia na TV Gazeta as reportagens do Ernesto Varela. Era uma sensação boa, aquela de descobrir uma coisa nova. Eu era tipo um hipster precoce da periferia. E demorei para desfazer na minha cabeça um mal-entendido compreensível: para mim, Ernesto Varela era o nome da pessoa e Marcelo Tas era o personagem. Compreensível porque Marcelo Tas parece nome de personagem mesmo. Fala isso alto: Marcelo Tas. Soa modernoso. Prafrentex, como diz a geração dele. Fala com a entonação que ele falaria: Marcelo Tás. As novas mídias. Eu sou viciado em televisão. Tchuqui-tchuqui. Olha is-so.

Tá, estou divagando.

E aí fui acompanhando o cara. Lembro dele no Vídeo Show. Depois ele foi para a Cultura, fez todas aquelas coisas que ficaram na memória afetiva de toda uma geração um pouco mais jovem do que eu. Lembro dele no Saca Rolha, no Canal 21. Em abril ou maio de 2008, o Sérgio Faria escreveu no Catarro Verde que Marcelo Tas estava com um programa novo na Band. Fiquei intrigado com aquele nome nada a ver, CQC. Eu e Ana começamos a assistir e virou programa obrigatório às segundas. Vi pela primeira vez caras que tempos depois viriam a ser meus amigos.

Em fevereiro de 2009 recebi uma ligação de um tal José Palito. Ele perguntou se eu conhecia um programa chamado CQC. Claro que eu conhecia. Se eu queria ser roteirista? Sim, claro. Estava mesmo estudando isso na época. Mas como ele sabia? Ele não sabia. Conhecia meu blog. Este blog aqui. Eita, blog abençoado!

Fui lá falar com o tal José Palito (nome real Alex Baldin, hoje mestre supremo do The Noite), fiz teste. Depois fui ser entrevistado por ele e o Diego Barredo, o chefe da produtora. A entrevista foi num bar, eu fiquei bêbado e saí certo de que nunca mais ouviria falar dos caras. No dia seguinte José Palito me ligou para dizer que a vaga era minha. O susto foi tão grande que eu quase recusei. Se não fosse minha mulher, eu acho que teria mesmo recusado. Cabaço.

Essa história toda é pra contar como Marcelo Tas virou meu bróder. Primeiros dias trabalhando no CQC, chega ele. Simpático, gentil. A voz um tom mais grave quando ninguém está gravando. Sangue bom.

Marcelo é um caipira no melhor sentido da palavra. Desconfiado, malandro, o famoso que-se-faz-de-morto-pra-comer-o-cu-do-coveiro. Caipira daqueles de ir a Ituverava para conversar com os pais e tios sobre as decisões e acontecimentos da vida. Não se deixem enganar por essa imagem cosmopolita: escrevendo no New York Times ou esquiando na Suíça com o Paulo Coelho e o tal do visconde (tem um visconde lá, acho que é lance de bunda), o recheio dessa careca reluzente aí está sempre em Ituverava.

Nossa convivência nem sempre foi fácil, mas sempre foi divertida. O carequito é cheio de surpresas. Esse gorro aí da foto ele comprou pra mim em Londres. De algum outro lugar ele me trouxe um aparelho de raspar a cabeça. Somos tipo uma confraria de carecas: trocamos dicas de como manter nossas vastas e lisas cabeças sempre brilhantes e bonitas.

Ele tem outras surpresas também. Dia desses descobri que o bicho estudou a vida e a carreira do Buster Keaton, vejam só. Outra surpresa: em 2012 ele me chamou pra fazer o Conversa de Gente Grande, um programa que, se não fosse a cegueira dos executivos de TV, ainda estaria no ar. De vez em quando ele liga pra me dar um toque qualquer. Essas conversas esporádicas são as mais longas que tenho por telefone. Eu tento ser blasé, mas vejam minha situação: é o Ernesto Varela, o Professor Tibúrcio, a porra do Marcelo Tas me ligando pra conversar, perguntar, contar história. É muito legal isso aí. Eu sei que é jacu dizer isso, mas foda-se, é aniversário do cara.

