Pitbulls 2

Uma vez minha cunhada achou um pitbull andando aqui na nossa rua. Eu fiquei só olhando pela janela. Nunca tinha chegado perto de um pitbull, só conhecia a reputação da raça. Eu tinha medo.

Minha cunhada é veterinária. Ela me disse que precisava sedar o cachorro para cuidar dele. Ele tinha sangue coagulado no pescoço e no peito. O pescoço tinha furos a intervalos regulares. “Arame farpado”, ela disse. Eu não entendi, então ela me explicou: os furos eram porque a pessoa excelente, imagem e semelhança de Deus que havia abandonado o cachorro, tinha esse costume de amarrar o bicho com arame farpado.

Ela deu sedativos enrolados em carne para o cachorro. Aumentava a dose e nada do bicho dormir. Então veio o que eu mais tinha medo: ela ia ter que dar uma injeção num pitbull, e precisava da minha ajuda.

Na primeira picada, ele arrebentou a focinheira. Em nenhum momento ele fez menção de nos morder, só tentou fugir pra dentro de casa.

Algumas tentativas depois, ela conseguiu botar o cachorro pra dormir. Eu ajudei a cuidar dele. Estava cheio de carrapatos, de berne e tinha uma bicheira em cada furo do pescoço (bicheira é um amontoado de larvas de mosca incrustado na carne, a única coisa que eu conheço que é mais nojenta do que berne).

Quando acordou, o cachorro já tinha um nome, dado pela minha outra cunhada: Brucutu. Ele passou um tempo lá. Um mês ou dois, sei lá. Eu passava por lá, dava um bifinho ou um coco (coco é o único brinquedo de morder capaz de resistir mais de cinco minutos com um pitbull).

Brucutu foi adotado por um rapaz simpático. Ele dorme na cama do dono e deita a cabeçorra no colo da mãe dele quando ela senta pra fazer tricô.

Eu nunca tinha ligado pra cachorro na minha vida. Nessa época, cheguei a pensar em adotar o Brucutu. Não deu, mas quando o Rondeli apareceu abandonado aqui na vizinhança, eu não deixei escapar. Foi a melhor decisão que tomei na vida.

Aprendi que cachorros precisam de companhia humana. Nós inventamos o cachorro pra isso. Depois de quatro anos com o Rondeli, aprendi também que a gente precisa de companhia canina.

Lendo esse artigo aqui, lembrei do Brucutu. Ele sofreu tanto nas mãos das pessoas, mas nunca pegou raiva da nossa espécie. Pitbulls não são monstros: são cachorros e precisam de companhia.

(e se você quer um cachorro, adote)

Bar Mitzvah 6

Hoje este blog chega aos 13 anos. Já não é nem sombra do que já foi, mas mantenho o bicho no ar só porque devo muito a ele. Parabéns pro JMC, parabéns para mim.

Monte Santo pelos olhos do meu pai 3

IMG_5753Em agosto de 2009, pouco mais de um ano antes de morrer, meu pai voltou a Monte Santo. Monte Santo é aquela cidade no sertão da Bahia onde aconteceu a história do capoeirista. Não foi a primeira vez que Seu Lindauro voltou à terra natal. Só que dessa vez teve um detalhe: ele levou uma câmera, uma Canon Powershot A710 emprestada pela Ana Carlota. Acho que ele nunca tinha usado uma câmera antes.

Hoje abri esse álbum de fotos e fiquei olhando cada uma devagar. Meu pai viajou com a irmã, e tem fotos que foram tiradas por ela. Gosto de imaginar que ele fez todas as fotos em que não aparece. Não sei bem quem são essas pessoas. Meu pai explicou na época, não guardei nada. Muitas dessas fotos parecem clichês de filme nacional de seca. Não ligo. Em cada rosto desses aí, de gente bruta, vejo traços dos meus avós, do meu pai e dos meus tios, meus, dos meus irmãos, dos meus primos, dos meus sobrinhos. Fico pensando que estou vendo Monte Santo, que nunca conheci, pelos olhos do meu pai, saudosos de infância. E que a existência dele, que foi tão curta aqui na Terra, se projeta no presente e no futuro, sobre nós que ficamos aqui miudinhos de saudade.

Re: Re: Res: Re: Fwd: Re: A Bíblia Sacaneada 2

Mudei o blog pra outro servidor servidor e neguinho começou a reclamar que os links para os arquivos PDF estavam quebrados. Só vi os comentários hoje e tratei de consertar. Aqui estão eles.

 

Samaritanos de Facebook 6

Acabo de saber que além do povo que protesta pelo Twitter e acha que tá mudando o mundo (não sei pra que mudar o mundo, mas vá lá), existe gente muito pior, que “ajuda” bichos pelo Facebook. Nego vê um cachorro atropelado na rua e posta no Facebook. “Gentem, vi um cachorro atropelado, tá bem machucadinho, coitado. Será que alguém pode ajudar? Se ninguém ajudar, o pobrezinho vai morrer.” AJUDA VOCÊ, FILHO DA PUTA! VOCÊ VIU O BICHO SOFRENDO, NÃO FEZ PORRA NENHUMA E AINDA ACHA QUE É UMA BOA PESSOA PORQUE POSTOU ISSO NO FACEBOOK! MOSTRAR QUE É LEGAL É MAIS IMPORTANTE PRA VOCÊ DO QUE UM PRATICAR ATO ANÔNIMO DE BONDADE! VOCÊ É UM MONSTRO! MORRA COM UM TIRO NO CU!

Ai, gente. Eu fico TÃO nervosa…

Seleção natural

As idéias precisam encontrar outras idéias diferentes delas, de outra linhagem. Aí elas podem se conhecer e ter ideiazinhas filhotes. Só que o que mais se vê é gente que só convive com quem tem idéias iguais. Essas idéias da mesma linhagem ficam se reproduzindo.Essa reprodução consangüínea é que gera as ideiazinhas retardadas que a gente é obrigado a aturar todo dia.

Todo mundo conhece gente que votou no outro candidato. Vai lá, conversa, tenta entender. Tem coisas boas lá, garanto.

Carteira 5

Hoje eu perdi minha carteira.

Passei o dia tentando perder a carteira. Primeiro ia saindo de casa sem ela. Mais tarde, tirei ela do bolso e abri na frente de um craqueiro. Depois deixei o carro no estacionamento, saí, percebi que estava sem carteira, voltei, procurei e não achei. “Olhou no porta-luvas?”, perguntou o manobrista. Eu nunca boto a carteira no porta-luvas. Mas abri, e lá estava ela.

Fui trabalhar, saí para almoçar com a Lilla (na verdade eu fui almoçar, ela é peã e almoça às nove e meia da manhã ou algo assim, só tomou uma coca). Paguei a conta, depois paguei o estacionamento com dinheiro que tirei da carteira e voltei para o trabalho.

Depois disso não lembro mais. Na hora de sair do trabalho fui procurar a carteira e não achei. “Deve ter ficado no carro”, pensei. Entrei no carro, lembrei que precisa comprar umas coisas na Kalunga e esqueci de procurar a carteira. Saí de Perdizes e fui até a Rebouças. Já no estacionamento da Kalunga lembrei de procurar a carteira. Não estava no carro, não estava na mochila. Voltei para o trabalho: não estava na minha sala. Desci, o segurança havia trancado a porta que dá acesso à minha sala. Esmurrei a porta, saí xingando, bati a porta da produtora, en-lou-que-ci-da. Fui até o estacionamento da hora do almoço, não tinham achado carteira nenhuma. Voltei para a produtora, perguntei aos seguranças da rua, vasculhei o carro mais uma vez. Entrei na produtora, pedi desculpas ao segurança, subi de novo até minha sala, procurei de novo, nada. Procurei o telefone do prédio onde a Lilla trabalha, liguei, não sabiam de carteira nenhuma. Desci, pedi desculpas de novo ao segurança, vasculhei o carro mais uma vez.

Já cancelei os cartões, pedi segundas vias ao Detran e ao plano de saúde. Tinha algum dinheiro na carteira, paciência. O que me dói mesmo é a carteira. Passei anos procurando uma carteira de que gostasse, em que coubessem as poucas coisas que carrego. Encontrei há coisa de um mês. Aí hoje eu perdi minha carteira.

Idiota.