Em 2014 acabou a nossa parceria no CQC. Mas ele não resistiu: em maio deste ano eu pedi demissão e dias depois estava de novo trabalhando com ele, agora no Papo de Segunda. E nossa vida segue a mesma: nos divertimos muito, brigamos às vezes, ficamos com raivinha um do outro. Mas é tudo teatrinho, e estamos sempre de bem. Tem sido uma convivência muito enriquecedora. Espero poder ter colaborado em alguma coisa pra vida dele também.

Feliz aniversário, véio careca.

Meu irmão, o super-herói 6

Hoje eu vi meu irmão fazer uma coisa impressionante.

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Tenho um vídeo do meu irmão, de 2001 ou 2002 (não garanto). Ele tinha então 21 ou 22 anos, uma cara redonda e uma barriga saliente. Nada que se compare à minha, mas saliente. No vídeo, ele bate na barriga e diz: “Essa é minha pança”. Aí ele faz uma pausa e completa: “Eu vou perdê-la”.

Pouco tempo depois ele começou a correr.

Meu irmão (o da direita) em 2002

Meu irmão (o da direita) em 2002

Semana passada minha irmã contou que também começou a correr. Correu 4 quilômetros e quase morreu. Meu irmão disse que é assim mesmo. “A primeira vez que eu fui correr no Ibirapuera”, ele contou, “corri quinhentos metros e quase morri”.

Nesses anos todos nós acompanhamos a evolução dele. Ele correu a São Silvestre. Correu meias-maratonas. Correu maratonas inteiras. Em Roterdã (acho que foi Roterdã, não garanto), ele estava correndo uma maratona e viu de longe uma garotinha que saía de uma casa. Ele estava sozinho. Não sei em que posição ele estava, só que estava sozinho, nenhum corredor à vista. Fazia pouco tempo que nosso pai tinha morrido. Era assim que estávamos todos na época: sozinhos. Quando ele chegou perto, viu que a menina tinha bolachinhas na mão. Ela ofereceu as bolachinhas a ele, que começou a chorar. Somos desses.

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O que meu irmão fez hoje é impressionante justamente por ele parecer ser um homem comum. Ele trabalha, participa de reuniões, anda de metrô. É casado, quer ter filhos, acabou de comprar um apartamento. Gosta de Bisnaguinha com Nutella. Ele é como Clark Kent ou Peter Parker: só um cara qualquer. Né?

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Quando ele começou a correr, tinha 22 anos (não garanto). Agora ele tem 35 e já deve estar longe pra caralho.

Mentira.

Quando meu irmão decidiu começar a correr, ele foi ao Ibirapuera, correu quinhentos metros e quase morreu.

Hoje ele correu 21 quilômetros. Mas não foi só: antes disso, ele pedalou 90 quilômetros. E antes ainda ele nadou 2 quilômetros. E depois disso tudo ele veio conversar com a gente, como se tudo isso não fosse nada. Porque é isso que um super-herói faz quando está entre nós.

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Meu irmão hoje

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Hoje eu vi meu irmão fazer uma coisa impressionante: ele reuniu a família inteira em Miami, com o dólar a 4 reais.

— É um pássaro? É um avião?

Vai tomar no seu cu, que não tem pássaro que se sustente com uma cabeça daquele tamanho. É o Beto, meu irmão. Um super-herói.

 

Dia dos Pais 2

Só quando meu pai morreu descobri que esse era o hino preferido dele na Congregação Cristã no Brasil. Eu não sei se Deus existe, mas tenho certeza que Ele escolheu meu pai e que revelou a ele coisas de que a gente nem suspeita.

Dos senhores és Senhor, a Ti daremos, sem cessar,
Toda honra e louvor, de coração,
Pois quiseste aos pequenos Teus tesouros revelar,
Pelo Teu amor e imensa compaixão

Teus tesouros revelaste
Aos humildes que chamaste,
E por graça os adotaste
Filhos Teus, por Jesus Cristo, o Salvador.