Londres – Museu da Guerra 6

Nosso plano ontem era visitar o Museu da Guerra e mais alguma coisa. Não deu tempo: mesmo com as exposições das duas Grandes Guerras fechadas, a visita levou 4 horas. Há uma exposição sobre a vida de uma família em Londres durante os bombardeios alemães da II Guerra. E depois disso, a exposição sobre o Holocausto. Lembram que eu falei da capacidade humana de produzir arte depois de ver Billy Elliot (o musical)? Então: a gente tem essa outra capacidade também. Eu resisti bravamente até quase o final da exposição. Só que aí veio o modelo em escala de Auschwitz. Ao lado da maquete, uma pilha imensa de sapatos atrás de uma vitrine. Antes de entrar nas câmaras de gás, os prisioneiros tinham que tirar os sapatos. Eram muitos, muitos pares de sapato. Cada par pertenceu a uma pessoa cujas cinzas foram usadas para fertilizar o solo alemão. Quando a gente chega a um lugar em que tem que tirar os sapatos — um restaurante japonês, a casa de uma pessoa com TOC — a gente sabe que na volta vai se calçar de novo e voltar pra casa. Em Auschwitz, não.

Londres – primeiros dias 1

Não sei se vocês sabem, mas eu e Ana Cartola estamos em Londres. Chegamos na quinta-feira, para dormir. Ontem, sexta, tentamos ir ao London Eye mas estava ventando muito e o bichão estava fechado. Então ficamos bundando por ali. Fomos até o Big Ben, passamos em frente à Abadia de Westminster (estava fora do horário de visitas) e descobrimos ali perto um lugar que serve o típico chá da tarde inglês. Pedimos o típico chá da tarde com capuccino e chocolate quente, porque chá é coisa de fresco. Empanturrados de bolinhos, pãezinhos e outros bagulhinhos fomos caminhando até o Palácio de Buckingham. Depois andamos mais ainda até Trafalgar Square, entramos na National Gallery. Faltavam duas horas para fechar e não deu pra ver nem um quarto do que tem lá; vamos voltar um desses dias.

Hoje amanheceu um diazinho tão safado que achamos que íamos dar novamente com a cara na porta do London Eye. Para nossa surpresa, estava funcionando. É bonito lá de cima, o funcionamento e as dimensões da roda gigante são impressionantes mesmo, mas sou mais o Corcovado.

Depois disso, nada saiu como o planejado. A idéia era visitar dois museus (o de História Natural e o de Ciência). Descobrimos que toda a população da cidade tira os finais de semana para visitar museu. Filas enormes, deixamos para outro dia, decidimos ir aos parques (Kensington e Hyde). Começou a chover forte, os parques cheios de poças, atomanocu, vamos pra um caralho qualquer.

Lembrei do Borough Market, dica do meu irmão. Fomos andando para a estação em Kensington até que encontramos a igreja St. Mary Abbot. Lindíssima, meio sombria. Demos a volta, saiu um negão pela porta lateral. Uma negona. Outro negão. Porra, vamo entrar aí.

Entramos na igreja. Lá dentro, aqueles pretos chiques, sabe? Homens de terno muito bem cortado, Mulheres de chapéu. Tinha uma com um vestido branco cheio de brilhos e uma bunda que devia ser deixada para sempre no altar como prova da existência de Deus.

Não contem pra Ana Carlota que eu reparei na bunda da moça dentro da igreja, ok? Tenho certeza que ela nem notou, porque eu sou muito discreto.

Era um casamento. O vigário (é assim que a gente chama padre de igreja anglicana?) desceu até os bancos, conversou com os convidados, entrou e voltou todo paramentado. Som de órgão, mais convidados chegando. O padreco subiu ao púlpito, disse que estava tudo pronto, só estavam esperando a noiva — “que é um item meio que importante para a ocasião”, disse o vigário.

(Todo mundo é witty nessa terra. Mais tarde pegamos o metrô e o condutor desejou a todos uma boa tarde, um feliz ano novo. “E não impeção o fechamento” — fecha porta, abre porta, fecha porta, abre porta, fecha porta, abre porta — “das portas”. Timing perfeito.)

O casamento estava para começar, então não íamos ficar lá dentro. Saímos pela porta lateral, encontramos a noiva já pronta para entrar pela porta de trás (e o noivo se preparando pra entrar pela porta de trás da noiva, que eu não sou inglês, sou brasileiro, porra!)