Teus tesouros ocultaste para os sábios, ó Senhor,
Mas Te aprouve revelá-los para nós
E também a todo aquele que se achega ao Redentor,
Atendendo, humildemente, a Sua voz.

Anunciamos neste mundo que Jesus é o Salvador,
Que com graça O enviaste, ó bom Deus;
Mesmo que aqui sejamos odiados, ó Senhor
Nós teremos grande galardão nos céus

Entrevista do baú 1

Em maio de 2003, conforme esse post, eu dei uma entrevista ao Sr. Paulo Polzonoff Jr. A entrevista foi publicada e, como tudo o que o Polzonoff já publicou na internet, apagada depois. Hoje eu encontrei essa preciosidade e, não tendo onde enfiá-la, mostro aqui pra vocês. Ei-la:

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Paulo Polzonoff Jr.: Marco Aurélio, como surgiu a idéia de montar a Jesus Me Chicoteia Inc?

Marco Aurélio: Eu tive uma epifania. Estava no banheiro desfrutando as delícias do papel higiênico de pêfego quando ouvi uma voz vindo do alto. Olhei para cima, e era de dentro do chuveiro que vinha a voz, dizendo:

— MARCO AURÉLIO, MEU FILHO! PARE DE FAZER MERDA!

— Agora não dá, pô! — tentei argumentar, mas não adiantou. O dono da voz continuou:

— Eu sou é Deus, tá me ouvindo? DEUS!!! Vim até aqui chamá-lo para ser meu profeta

— Sei. De dentro do encanamento?

— Acabo com a tua raça, seu mequetrefe — o cara, fosse quem fosse, parecia deveras emputecido.

— Como? Jogando um jato de água quente e outro de água fria até eu morrer de choque térmico?

— ESCUTA AQUI Ô COISA RUIM! NÃO TENHO TEMPO A PERDER COM UM ZÉ MANÉ FEITO VOCÊ! VAI ME OUVIR OU NÃO?

— Vai falando, vai falando.

— Seguinte: Você vai reescrever a bíblia.

— Reescrever a bíblia?

— É. Para divulgar minha palavra na Internet.

— Divulgar sua palavra na Internet?

— PÁRA DE REPETIR O QUE EU FALO, PORRA!

— Ok, ok. Mas tem uma coisa aí, Jeová: eu sou ateu, tá sabendo?

— Sei. E não ligo. Trate logo de ir escrevendo.

— E se eu não quiser?

— Hum… Leia I Samuel 5

— I Samuel 5… Peraí, não é aquela história de quando Deus mandou uma praga de hemorróidas para a Filistia?

— …

— Tá, tá eu escrevo.

— Assim que eu gosto. Bom, vou nessa. Té mais.

Bom, foi isso. Criei o JMC para salvar meu rabo

 

PP: Como empreededor de sucesso, o que vc já conseguiu de bens materiais graças ao seu multimilionário blog?

MA: Hum… Hospedagem e comida grátis nas viagens que faço. Mas estou pensando numa maneira de lucrar com o JMC. Lavando dinheiro, talvez. Ou então cobrando dízimo dos fiéis, o que vem a dar na mesma.

 

PP: Todo mundo quer saber: é verdade que graças ao blog vc já comeu a Sônia Abrão?

MA:  Ainda não. AINDA! Mas está nos meus planos. Não posso deixar escapar uma mulher que, além de inteligente, gostosa e talentosa, ainda tem nome de patriarca no nome.

 

PP: Você pode nos fazer uma lista das celebridades nas quais vc já passou o rodo depois de se tornar também uma celebridade?

MA: “Passou o rodo”? Que porra de expressão é essa?

 

PP: Recentemente, em uma visita ao Rio de Janeiro, vc esteve com a governadora Rosinha. É verdade que ela lhe pediu para ser mais crente no JMC?

MA: É verdade. Aí eu respondi que o faria assim que ela começasse a governar o estado do Rio de Janeiro. Ela desconversou.

 

PP: Por falar nisso, vc recebe muitas cartas de crentes enfurecidos com suas blasfêmias? O que vc tem a dizer a eles?

MA: Recebo, recebo. O que dizer a essa gente? Vão rezar pela minha alma, ó caralho! Não são nada piedosos, esses fundamentalistas.

 

PP: Já comeu alguma crente?

MA: Já. Comidinha de primeira, e já vem abençoada.

 

PP: É verdade que vc está pensando em fundar uma seita religiosa?

MA: Ué, uma seita pode ser não-religiosa? Hum… Mas tenho pensado sim. Acho que é o melhor jeito de se ganhar dinheiro rápido hoje, depois de acertar os números da MegaSena. Isso sem contar que eu vou comer tudo quanto é vagabunda.

 

PP: Há quem o acuse de plágio em suas paródias da Bíblia. O que vc tem a dizer ao Autor das Escrituras?

MA: Ele que me processe. Quero ver ele ter a manha de ir buscar um advogado no inferno.

 

PP: Dizem que vc recebeu o maior cachê jamais pago para escrever a orelha do livro da Daniela Abade. É verdade? De quanto foi o cachê? Vc não tem pena dos escritores coitadinhos?

MA: Só falo na presença dos meus advogados. Mas foi um bom dinheiro. Digamos que deu pra comprar uma mariola e ainda voltar de ônibus pra casa. Quanto aos escritores, que se fodam. Como de hábito.

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PP: Vc já comeu a Daniela Abade?

MA:  Está entre os meus projetos futuros. Belos peitos.

 

PP: É verdade que a Avon o está contratando para uma nova campanha publicitária, por causa do seu rosto bonitinho e simpático?

MA:  Sim, é verdade. E também serei dublê de bunda para comerciais de produtos anti-celulite.

 

PP: Vc já usou pó da Avon? Dizem que vc foi viciado, mas Jesus te curou.

MA: Você está me confundindo com o Fernandinho Beiramar. Todos fazem isso.

 

PP: Vc já teve experiências homossexuais?

MA: Não.

 

PP: Vc é coprófilo? Tem cara…

MA: Te comi? Não, né? Portanto não sou coprófilo.

 

PP: Vc é bicha?

MA: Não.

 

PP: Vc é veado?

MA: Não.

 

PP: Vc dá a bunda?

MA: Só nas horas pares dos dias ímpares, exceto nos anos bissextos terminados em 8.

 

PP:  O que vc tem a dizer aos milhares de fãs idiotas do seu blog idiota?

MA: Continuem sendo idiotas nesse nível, por favor. Se ficarem mais idiotas que isso correm o risco de começarem a ler o Polzonoff.

Salto no escuro 11

“Deus proverá”, meu pai sempre dizia. Hoje eu resolvi testar.

Quase exatamente dez anos atrás, eu estava trabalhando num lugar que me fazia mal, acabando com a minha saúde e corroendo a alma dia a dia. Então decidi que não ia chegar aos 30 anos fazendo o que não gostava. Pedi demissão e foi a melhor decisão da minha vida: arrumei outro emprego em seguida para fazer algo agradável, esse emprego abriu outras portas, cheguei aqui, estava bem.

ESTAVA bem.

Comecei a sofrer de novo, minha saúde afetada, meu bom humor inexistente. Faltam duas semanas para eu chegar aos 40 anos. Então hoje eu pedi demissão.

Foram mais de 6 anos de CQC. Fiz amigos, aprendi muito. Acabou.

Estou morrendo de medo, mas feliz como não ficava há muito tempo. Acho que é a nova melhor decisão da minha vida.

Pitbulls 2

Uma vez minha cunhada achou um pitbull andando aqui na nossa rua. Eu fiquei só olhando pela janela. Nunca tinha chegado perto de um pitbull, só conhecia a reputação da raça. Eu tinha medo.