Saímos, bebemos e comemos num pub, fomos ao teatro ver o musical Billy Elliot. Eu ainda não estou preparado para escrever sobre Billy Elliot. Só digo que eu não sabia que a humanidade ainda conseguia, nesta nossa época, produzir tanta beleza.

 

E agora vou ali chupar uns soldados, que marinheiro é salgado e preciso controlar a pressão.

Piscinas 3

Fiquei sócio do clube aqui perto de casa. Assim, bem perto. Vou a pé. É na minha porta. É ali na cozinha.

Mentira.

É aqui na sala.

Mentira. É a Associação Atlética São Paulo. Tem quadras de tênis, aparelhos de ginástica, campos de futebol society. Eu não pretendo usar nada disso. Tem uma piscina olímpica também, e essa eu uso. Uso pra dar um tchibum e depois boiar um pouco. O ruim disso: eu, uma grande massa marrom, pulo na água e fico lá boiandão. Quando você for ao banheiro, pode anunciar: “Licença, galera, vou levar o Marco Aurélio no clube”.

Esqueça isso, por favor.

O negócio é que eu aprendi a nadar numa piscina de 2,5 por 4 metros. Dois metros e meio de circunferência, quatro de profundidade. Mentira,  ok? 2,5 x 4,0 x 1,2. Essa foi a piscina GRANDE que meu pai fez quando éramos crianças. Antes dela, meu pai e Seu Édson, o pedreiro faz-tudo da família, bolaram uma coisa bem menor. Era um buraco retangular cimentado tão pequeno que meu pai não chamava de piscina, mas de POÇO RECREATIVO. E eu acho que ele e Seu Édson se esqueceram de alguns detalhes, como colocar um ralo, por exemplo. A gente enchia aquela piscina com a mangueira (e nem enchia muito, meu irmão era muito pequeno, podia se afogar e blablablá), brincava ali um dia ou dois. Depois disso a água começava a ficar turva, depois suja, depois podre. Aí era hora das crianças entraram na água com baldes na mão para esvaziar a piscina. Às vezes chamávamos os vizinhos para brincar só pra depois ter mais braços no trabalho de esvaziamento. A gente ficava naquilo a manhã inteira, como náufragos num bote salva-vidas furado. Quando faltava bem pouquinha água, já não dava pra apanhar com o balde, aí vinha a pior parte: a gente ia pegando água com uma pazinha de lixo e jogando num balde. Enche a pá, enche o balde, joga água pela borda da piscina. Enche a pá, enche o balde, joga água pela borda da piscina. Enche a pá, enche o balde, enche o saco, morre. Acho que o POÇO RECREATIVO não era para a gente se divertir nadando: era para nossos pais se divertirem vendo a gente esvaziando aquela desgraça. Acho até que minha mãe fazia pipoca nessas ocasiões, mas pode ser uma memória falsa.

Mas eu dizia que meu pai me ensinou a nadar. Seu Lindauro era do sertão da Bahia, de uma região mais seca que a Dilma Rousseff. Água era coisa muito rara por lá, mas existiam açudes sazonais. Quando o açude estava cheio, meu avô aproveitava para ensinar os filhos a nadar. Na vez do meu pai, foi assim: Seu Júlio, meu avô, colocou meu pai na cacunda e atravessou o açude nadando. Aí voltou, tornou a atravessar. Na quarta travessia, chegou no meio, jogou meu pai lá longe e gritou: “agora sai nadando!”. Meu pai aprendeu que foi uma beleza. Nadava em qualquer lugar, sem medo. Íamos à praia, ele já corria pro mar, ia nadando, nadando, até a gente ver só aquela cabecinha lá longe — longe a ponto de eu poder me referir à cabeça de alguém da família no diminutivo.

Quando meu pai me ensinou a nadar, não foi nada tão dramático. Ficávamos lá na piscina (a piscina GRANDE), ele estendia o braço. Aí era só apoiar o abdome na mão dele e bater as mãos e os pés. Pronto, já sabe nadar. Próximo!

Então é assim: eu entro na água, consigo me deslocar, mas não sei nadar. Eu atravessei a piscina olímpica no sábado e saí direto pro INSS pra pedir aposentadoria por invalidez. Estou pensando em contratar um instrutor de natação particular, porque o clube não tem essas coisas. Gosto de ficar na água, me sinto bem. E um dia quero ensinar meus filhos a nadar do jeito certo, porque o jeito da minha família é zoado.