Minha cunhada é veterinária. Ela me disse que precisava sedar o cachorro para cuidar dele. Ele tinha sangue coagulado no pescoço e no peito. O pescoço tinha furos a intervalos regulares. “Arame farpado”, ela disse. Eu não entendi, então ela me explicou: os furos eram porque a pessoa excelente, imagem e semelhança de Deus que havia abandonado o cachorro, tinha esse costume de amarrar o bicho com arame farpado.

Ela deu sedativos enrolados em carne para o cachorro. Aumentava a dose e nada do bicho dormir. Então veio o que eu mais tinha medo: ela ia ter que dar uma injeção num pitbull, e precisava da minha ajuda.

Na primeira picada, ele arrebentou a focinheira. Em nenhum momento ele fez menção de nos morder, só tentou fugir pra dentro de casa.

Algumas tentativas depois, ela conseguiu botar o cachorro pra dormir. Eu ajudei a cuidar dele. Estava cheio de carrapatos, de berne e tinha uma bicheira em cada furo do pescoço (bicheira é um amontoado de larvas de mosca incrustado na carne, a única coisa que eu conheço que é mais nojenta do que berne).

Quando acordou, o cachorro já tinha um nome, dado pela minha outra cunhada: Brucutu. Ele passou um tempo lá. Um mês ou dois, sei lá. Eu passava por lá, dava um bifinho ou um coco (coco é o único brinquedo de morder capaz de resistir mais de cinco minutos com um pitbull).

Brucutu foi adotado por um rapaz simpático. Ele dorme na cama do dono e deita a cabeçorra no colo da mãe dele quando ela senta pra fazer tricô.

Eu nunca tinha ligado pra cachorro na minha vida. Nessa época, cheguei a pensar em adotar o Brucutu. Não deu, mas quando o Rondeli apareceu abandonado aqui na vizinhança, eu não deixei escapar. Foi a melhor decisão que tomei na vida.

Aprendi que cachorros precisam de companhia humana. Nós inventamos o cachorro pra isso. Depois de quatro anos com o Rondeli, aprendi também que a gente precisa de companhia canina.

Lendo esse artigo aqui, lembrei do Brucutu. Ele sofreu tanto nas mãos das pessoas, mas nunca pegou raiva da nossa espécie. Pitbulls não são monstros: são cachorros e precisam de companhia.

(e se você quer um cachorro, adote)

Bar Mitzvah 6

Hoje este blog chega aos 13 anos. Já não é nem sombra do que já foi, mas mantenho o bicho no ar só porque devo muito a ele. Parabéns pro JMC, parabéns para mim.

Monte Santo pelos olhos do meu pai 4

IMG_5753Em agosto de 2009, pouco mais de um ano antes de morrer, meu pai voltou a Monte Santo. Monte Santo é aquela cidade no sertão da Bahia onde aconteceu a história do capoeirista. Não foi a primeira vez que Seu Lindauro voltou à terra natal. Só que dessa vez teve um detalhe: ele levou uma câmera, uma Canon Powershot A710 emprestada pela Ana Carlota. Acho que ele nunca tinha usado uma câmera antes.

Hoje abri esse álbum de fotos e fiquei olhando cada uma devagar. Meu pai viajou com a irmã, e tem fotos que foram tiradas por ela. Gosto de imaginar que ele fez todas as fotos em que não aparece. Não sei bem quem são essas pessoas. Meu pai explicou na época, não guardei nada. Muitas dessas fotos parecem clichês de filme nacional de seca. Não ligo. Em cada rosto desses aí, de gente bruta, vejo traços dos meus avós, do meu pai e dos meus tios, meus, dos meus irmãos, dos meus primos, dos meus sobrinhos. Fico pensando que estou vendo Monte Santo, que nunca conheci, pelos olhos do meu pai, saudosos de infância. E que a existência dele, que foi tão curta aqui na Terra, se projeta no presente e no futuro, sobre nós que ficamos aqui miudinhos de saudade.

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